"Os pobres tudo indo para Miami. Uma passagem por R$ 9,99, por mês. Tenho horror a pobre viajando", foi o que disse Caco Antibes, personagem de Miguel Falabella em "Sai de Baixo" (Globo). Anteontem, após a alta recorde da moeda estadunidense, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que dólar alto é bom, e complementou: "não tem negócio de câmbio a R$ 1,80 […] Todo mundo indo pra Disneylândia. Empregada doméstica indo pra Disneylândia. Uma festa danada. Peraí. Vai passear ali em Foz de Iguaçu, vai passear ali no Nordeste, cheio de praia bonita. Vai pra Cachoeiro de Itapemirim, vai conhecer onde o Roberto Carlos nasceu. Vai passear no Brasil, vai conhecer o Brasil, que tá cheio de coisa bonita pra ver".
Se fosse assim, quanto Trump disse que o Brasil estava promovendo desvalorização em massa de sua moeda, por que o presidente Jair Bolsonaro não informou que, segundo o Ministério da Economia, a culpa da desvalorização do real e da alta do dólar seria das empregadas domésticas?
Cachoeiro de Itapemirim agradece o merchandising, mas Caco Antibes é personagem de ficção, por isso suas falas têm o intuito de fazer rir. Já o ministro Paulo Guedes é agente público, representa o Estado, suas falas causam revolta. Não sou economista, nem precisaria ser para entender que o há por trás da alta do dólar não é o aumento de empregados domésticos que conseguem pagar as férias de suas famílias na Disney. E, ainda assim, por que os trabalhadores assalariados não teriam o direito de viajar, conhecer a Disney e fazer uma “festa danada”?
Uma pena que esse sonho esteja longe da realidade financeira da maioria das famílias brasileiras, que, não raramente, passam o maior sufoco para arcar com as despesas mais básicas. Só para constar, exceto nos Estados que utilizam salário mínimo regional (PR, RJ, RS, SC e SP), no Brasil o salário mínimo é de R$ 1.045, média do salário dos empregados domésticos. Enquanto isso, um pacote simples para a Disney não sai por menos de R$ 2.500 por pessoa.
Antes dessa fala desastrosa, o ministro da Economia já comparou servidores públicos a parasitas, já contestou direitos trabalhistas e atacou aposentados e pensionistas. Esses pronunciamentos, além de deselegantes e desrespeitosos, são estarrecedores porquanto refletem a postura institucional do atual governo, desafeto de direitos sociais e defensor do lucro daqueles que já lucram muito, um “Robin Hood às avessas”.
Necessário, então, esclarecer que a alta do dólar não é culpa do aumento do poder de compra dos empregados domésticos, parece ter mais relação com o impacto das especulações em torno do coronavírus, com o descrédito internacional quanto ao modo como o Brasil trata o meio ambiente, com o cenário econômico internacional e, enfim, com as diversas causas que levam investidores estrangeiros a investir menos no Brasil.