Fraudes ao sistema de cotas nas universidades são uma dupla injustiça com o público-alvo dessa política. Além de sofrer as mazelas sociais de suas condições, seja pelo preconceito a negros, pardos e índios, seja pela falta de acesso a direitos básicos que enfrentam os estudantes de baixa renda, essa parcela da população ainda encara a oportunidade de cursar uma universidade, garantida por lei, ser tirada de suas mãos por estratégias desonestas.
Casos como o do aluno expulso da Ufes por burlar a cota social para ingressar no curso de Medicina ilustram bem a nossa corrupção de cada dia, lamentavelmente apelidada de “jeitinho brasileiro”.
Esses ardis, por menores que sejam, como furar uma fila ou esconder dados na declaração do Imposto de Renda, são facetas do mesmo mal que coloca a política brasileira em descrédito, diante de tantos escândalos. Quanto mais a indiferença às “pequenas” ilicitudes ganharem espaço, mais o Brasil vai chafurdar na lama da corrupção.
As cotas, criadas para garantir o acesso ao ensino superior a quem não teria condições de ingressar de outra forma, funcionam como reparação de desigualdades e promoção da diversidade. Podemos e devemos buscar o aprimoramento do sistema – e até sonhar com um dia em que não será mais necessário. Mas, enquanto não chegamos a esse eldorado, não podemos admitir qualquer desvio nos aparatos criados para ajudar as pessoas que são injustiçadas hoje.