Ofereço-lhes hoje um texto de humor que sempre quis fazer: entrevista com Rubem Braga. Os amigos, espíritos estreitamente positivos, tentam me convencer de que o escritor não era humorista e alguns argumentam que seria difícil, só porque estava morto desde dezembro de 1990. Grandes coisas.
O tempo, assim como a morte, é uma metáfora, uma combinação. O nascimento vá lá que seja, é previsível, inclusive quanto ao local, no caso, a secreta Cachoeiro de Itapemirim, de onde partiu para o Rio. Seu brilhante irmão Newton ficou. Em uma entrevista para a Revista Agora, dourou a imprensa capixaba. Quando Newton foi escolhido o cachoeirense ausente daquele ano, mostrou um pingo do seu humor. Fomos entrevistá-lo e ele, repleto de ironia e amor, brincou: “Ser cachoeirense ausente é fácil. Difícil é ser cachoeirense presente”. Só se brinca assim com quem ama.
Vamos ao Rubem.
Desde a era do Pasquim, imaginei entrevistar a turma: Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Stanislaw Ponte Preta, Carlos Drummond de Andrade, Ziraldo, Henfil e grande elenco.
Ignorando a morte e o tempo, encontro-me, agora, cara a cara com Rubem e seus passarinhos. Impressiona-me seu humor de luxo, impregnado de filosofia.
É verdade, o morrer não se submete ao tempo medido.
Primeiro, perguntei-lhe sobre suas ambições, agora que não existe nem presente, nem passado, nem futuro. Disse que seu sonho é ter um consultório sentimental. “Se eu não ficar melancólico, farei de tudo para ficar bêbado”. Sua posição política, deduzi da frase em que justifica: “Já que andamos em tempo de guerra, quero fazer uma dedicatória contra”.
Sobre destino: “Quando vier a grande hora de nosso destino, terei saído há uns cinco minutos para tomar café”. E me convida: “Vamos. Vamos tomar um cafezinho”. Diz que entre um conde e um passarinho, revela um passarinho.
Com o rabo do olho, li um manuscrito em tinta Parker azul lavável, ainda molhado: “Armando, me empresta esses olhos líricos, no fundo dessas olheiras, que eu preciso de magia”.
O telefone toca. Pede para alguém: “Ligue para minha casa. Pergunte se eu estou. Se não estiver, diga que já vou, e se estiver, diga para eu não sair”.
Sobre amizade: “Sempre corro o perigo de cumprimentar efusivamente, quando encontro de súbito, um desafeto qualquer: antes de me dar conta de quem se trata, eu o saúdo, porque é uma cara conhecida”.
Perguntei-lhe sobre a questão viária nas cidades brasileiras. “Nunca precisei usar sistematicamente o bonde Praia Vermelha (bairro carioca), mas sempre fui simpatizante”.
E eu, o da Rua Sete.
*O autor é médico psiquiatra, psicanalista e jornalista