Mesmo sem ter disputado as eleições a nenhum cargo, o governador Paulo Hartung (MDB) saiu politicamente enfraquecido das urnas no domingo. Não só pelo fato mais óbvio: a vitória, em 1º turno, do seu principal adversário no Estado desde 2014, Renato Casagrande (PSB), na eleição ao governo do Estado. Mesmo que indiretamente, Hartung sofreu um conjunto de reveses eleitorais, levando-se em conta duas linhas de análise: por um lado, assistiu à derrota de muitos dos seus principais aliados que se arriscaram nas urnas neste ano; por outro, a configuração das bancadas capixabas em todas as esferas legislativas (Assembleia, Câmara dos Deputados e Senado) revela uma escassez notável de parlamentares eleitos que tenham identificação política com Hartung. Vamos por partes:
Considerando o núcleo de aliados de Hartung que se submeteu ao eleitorado capixaba, houve um acúmulo de insucessos. Mesmo tendo concentrado os recursos da cota do MDB na própria campanha, o deputado federal Lelo Coimbra, vice de Hartung em seu primeiro governo (2003-2006), não conseguiu renovar o mandato na Câmara Federal, mesmo tendo obtido o 10º melhor desempenho individual, com 52.766 votos – 42 mil a menos que em 2014.
Também candidato a deputado federal, o vice-governador César Colnago (PSDB) foi outro que não teve êxito. Como Lelo, o tucano preside e era a aposta única do próprio partido para o cargo. Mesmo assim, passou longe, com 34.187 votos e a 22ª posição. Da mesma forma, o ex-secretário de Segurança Pública de Hartung, Rodney Miranda (PRB), ficou de fora da Câmara, com 42.853 votos e a 15ª colocação. Outros três grandes aliados do governador tentaram chegar à Assembleia, mas, igualmente, sem êxito: Anselmo Tozi (PSDB), Julio Pompeu (PDT) e André Garcia (MDB). Os dois primeiros foram mal votados. Já Garcia alcançou a 20ª maior votação, mas foi outro emedebista a ficar de fora por causa da legenda – sinal de falha nas articulações pré-campanha por parte da direção estadual do MDB.
Senado
Mas pensemos também em quem conseguiu se eleger. No Congresso, nenhum dos três senadores que representarão o Espírito Santo pelos próximos três anos pode ser considerado ligado a Hartung: Rose de Freitas (Podemos), que está na metade do mandato, é, há muito tempo, um desafeto político. Quanto aos dois eleitos agora, Marcos Do Val (PPS) e Fabiano Contarato (Rede), o instrutor de segurança foi eleito na base de Luciano Rezende (PPS) e Casagrande. Já o delegado de polícia tem perfil independente e foi eleito pela sigla de Audifax Barcelos – um dos principais aliados de Rose no Espírito Santo. Isso ressalvados o vídeo de apoio de Hartung a Contarato, produzido já nos últimos dias de campanha, e os cargos exercidos pelo delegado no atual governo.
Câmara
Já na Câmara, dos dez deputados eleitos para o próximo quadriênio, nenhum tem relação umbilical com o governador. Paulo Foletto e Rigoni são do PSB, partido de Casagrande. Filiado ao PPS de Luciano, Da Vitória é aliado do prefeito de Vitória e também do governador eleito.
Helder Salomão é do PT. Presidente do DEM-ES, Norma Ayub é de outro PT: o “Partido Theodorico” (adversário de Hartung no momento). Soraya Manato (PSL) e Lauriete (PR) são, respectivamente, mulheres do deputado federal Carlos Manato e do ainda senador Magno Malta. Dos mesmos partidos que as esposas, os dois são do “Partido Bolsonaro”, logo não estão com Hartung.
Vidigal já esteve muito perto do governador, cuja base contou com o PDT na atual gestão (inclusive com secretarias). Mas o deputado andou se afastando de Hartung e se reelegeu pela coligação de Casagrande. Evair de Melo (PP) virou meio partido dele mesmo, assim como Amaro Neto (PRB).
Asterisco
Amaro é o asterisco nesta lista. Sim, eleito pela sigla de Luciano Rezende para a Assembleia em 2014, o deputado deu uma guinada para a base de Hartung logo no início do atual mandato, ali se acomodou e indicou secretários de Estado. Mas Amaro tem não só grupo político próprio como projetos políticos próprios – e ambiciosos. Com Hartung fora do poder, a tendência é que ele se desgarre. Além disso, reaproximou-se de Manato e chega à Câmara pela coligação “bolsonarista” do Espírito Santo. Resta saber se engrossará a tropa de Bolsonaro no Congresso caso este se eleja presidente.
Assembleia
Noves fora, Hartung ficou sem “ponto de apoio” em Brasília. E também na Assembleia. A Casa vai receber em 2019 uma leva de membros da bancada da farda – alguns deles adversários de Hartung porque investigados pelo seu governo por participação na greve da PMES, caso de Capitão Assumção e Alexandre Quintino (ambos do PSL, de Bolsonaro).
Opositores de Hartung, como Ferraço (DEM) e Euclério (DC), se reelegeram. E é sintomático que o “líder da oposição”, Majeski, tenha sido o mais votado, agora pelo partido de Casagrande. A Casa também receberá Gandini (PPS) e Carlos Von (Avante), aliados, respectivamente, de Luciano Rezende e Max Filho (PSDB), prefeitos não alinhados com o governador.