Nove anos depois de lançar “Lugar de Fala”, Djamila Ribeiro volta ao livro que ajudou a popularizar no Brasil uma discussão sobre raça, gênero, desigualdade e as diferentes posições sociais a partir das quais cada pessoa se expressa.
A filósofa, escritora e professora participa nesta segunda-feira (31) de uma sessão de autógrafos da nova edição da obra, às 19h, na Livraria Leitura, no Shopping Vitória. De passagem pela Capital capixaba, Djamila também aproveitou para conhecer um pouco mais da cidade, e, claro, não deixou a praia de fora do roteiro.
Publicada agora pela Rosa dos Tempos, a nova versão está longe de ser apenas uma revisão daquela que chegou às livrarias em 2017. O livro quadruplicou de tamanho e incorpora questões que ganharam força ao longo da última década, além de novas referências reunidas por Djamila em sua trajetória acadêmica no Brasil e no exterior.
Entendi que era necessário não só fazer revisões, mas também ampliar substancialmente como o conceito poderia ser pensado por diversas perspectivas
A ampliação acompanha, segundo a escritora, as próprias transformações da sociedade desde 2017. Nesse período, Djamila foi professora da PUC-SP, no curso de Jornalismo, professora convidada da Universidade de Nova York e passou um ano no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
“Tive acesso também a outras bibliografias que ampliaram o meu repertório cultural e me fizeram entender que era possível ampliar o escopo do que a gente entende por lugar de fala.”
A nova edição também procura responder aos esvaziamentos e às interpretações equivocadas que acompanharam a popularização da expressão “lugar de fala”. Uma das mais recorrentes é a ideia de que o conceito serviria para determinar quem pode ou não falar sobre determinado assunto.
Para Djamila, parte dessa distorção está diretamente relacionada às estruturas de poder que o conceito coloca em discussão. “Discutir lugar de fala é discutir poder”, afirma.
A escritora lembra que pensar o conceito significa questionar por que determinadas vozes historicamente estiveram ausentes de espaços como universidades, currículos e o próprio mercado editorial. “Pensar lugar de fala é pensar uma multiplicidade de vozes para romper com a imposição de uma voz única. E, ao fazer isso, a gente está disputando o poder”, explica.
Segundo Djamila, a entrada de vozes negras, indígenas e de outros grupos historicamente afastados de determinados espaços provoca resistência justamente porque altera quem participa da construção das narrativas.
Os grupos que estão acostumados a sempre falar, os grupos que se impuseram como hegemônicos, se incomodam e distorcem o conceito até como uma maneira de evitar a discussão
Ao mesmo tempo, ela destaca o alcance conquistado pelo livro nesses nove anos. “Lugar de Fala” passou a integrar bibliografias de cursos de áreas distintas, como Medicina, Letras, Ciências Sociais e Filosofia, além de se tornar leitura obrigatória em processos seletivos universitários. “Tem aí também um impacto inegável”, avalia.
O lançamento em Vitória também tem um significado particular para Djamila. A relação da escritora com o Espírito Santo começou em 2015, quando veio pela primeira vez ao Estado para participar de um evento no Museu Capixaba do Negro (Mucane).
A viagem aconteceu em um momento que ela considera importante de sua trajetória, quando começava a conquistar maior reconhecimento nacional por seu trabalho. “Foi a primeira viagem que eu fiz depois de um certo reconhecimento do meu trabalho”, recorda Djamila sobre aquela visita de 2015.
O convite partiu da capixaba e quilombola Selma Dealdina, de São Mateus. O encontro se transformou em amizade e, anos depois, em parceria editorial: em 2021, Djamila convidou Selma para organizar “Mulheres Quilombolas: Territórios de Existências Femininas”, obra que também reúne vozes de mulheres capixabas.
Outra experiência no Espírito Santo se tornaria, segundo ela, “um dos momentos mais tocantes” de sua trajetória. Em 2025, Djamila soube que adolescentes que cumpriam medida socioeducativa em uma unidade de Cariacica participavam de um clube de leitura no qual seus livros eram discutidos. “Cartas para Minha Vó”, especialmente, havia despertado o interesse das jovens.
Ao conhecer a experiência, decidiu vir ao Espírito Santo por conta própria para encontrá-las. Passou uma tarde com as adolescentes e participou de uma leitura da obra. “Foi, para mim, um dos momentos mais tocantes da minha trajetória”, conta. Para Djamila, perceber seus livros chegando a esses espaços e contribuindo para a reflexão de meninas que ainda enfrentam forte preconceito social tornou aquele encontro especialmente significativo.
A visita também reservou momentos de turismo pelo Estado. No dia seguinte ao encontro em Cariacica, Djamila conheceu o Convento da Penha, que descreve como “um dos lugares mais bonitos que a gente tem no Brasil”.
Agora, em 2026, a escritora voltou ao Espírito Santo. Antes de chegar à Capital, esteve pela primeira vez em Colatina, onde participou de um encontro com mais de 1,5 mil educadores. E aproveitou a passagem pelo Estado também para curtir o litoral capixaba: no fim de semana, compartilhou nas redes sociais registros de momentos de descanso na Praia da Guarderia, em Vitória.
A decisão de incluir a Capital na agenda de lançamento de “Lugar de Fala”, aliás, partiu da própria autora. Como já estaria no Estado por causa do compromisso em Colatina, Djamila pediu à editora que organizasse também um encontro com os leitores em Vitória.
“Decidi fazer esse lançamento aqui. Como já estaria em Colatina, foi iniciativa minha. Pedi para a minha editora organizar esse lançamento em Vitória, para eu poder estar perto do povo que sempre me recebe com muito carinho”, conta.
Sessão de autógrafos com Djamila Ribeiro – “Lugar de Fala”
Quando: 31 de agosto, às 19h
Onde: Livraria Leitura, segundo piso do Shopping Vitória, em Vitória
Livro: “Lugar de Fala” – nova edição revista e ampliada