Bege, areia, caramelo, terracota, café e chocolate deixaram de ocupar apenas um papel secundário nas coleções para ganhar protagonismo na moda. Entre eles, o marrom chama atenção por romper uma antiga associação com as temporadas de outono e inverno e aparecer cada vez mais em propostas para diferentes épocas do ano. A mudança acompanha uma estética que privilegia cores neutras, materiais naturais e peças pensadas para permanecer no guarda-roupa por mais tempo.
Durante décadas, o preto se consolidou como uma das principais referências de elegância e versatilidade. Já os tons terrosos costumavam ganhar mais espaço nas coleções de inverno, associados a couro, lã e tecidos encorpados. Agora, marrons, caramelos e chocolates aparecem também em vestidos, alfaiataria, tecidos leves e acessórios, ampliando as possibilidades de uso da paleta.
Para Leka Tavares, pesquisadora de comportamento, consumo, luxo e tendências globais, essa mudança está relacionada não apenas à moda, mas à maneira como parte dos consumidores deseja se expressar. “Os tons terrosos transmitem calma, estabilidade e sofisticação. Em um mundo cada vez mais acelerado e cheio de estímulos, eles representam exatamente o oposto: equilíbrio, permanência e autenticidade”, afirma.
Do inverno para o ano inteiro
A presença do marrom em diferentes estações também amplia uma cartela que vai dos tons mais claros, como areia e cappuccino, aos mais intensos, como café e chocolate. Segundo Leka, essa variedade ajuda a explicar a versatilidade da cor e sua adaptação a diferentes propostas. “O marrom tem uma riqueza visual muito grande. Ele consegue ser sofisticado sem ser rígido. Ele valoriza a pessoa que veste, porque não compete com a imagem, ele complementa.”
O movimento é associado ainda ao chamado luxo silencioso, estética que troca logotipos evidentes e excesso de informação visual por materiais de qualidade, bom acabamento e peças de aparência mais discreta. Nesse contexto, as cores neutras encontram espaço por facilitarem combinações e ajudarem na construção de um guarda-roupa mais atemporal.
As grandes maisons perceberam que o consumidor não busca mais roupas que durem apenas uma temporada. Existe uma procura crescente por peças que atravessem o tempo, que combinem entre si e que continuem elegantes independentemente das tendências
Essa versatilidade também pode favorecer um consumo mais planejado. Uma mesma cartela de cores permite criar diferentes combinações com um número menor de peças. “Quando uma pessoa investe em uma cartela harmônica de cores, ela amplia as possibilidades de combinação e reduz o consumo por impulso. Isso demonstra uma forma de consumir mais estratégica”, avalia Leka.
Apesar do crescimento dos tons terrosos, a pesquisadora considera precipitado decretar a substituição do preto. Para ela, as duas cores ocupam lugares diferentes. “O preto continua sendo um símbolo de elegância e nunca perderá sua importância. O que estamos observando é que o marrom ganhou uma nova interpretação. Ele representa uma sofisticação mais acolhedora, mais orgânica e muito conectada com o desejo atual por autenticidade.”
A estética não está restrita às roupas. Tons de terra também aparecem com frequência na arquitetura, no design de interiores e na hotelaria, universos em que madeira, pedra, fibras e outras matérias-primas naturais são utilizadas para criar ambientes associados ao conforto e ao bem-estar. Essa aproximação reforça a conexão entre moda e um estilo de vida orientado por naturalidade e permanência.
Assim, talvez o marrom não tenha tomado o lugar do preto, mas conquistado um território próprio. Ao deixar de ser encarado como uma escolha essencialmente invernal, passou a funcionar como uma alternativa neutra para diferentes estações — e como expressão de uma ideia de luxo menos baseada no excesso e mais ligada à qualidade, à versatilidade e à longevidade das peças.