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Vão Livre

Destruição às obras de arte em Brasília

Os estragos estão sendo avaliados pelas autoridades e ainda não se sabe se serão possíveis serem restaurados, nem o custo desta restauração

Publicado em 15 de Janeiro de 2023 às 02:00

Publicado em 

15 jan 2023 às 02:00
Isabela Castello

Colunista

Isabela Castello

isabelacastello.colunista@gmail.com

Foto mostra painel de Di Cavalcanti rasgado, em meio a cacos de vidros deixados nas manifestações golpistas em Brasília
Foto mostra painel de Di Cavalcanti rasgado, em meio a cacos de vidros deixados nas manifestações golpistas em Brasília Crédito: Divulgação
É com extremo pesar e tristeza que escrevo a Coluna Vão Livre de hoje. Mesmo passados 7 dias dos ataques antidemocráticos que aconteceram em Brasília, a Coluna Vão Livre não poderia ficar sem manifestar seu repúdio aos atos praticados por apoiadores do ex-presidente.
O objetivo dos atos era destruir a democracia e as instituições brasileiras. Isso eles não conseguiram. Mas deixaram um rastro de destruição no nosso patrimônio histórico, cultural e artístico, com enormes danos e um prejuízo incalculável. A invasão e depredação de prédios dos três poderes em Brasília, no último dia 8, causou diversos prejuízos ao rico acervo guardado nos edifícios do Congresso, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto. Os estragos estão sendo avaliados pelas autoridades e ainda não se sabe se serão possíveis serem restaurados, nem o custo desta restauração.

Cultura

Segundo o antropólogo britânico Edward Tylor (1832-1917), "a cultura é todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade".
A origem da palavra cultura vem do termo em latim colere, que significa cuidar, cultivar e crescer. Por isso, o termo também está associado a outras palavras, como a agricultura, que trata do cultivo e crescimento das plantações. A sua definição foi evoluindo ao longo dos anos: desde a época do Iluminismo, a cultura passou a ser associada à civilização e ao progresso.
Ao atacar e destruir, além dos prédios, as obras de arte presentes nos prédios que foram invadidos, esse grupo deixa evidente seu total desprezo e desvalor pela cultura. Ao longo dos últimos quatro anos, a cultura brasileira e todas as suas formas de manifestações foram atacadas, criticadas e desvalorizadas pelo antigo governo e pelos seus seguidores. E, esse movimento culminou com a destruição de obras de arte de enorme relevância para a cultura e para a história do nosso país.
Abaixo, uma breve descrição dessas obras.

Tela de Di Cavalcanti

Foto mostra painel de Di Cavalcanti rasgado, em meio a cacos de vidros deixados nas manifestações golpistas em Brasília
Foto mostra painel de Di Cavalcanti rasgado, em meio a cacos de vidros deixados nas manifestações golpistas em Brasília Crédito: Divulgação
A tela de Di Cavalcanti é a principal peça do Salão Nobre. O Planalto informou, em nota oficial, que a obra custa R$ 8 milhões. Mas estima-se que pode chegar a valores entre R$ 15 e R$ 20 milhões, em um leilão.
A tela, de 1962, é uma das mais importantes já produzidas pelo pintor carioca Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo (1897-1976). Ela integra uma série de quadros do pintor modernista que retratam as figuras de mulheres de ascendência africana, sempre representando-as de uma maneira muito particular, sem focar no sofrimento ou na solidão.

'O Flautista', de Bruno Giorgi

O Flautista
A escultura de bronze, do artista paulista Bruno Giorgi Crédito: Divulgação
A escultura de bronze, do artista paulista Bruno Giorgi, foi completamente destruída, segundo fontes do governo. A peça, avaliada em R$ 250 mil, ficava no 3º andar do Planalto, onde está localizado o gabinete presidencial.
Giorgi é conhecido como um dos mais importantes escultores brasileiros. Filho de pais italianos, nasceu em 1905, em São Paulo, e morreu em 1993, no Rio de Janeiro. A convite do arquiteto Oscar Niemeyer, o artista desenvolveu três obras na capital entre as décadas de 50 e 60: Os Guerreiros – mais conhecida como Os Candangos –, o Meteoro e Monumento à Cultura, que ficam em pontos estratégicos da capital.

'Bandeira do Brasil', de Jorge Eduardo

Bandeira do Brasil
A pintura é uma reprodução da bandeira nacional localizada em frente à sede do governo Crédito: Divulgação
A obra Bandeira do Brasil, de 1995, ficava no térreo do Palácio do Planalto. Foi danificada. A pintura é uma reprodução da bandeira nacional localizada em frente à sede do governo.

'Galhos e Sombras', de Frans Krajcberg

A escultura em madeira ficava instalada na parede do terceiro andar do Planalto. A obra foi quebrada em diversos pontos, informou fonte do governo, e pedaços dos galhos que a compunham foram atirados para longe. O valor da peça é estimado em R$ 300 mil, disse o Planalto.
Frans Krajcberg foi um pintor, escultor, gravador, fotógrafo e artista plástico nascido na Polônia e naturalizado brasileiro. Autor de obras que têm como característica a exploração de elementos da natureza e que destacou-se pelo ativismo ecológico, associando arte e defesa do meio ambiente.

Relógio, de Balthazar Martinot

Relógio raro foi destruído por terroristas que invadiram o Palácio do Planalto
Relógio raro foi destruído por terroristas que invadiram o Palácio do Planalto Crédito: Reprodução
O relógio de pêndulo, de Balthazar Martinot (1636-1714), do século 17 foi totalmente destruído pelos invasores. A peça foi dada de presente pela Corte francesa a Dom João 6º. Seu criador era o relojoeiro do rei francês Luís 14.
Segundo o Planalto, restam apenas dois relógios feitos por ele no mundo. O segundo está no Palácio de Versalhes, mas tem metade do tamanho do exemplar que foi destruído.

'A Justiça', de Alfredo Ceschiatti

A escultura de 1961 que fica diante do palácio do Supremo Tribunal Federal (STF) foi pichada com a frase "Perdeu, mané".
As palavras foram ditas pelo Ministro Luís Roberto Barroso, ao ser questionado por apoiadores de Bolsonaro sobre fraudes na última eleição em viagem a Nova York, nos Estados Unidos em novembro passado.
A peça, em granito, tem mais de três metros de altura e é de autoria do artista plástico mineiro Alfredo Ceschiatti (1918-1989). Retrata Têmis, deusa da justiça, da lei e da ordem, com os olhos vendados, segurando uma espada no colo.

Muro Escultórico, de Athos Bulcão

Muro Escultório de Athos Bulcão
A obra "Muro escultório", do artista plástico Athos Bulcão Crédito: Divulgação
A obra "Muro escultório", do artista plástico e professor Athos Bulcão, integra a decoração do Salão Verde da Câmara dos Deputados, cujo projeto é do arquiteto Oscar Niemeyer.
O muro escultórico, de Athos Bulcão, foi criado especificamente para o local. Durante o vandalismo de domingo, a obra foi perfurada na base, segundo a assessoria de imprensa da Câmara dos Deputados.
Athos Bulcão (1918-2008) foi um pintor, escultor, desenhista e artista brasileiro. Foi funcionário do Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura, onde trabalhou com ilustração de publicações. Também realizou trabalhos como artista gráfico e desenhista. Foi colaborador de Oscar Niemeyer, integrando o esforço de construção de Brasília, a partir de 1957. Pelo conjunto da obra, recebeu vários prêmios e condecorações.

Bailarina, de Victor Brecheret

A escultura em bronze polido, dos anos 1920, que retrata uma bailarina também foi alvo de ataques neste domingo na Câmara dos Deputados.
A obra do escultor italiano representava a fase parisiense dele, na qual prevalece a delicadeza das formas e a sutileza com que tratava os temas femininos.

Escultura Maria, Maria, de Sônia Ebling

A escultura em bronze Maria, Maria, da artista Sônia Ebling também foi alvo dos ataques. A obra de 1980 estava localizada na Câmara dos Deputados e foi marcada com pauladas durante a invasão de domingo.

Simbolismo

Para encerrar a edição mais triste da Coluna Vão Livre, gostaria de registrar o simbolismo que a destruição dessas obras representa: um atentado à cultura e ao patrimônio artístico brasileiro, algo que foi marcante na gestão do ex-presidente, que começou sua gestão extinguindo o Ministério da Cultura e que atuou de forma a dificultar inúmeros projetos culturais e leis de incentivo à cultura.
E as próprias obras de arte destruídas pelos vândalos carregam um simbolismo, pois danificaram a obra de Di Cavalcante que representava a mulher negra brasileira, a obra de Vitor Brecheret e de Sonia Ebling, que representavam a delicadeza das mulheres. A escultura “Justiça” que foi vandalizada no ato golpista também foi desrespeitada, em muitos momentos, pelo antigo governo. Também tem grande simbolismo a destruição da obra de Frans Krajcberg, após quatro anos de retrocessos na agenda ambiental brasileira.
E, para finalizar, a obra Bandeira do Brasil, que representa o nossa país, a nossa nação, que foi brutalmente golpeada por este atentado antidemocrático e golpista

Isabela Castello

Isabela Castello, administradora e designer, é apaixonada pelo universo criativo e pela natureza. Escreve sobre criatividade e a economia criativa com ênfase nos conteúdos sobre arte e design autoral.

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