Por muito tempo, a ideia de um relacionamento sério esteve associada a uma sequência quase obrigatória: namoro, casamento e convivência sob o mesmo teto. No entanto, um modelo de relacionamento vem ganhando espaço em diferentes países e despertando curiosidade entre especialistas: o LAT, da sigla Living Apart Together que quer dizer “vivendo separados juntos”.
Esse modelo fala de casais que tem um relacionamento estável e comprometido mas que optam em não morar sob o mesmo teto e se a gente parar para pensar ha muito tempo existe algo parecido pois a maioria de nossos avós vivem ou viveram sob o mesmo teto mas em quartos diferentes.
Bom, sabemos que existe e que é uma escolha de cada casal a personalização do seu modelo mas o que desperta uma curiosidade é: será que morar separado pode ajudar a preservar o desejo?
Embora não exista comprovação científica de que morar separado aumente automaticamente a libido, até porque a libido sobre influências multifatoriais, mas algumas pesquisas apontam resultados interessantes.
Um estudo realizado pela Springer Nature, do Reino Unido, comparou casais casados, que moravam juntos, e casais LAT. Os pesquisadores observaram que aqueles que viviam separados apresentavam níveis mais elevados de intimidade sexual, incluindo maior interesse pelo parceiro e maior percepção de compatibilidade sexual.
Já a pesquisa Comparative Population Studies, realizada na Alemanha, concluiu que baixos níveis de satisfação sexual estão associados a um maior risco de separação entre casais LAT. O dado sugere que a qualidade da vida sexual continua sendo um fator importante para a manutenção desse tipo de relacionamento.
Outro dado que chama atenção é a análise com mais de 3 mil participantes alemães, divulgada pela Reddit, que encontrou um resultado que chamou atenção dos pesquisadores: entre os grupos avaliados, os casais não casados que moravam separados apresentaram os maiores índices de satisfação sexual.
No Brasil, alguns casais famosos também já aderiram ao modelo Living Apart Together (LAT), como a atriz Letícia Colin e o companheiro Michel Melamed. E sim, sabemos que a rotina é a maior vilã de desejos para muitos casais pois o desejo não depende apenas do amor ou da frequência dos encontros. Ele também precisa de espaço e fantasia para existir.
A convivência diária oferece segurança, companheirismo e intimidade emocional. Mas, em alguns casos, a rotina excessiva pode diminuir a percepção do outro como alguém misterioso, diferente e desejável. E morando separados, alguns elementos tendem a permanecer mais presentes: a saudade, a expectativa pelo encontro, o planejamento dos momentos a dois e a preservação da individualidade. Esses fatores podem contribuir para manter a tensão erótica que costuma existir no início dos relacionamentos.
O modelo tem atraído especialmente pessoas que já passaram por casamentos anteriores, possuem filhos de outras relações ou desejam evitar conflitos cotidianos relacionados à convivência doméstica.
Não é solução mágica, e muito menos falta de compromisso e precisa saber que morar separado não resolve problemas estruturais da relação como falta de diálogo, dificuldade e, confiança e dificuldades de intimidade emocional, ressentimentos e incompatibilidades continuarão existindo independentemente do endereço dos parceiros. Então já sabemos que esse modelo não é para todos, mas para quem a escolheu encontrou uma maneira saudável de construir conexão.
Talvez a pergunta não seja se morar separado salva o desejo. A questão mais interessante seja outra: quanto espaço existe dentro da relação para que cada pessoa continue sendo ela mesma?
O desejo nasce justamente no encontro entre duas pessoas que permanecem próximas sem deixar de ser elas.
Minha reflexão sobre esse modelo é que o desejo precisa de uma combinação delicada entre intimidade e individualidade pois quando o casal compartilha tudo o tempo inteiro sobra pouco espaço para a curiosidade erótica. O desejo precisa de fantasia e essa por muitas vezes não consegue comparecer na rotina.
Sirleide Stinguel é colunista de HZ. As opiniões, análises e recomendações expressas em seus textos são de sua exclusiva responsabilidade e não refletem, necessariamente, o posicionamento editorial de HZ ou da Rede Gazeta.