Durante muito tempo, a terapia de casal foi associada a crises no relacionamento, existia um mito que só estão procurando ajuda por causa de brigas, traições ou pela ameaça de uma separação. Hoje essa lógica começa a mudar, em vez de procurar ajuda apenas quando a relação está por um fio, jovens casais passam a enxergar a terapia como uma ferramenta de prevenção, autoconhecimento e construção de uma relação mais saudável.
Esse movimento está acontecendo pois os jovens compreendem a saúde mental como um fator muito importante para o relacionamento ter sucesso e assim a terapia deixou de carregar parte do estigma que tinha no passado e passou a fazer parte da rotina de muitas pessoas. Agora, essa mesma lógica começa a chegar aos relacionamentos: se é possível procurar um profissional para compreender as próprias emoções, por que não buscar ajuda para compreender a dinâmica de uma relação?
Uma pesquisa realizada pela The Knot com quase 17 mil casais recém-casados ou noivos nos Estados Unidos mostrou que 30% deles haviam participado de aconselhamento pré-matrimonial ou terapia de casal. O dado chamou atenção justamente porque revela uma mudança de perspectiva: a terapia não aparece necessariamente como uma tentativa de salvar uma relação em crise, mas também como preparação para a vida a dois. (Axios)
Conversar sobre expectativas, divisão de tarefas, dinheiro, família, ciúmes, sexualidade, limites, projetos de vida e formas de comunicação pode evitar que pequenas diferenças se transformem em conflitos maiores.
Cada pessoa carrega uma bagagem recheada de crenças, culturas, heranças genéticas, costumes e etc, e quando essa se reúne a outra pessoa, podem ocasionar conflitos, com isso a terapia de casal funciona como um espaço estruturado para que a compreensão do “ser diferente” e conversas aconteçam com a mediação de um profissional. O objetivo não é determinar quem está certo ou errado, mas ajudar o casal a equilibrar os padrões de interação que se estabeleceram entre os dois.
A própria psicologia já trabalha há décadas com abordagens voltadas à prevenção. A American Psychological Association, por exemplo, destaca o aconselhamento pré-matrimonial como uma possibilidade de ajudar casais a discutir expectativas, finanças, intimidade e resolução de conflitos antes que esses temas se transformem em problemas maiores. (APA)
E porque os jovens? Vou resumir a uma frase essa resposta - é uma geração menos disposta a “aguentar” relacionamentos ruins.
Outro aspecto importante é a mudança na relação dos jovens com a ideia de permanecer juntos a qualquer custo. Essa geração cresceu em um contexto no qual saúde mental, limites emocionais, autoestima e qualidade das relações passaram a ocupar mais espaço no debate público. Isso pode produzir uma mudança importante: a qualidade da relação passou a importar tanto quanto sua duração.
Assim a questão deixa de ser apenas “como manter um relacionamento?” e passa a incluir perguntas como: “Como construir uma relação na qual os dois consigam falar sobre aquilo que sentem?”, “Como negociar diferenças?” e “Como preservar a individualidade sem perder a conexão?”
Terapia não precisa significar que o casal está mal
Por isso, terapia de casal não deve ser entendida só como uma ferramenta para “salvar relacionamentos”. O foco é promover uma relação mais consciente e saudável — inclusive quando a conclusão do processo é que permanecer juntos não é o melhor caminho.
Existe ainda uma contradição muito interessante: os jovens cresceram com mais ferramentas de comunicação do que qualquer geração anterior, mas isso não significa necessariamente que saibam conversar melhor.
Mensagens instantâneas, redes sociais e aplicativos facilitam o contato, mas também podem aumentar mal-entendidos, comparações, ciúmes e expectativas irreais sobre relacionamentos.
A presença constante das redes sociais cria ainda uma vitrine permanente da vida amorosa. O casal não compara apenas sua relação com experiências anteriores; pode compará-la diariamente com centenas de relacionamentos aparentemente perfeitos apresentados na internet.
Nesse cenário, aprender a diferenciar expectativa, fantasia e realidade pode ser tão importante quanto aprender a resolver conflitos.
E quando o problema está na cama?
Se a terapia de casal está deixando de ser procurada apenas em momentos de crise, a sexualidade também começa a ocupar um espaço mais aberto nessas conversas. Entre as questões que podem levar um casal ao consultório está uma das mais difíceis de verbalizar: “Estamos satisfeitos sexualmente?”
A pergunta parece simples, mas pode revelar conflitos muito maiores.
Um parceiro pode desejar sexo várias vezes por semana, enquanto o outro se sente satisfeito com uma frequência menor. Um pode interpretar a diminuição das relações como falta de desejo ou de atração; o outro pode estar lidando com estresse, excesso de trabalho, questões emocionais, alterações hormonais, inseguranças ou simplesmente uma mudança natural na libido. É nesse ponto que a insatisfação aparece.
Pesquisas longitudinais com casais mostram que satisfação sexual, satisfação conjugal e frequência sexual estão relacionadas, mas a relação é complexa e pode funcionar nos dois sentidos: a qualidade da relação influencia a vida sexual, enquanto a experiência sexual também pode influenciar a satisfação com o relacionamento. (PubMed Central (PMC))
O problema aparece quando existe uma diferença persistente entre os desejos.O “desencontro sexual”, uma questão que pode gerar sofrimento: enquanto uma pessoa procura mais intimidade sexual, a outra evita ou demonstra pouco interesse.
A pessoa que deseja mais pode se sentir rejeitada, pouco desejada ou insegura. Já aquela que deseja menos pode começar a sentir culpa, cobrança ou obrigação de manter relações para evitar conflitos. Quando esse ciclo se repete, o sexo pode deixar de ser um espaço de prazer e conexão e passar a representar cobrança.
É justamente nesse momento que a terapia de casal — muitas vezes integrada à terapia sexual — pode ajudar o casal a sair da lógica de “quem está errado?” e começar a investigar o que está acontecendo com o desejo de cada um.
E talvez seja essa uma das grandes mudanças na forma como a nova geração encara a terapia de casal: não esperar que a relação esteja em ruínas para procurar ajuda, mas buscar um espaço para conversar justamente sobre aquilo que, muitas vezes, o casal não consegue conversar sozinho — inclusive sobre sexo.
A terapia, nesse contexto, deixa de ser encarada como o lugar para onde o casal vai quando tudo deu errado e passa a ocupar outro papel: o de espaço para aprender a construir, cuidar, transformar — e, quando necessário, também encerrar uma relação com mais consciência.
Porque talvez a grande mudança não seja os jovens estarem procurando mais terapia para salvar seus relacionamentos. É estarem entendendo que relacionamentos também precisam de cuidado.
Colunista
Sirleide Stinguel é colunista de HZ. As opiniões, análises e recomendações expressas em seus textos são de sua exclusiva responsabilidade e não refletem, necessariamente, o posicionamento editorial de HZ ou da Rede Gazeta.