Delação da Odebrecht que nada! Para o PT e, principalmente, para Lula, a verdadeira “delação do fim do mundo” é a do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci. Do núcleo de “capas pretas”, como eram chamadas as figuras mais proeminentes do partido no auge dos governos Lula e Dilma, Palocci é o primeiro que está determinado a contar tudo o que sabe à Justiça. E ele sabe demais. Acima de tudo, sobre Lula.
O ex-presidente está preso desde o último dia 7, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, como consequência da condenação, já confirmada em 2ª instância, em apenas uma das ações penais que já pesam contra ele: aquela em que foi acusado de receber propina da OAS, consubstanciada na cobertura triplex do Edifício Solaris, no Guarujá, em troca de favorecimentos à empresa em contratos com a Petrobras. Além desse caso, Lula já é réu em mais seis processos e alvo de duas denúncias do MPF. Perto do que Palocci sabe, e está disposto a revelar, o triplex pode ser meramente a cobertura de um iceberg de corrupção.
O cerco a Lula está se fechando e, se ele não caiu antes, foi porque, desde os tempos do mensalão, as outras peças do PT no tabuleiro sempre se sacrificaram para proteger o rei, dos peões “aloprados” que levavam dinheiro na cueca aos cavalos que só sabem andar em L de Lula. Petistas sanguíneos como Vaccari e Dirceu respeitam a omertà. Mesmo preso no mensalão, condenado em 2º grau na Lava Jato e prestes a ter nova prisão expedida por Moro, Dirceu vai levar seus segredos para o túmulo. Com Palocci, o buraco da cova é mais embaixo.
Omertà é como se denomina, no dialeto napolitano, o código de silêncio empregado por organizações mafiosas italianas. Foi como a Polícia Federal batizou, em setembro de 2016, a 35ª fase da Lava Jato, precisamente aquela em que Palocci, o Italiano nas planilhas da Odebrecht, foi parar atrás das grades. Por tempo demais, entendeu ele.
Após romper com o PT, em uma carta aberta devastadora, e de passar meses em negociações com a força-tarefa da Lava Jato, o ex-homem forte da economia no primeiro governo Lula e da Casa Civil no início do governo Dilma assinou acordo de colaboração premiada com a Polícia Federal. Quebrou o pacto de silêncio. E suas revelações são, potencialmente, ainda mais devastadoras para seus antigos companheiros/cúmplices. Até porque, para começo de análise, não se trata de qualquer delator. Nesse jogo de xadrez, Palocci tem o status de uma torre: a torre financeira do governo do PT e do partido.
Segundo informou o jornal “O Globo”, as informações e documentos fornecidos por Palocci seriam suficientes para abertura de novos inquéritos, operações e até prisões. Os anexos devem abranger sua relação pessoal com políticos, negociatas e o lobby exercido por ele próprio no governo em favor de grandes empresários, como os da Odebrecht. O ex-ministro, aliás, fazia o elo entre o governo do PT, o partido e a empreiteira. Era ele quem operava a “conta Amigo”, aberta no sistema de propinas da Odebrecht para bancar despesas pessoais, favores e projetos de interesse do ex-presidente Lula.
Enquanto isso, Gleisis e Lindberghs ficam por aí (e pelo exterior) a denunciar a prisão de Lula como “o ato final do golpe” e a requentar a narrativa de que o ex-presidente é um preso político, vítima da perseguição das elites infiltradas em setores do MP e do Judiciário. Uma narrativa que não para mais em pé, assim como o rei no tabuleiro. Será que Palocci, cofundador do PT e coadjuvante de luxo nos governo Lula e Dilma, tem parte nesse complô? Eles deveriam é se preparar para o que vem pela frente. Quanto a Lula, deve pôr as barbas de molho na pia de sua cela VIP presidencial.
Palocci, o domador do mercado
Ministro da Fazenda de Lula de 2003 a março de 2006, o ex-prefeito de Ribeirão Preto foi o homem forte da economia no 1º governo de Lula e o elo entre o governo do PT e a banca na Avenida Paulista. Respeitado pelo mercado, Palocci foi o grande fiador da estabilidade econômica e das políticas ortodoxas de austeridade fiscal e de controle da inflação que deram a tônica desse 1º mandato do ex-sindicalista radical cuja chegada à Presidência assustou o setor financeiro.
Escândalos
Até que Palocci precisou fazer um recuo estratégico, renunciando por causa do episódio da quebra ilegal do sigilo fiscal de Francenildo Costa, caseiro da mansão onde ele se encontrava com lobistas. Em 2010, voltou ao centro do poder, participando da coordenação da campanha de Dilma e assumindo a Casa Civil no início do governo dela (2011). Em poucos meses, pediu para sair de novo, agora sob suspeitas de enriquecimento ilícito.
“Pacto de sangue”
Segundo Palocci, nos últimos meses de 2010, Emílio Odebrecht e Lula fizeram um “pacto de sangue” e a Odebrecht disponibilizou ao PT e ao ex-presidente um crédito de R$ 300 milhões para ele realizar suas atividades políticas. Daí teria saído, por exemplo, o dinheiro que pagou as palestras de Lula a serviço da Odebrecht em “países amigos”. Isso sem falar no caixa 2 que irrigou campanhas de Lula e Dilma. Tudo isso em troca de vantagens concedidas à empresa no governo e posição privilegiada em concorrências públicas.
Resumindo
Era o clássico “toma lá, dá cá”, em versão megalomaníaca.