Lelo versus Marcelino: um clássico na disputa pelo comando do MDB-ES
Clima de revanche
Lelo versus Marcelino: um clássico na disputa pelo comando do MDB-ES
Após ter perdido para Lelo Coimbra a presidência estadual do partido em 2007 (derrota engasgada até hoje), Marcelino Fraga tem a chance, na sexta, de dar o troco no rival. Entenda o que está em jogo para ambos e para o MDB
Além da contenda pessoal entre os dois rivais internos, o que está em jogo é muito maior: o destino político do MDB no Espírito Santo, hoje completamente incerto, após o fiasco eleitoral registrado nas urnas em 2018. Com Lelo à frente, o MDB terá uma cara – possivelmente, muito mais identificada, ainda, com Hartung, mesmo que ele já não esteja no partido. Com Marcelino de volta, será outra fisionomia, certamente bem distante de Hartung e, por analogia, mais próxima do governador Renato Casagrande (PSB). O grupo do ex-governador já não terá no MDB um abrigo tão seguro para se reagrupar no Estado.
A IMPORTÂNCIA PARA LELO
O próprio Lelo, dependendo do ponto de vista, nunca esteve tão em baixa politicamente ou nunca esteve tão bem. Por um lado, após o duro revés sofrido nas urnas em 2018, o ex-deputado federal está sem mandato eletivo, algo que ele ainda não sabia o que era neste século (seu último ano na planície fora 1999). Por outro lado, está ocupando o cargo político mais proeminente já exercido por ele na administração federal e o mais alto de um político capixaba no governo Bolsonaro: como secretário especial de Desenvolvimento Social, é o número dois na hierarquia do Ministério da Cidadania.
No entanto, para sobreviver politicamente e manter esperanças de dar a volta por cima eleitoralmente no médio prazo, é essencial, para Lelo, manter o controle de seu partido no Estado. É o que lhe resta após o abandono de Hartung e as duas últimas derrotas eleitorais – contando a tentativa de reeleger-se deputado federal no ano passado e a de chegar à Prefeitura de Vitória, em 2016, quando nem sequer passou ao 2º turno, contra Amaro Neto e o prefeito Luciano Rezende.
Por sua vez, Marcelino tem nessa convenção de sábado uma oportunidade única e insubstituível de voltar à cena política, isto é, de voltar a existir politicamente no Espírito Santo após mais de uma década em absoluto ostracismo. Ele sabe disso. Sabe que, após o mau desempenho nas urnas em 2018, o MDB estadual passa por um momento de fragilidade e de instabilidade.
Também sabe que, após 12 anos no centro desse ringue e agora sem Hartung no seu corner, Lelo possivelmente já não é, dentro do MDB, tão forte e invencível como foi outrora, num tempo não muito distante, em que ninguém ousaria desafiá-lo. Para ficar nas metáforas do boxe, Lelo, sem Hartung, pode ser como Rocky Balboa sem seu treinador, Mickey, na terceira parte da franquia sobre o boxeador da Filadélfia*.
Marcelino sabe, assim, que precisa tirar proveito dessa momentânea vulnerabilidade de Lelo, para pôr o oponente contra as cordas e levá-lo para a lona na sexta-feira. Para ele, é uma chance que não vai se repetir. Talvez a última de sua carreira.
O problema, para Marcelino – e, talvez, para o MDB –, é que, assim como Lelo, ele também enfrenta desgaste, só que de outra espécie.
Lelo convive com o desgaste gerado pelo mau desempenho dele mesmo e do partido em 2018 sob sua liderança, além das arestas internas comuns a quem acumula por tanto tempo a direção de um partido político. Fadiga de material. Já Marcelino carrega o peso da sua condenação judicial por envolvimento na máfia dos sanguessugas na Câmara Federal. Assim, o ex-deputado e ex-presidente regional do MDB arrasta um desgaste de natureza não só política, mas acima de tudo ética.
Denunciado pelo Ministério Público Federal, Marcelino foi condenado pela Justiça Federal por atuação no esquema e recorre da decisão. Para não ser cassado, renunciou ao mandato de deputado federal em 2006, tendo ficado inelegível por oito anos. Foi esse justamente o marco inicial de sua decadência política, coincidindo com a ascensão de Lelo na estrutura partidária. Ainda em 2006, sob o desgaste das denúncias e da renúncia, Marcelino não conseguiu a reeleição na Câmara. No ano seguinte, fortemente enfraquecido e ainda por cima sem mandato (como o adversário agora), perdeu para Lelo, no voto, a convenção estadual do então PMDB.
Naquele momento, ao contrário do adversário, Lelo estava forte politicamente: enquanto Marcelino deixara a Câmara praticamente corrido e não conseguira voltar pelas urnas, o aliado de Paulo Hartung acabara de se eleger, em 2006, para o primeiro de seus três mandatos seguidos na Casa, com a maior votação para o cargo no Espírito Santo: 120.821 sufrágios. A troca de guarda, assim, se deu em duas frentes: tanto na bancada federal como na direção estadual do partido.
Agora, com tanta história e rivalidade, os dois pugilistas conhecem bem demais um ao outro e as fragilidades do oponente. Anotem aí: ao longo da semana, é justamente nesses pontos fracos que cada um deles vai socar.
* Em "Rocky III” (1982), o herói interpretado por Sylvester Stallone vive o pior momento de sua carreira. Quando está prestes a subir ao ringue para enfrentar James "Clubber” Lang, seu treinador e amigo, Mickey, passa muito mal. Enquanto Mickey está morrendo no vestiário, Rocky é massacrado pelo adversário e perde o título mundial. Logo após a luta, Mickey morre diante de Rocky. É preciso porém ressalvar que, como sempre, o personagem dá a volta por cima no final, derrotando Lang numa revanche apoteótica. Qual dos dois será Lelo Balboa nessa contenda do MDB-ES?
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.