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Beatriz Seixas

Mercado assume o risco Bolsonaro

Para analistas, o candidato do PSL está mais inclinado a reformas do que o seu adversário Fernando Haddad (PT)

Publicado em 09 de Outubro de 2018 às 22:48

Públicado em 

09 out 2018 às 22:48
Beatriz Seixas

Colunista

Beatriz Seixas

bseixas@redegazeta.com.br

Bolsa de Valores reagiu positivamente aos resultados do primeiro turno das eleições Crédito: Bolsa de Valores/arquivo
Mesmo com toda a euforia dos últimos dias diante dos resultados do primeiro turno das eleições, que levaram à alta da Bolsa de Valores e à queda do dólar, o mercado financeiro não está 100% convicto de que o candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL), caso eleito, vá realizar as reformas desejadas para a retomada da economia. O que não quer dizer de forma alguma, para ficar bem claro, que o capitão tenha deixado de ser a escolha dos investidores.
A coluna conversou com três especialistas da área: a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, o estrategista-chefe da Avenue, William Castro Alves, e o sócio da Alphamar Investimentos, Fernando Galdi, para entender o porquê dessa preferência, dado que historicamente Bolsonaro nunca se apresentou como um parlamentar empenhado em aprovar reformas estruturantes, a estimular privatizações ou mesmo a combater privilégios de servidores e reduzir a máquina pública. Conceitos esses que são entendidos e defendidos pelo mercado como essenciais para o país melhorar o quadro fiscal e recuperar o crescimento.
Todos os analistas não descartam o risco bolsonariano e falam que não dá para afirmar que as medidas defendidas na campanha serão implantadas na sua totalidade ou que ele não esbarrará em dificuldades, por exemplo, para montar a sua tão anunciada equipe técnica, “de notáveis”, como o próprio político citou na entrevista de segunda ao Jornal Nacional.
“Bolsonaro tem tentado se aproximar do empresariado. Ele tem reforçado que quer compor um quadro técnico nos ministérios e tirar o viés político. Isso soa como música para o mercado. Mas temos que nos atentar que estamos numa época de promessas e o mercado sempre se antecipa. Mas daqui a pouco pode cair numa realidade que não é um céu de brigadeiro”, observa William Castro.
Mesmo com as ponderações de que o candidato do PSL pode decepcionar e adotar uma linha diferente da defendida no palanque eleitoral, os analistas praticamente dizem, não com essas palavras, que não há escolha, uma vez que do outro lado da disputa está Fernando Haddad, do PT, que promete resgatar, segundo eles, todos os erros cometidos nos governos Lula e Dilma.
“Bolsonaro tem adotado um tom, que não é exatamente liberal, mas que traz um discurso nessa direção, fruto do efeito Paulo Guedes, que é um economista respeitado pelo mercado. A percepção é que ele está mais propenso a fazer reformas do que o Haddad. Além disso, o resultado dos eleitos para o Congresso indicam que Bolsonaro terá condições políticas de governar”, avalia Zeina Latif que elegeu a reforma da Previdência como o ponto de partida a ser trabalhado pelo futuro presidente.
Fernando Galdi classifica o comportamento passado do capitão como errático, mas avalia que o “novo Bolsonaro” caminha para uma condução da política econômica mais liberal ao lado do guru Paulo Guedes, o seu potencial ministro da Fazenda. “Já o Haddad e o PT até agora não apresentaram quem será o principal consultor econômico da equipe”, critica o sócio da Alphamar.
Enquanto o posicionamento favorável a algumas reformas e o forçado alinhamento liberal de Jair Bolsonaro estão causando a simpatia do mercado, outros temas, entretanto, não entram na balança de apostas dos investidores.
Ao questionar os especialistas como o mundo financeiro enxerga a inclinação do candidato a posturas autoritárias, sexistas e de discriminação a minorias, Zeina Latif afirmou que “esses não são temas do mercado”. Segundo ela, “não é que as pessoas sejam insensíveis, mas isso não mexe no crescimento do país imediatamente”.
“Concordo que um país que tem retrocesso na democracia, provavelmente vai ter problemas de crescer no longo prazo. Não é coincidência que a democracia prevaleça entre os países ricos. Mas esse não é tema de curto prazo para mercado”, diz.
William Castro reforça a avaliação de Zeina: “Para o mercado isso passa ileso. A partir do momento que o novo presidente não gere uma tensão social ou uma guerra entre grupos, isso acaba ficando em segundo plano. Não estou dizendo que não é importante. Mas para as empresas, para a lucratividade e para a economia, isso não é tema central.”
Assim como espera o mercado, não há dúvidas de que o desejo coletivo é para que o país volte a crescer, a gerar empregos e a resgatar o equilíbrio fiscal. Só precisamos ficar atentos o quanto tudo isso pode nos custar. Recuperar alguns princípios fundamentais pode ser muito mais difícil do que recuperar prejuízos na Bolsa de Valores.
 

Beatriz Seixas

Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

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