Os carros antigos são uma parte importante da história de muitos brasileiros. Para alguns, é pela memória afetiva, como o carro de um pai ou avô que se tornou praticamente parte da família, para outros, a paixão por modelos clássicos se tornou um hobby e até mesmo uma coleção. Por isso, preservar veículos antigos é preservar, também, a história das pessoas que tiveram suas vidas tocadas por aquele veículo.
Manter essa história viva é a missão dos antigomobilistas, que realizam a restauração, recuperação e manutenção desses veículos antigos. Em Vitória e Vila Velha, a importância deste trabalho foi reconhecida com a criação do Dia do Antigomobilista, comemorado em 5 de setembro.
Um exemplo da força deste movimento no Espírito Santo é o Velhauto, em Vila Velha. O grupo de proprietários, colecionadores e admiradores de veículos antigos se reúne às terças-feiras, na Prainha, para fortalecer a cultura do antigomobilismo capixaba. Além disso, o grupo realiza um encontro anual no mesmo local.
“Em uma reunião de amigos, surgiu o convite de fazermos um grupo para reunir os donos e amantes de carros antigos, com a importância e o objetivo de valorizar e mostrar a qualidade em motor e lataria, entre outras coisas, sobre o que esses belíssimos carros estão representando para nós nos dias de hoje", conta o presidente do Velhauto, Paulo Falcão.
Falcão conta que sua relação com o antigomobilismo teve início quando ele começou a mexer com artes e artesanato, atividades que o levaram a admirar furgões antigos com o objetivo de transformá-los em motorhomes.
“O que mais me marcou foram as Kombis. Hoje consegui realizar meu sonho e tenho uma Kombi Home 98, que faz parte da minha história e vai ficar na família", aponta.
Henrique Marques, vice-presidente do Velhauto, destaca que a manutenção dos carros, que muitas vezes estão sob posse de um proprietário há décadas e são passados por gerações, é um trabalho valioso, capaz de preservar memórias e tradições.
“São pessoas que vivenciaram a época desses veículos e hoje valorizam a qualidade e o valor sentimental deles. O papel delas é fundamental para manter essa história viva, passando essa paixão de geração em geração e perpetuando esse legado na família”, ressalta.
Para alguns colecionadores, os carros são muito mais do que máquinas. Muitos carregam na memória lembranças associadas a um carro que já foi de outro membro da família, seja de um pai ou uma mãe, seja de um avô ou uma avó, seja de um tio ou uma tia.
No caso de Marcelo de Oliveira André, cirurgião dentista de Vila Velha, esse carro é um Ford Phaeton Model A de 1928. Ele conta que o modelo, feito na fábrica da Ford em Detroit, nos Estados Unidos, chegou ao Brasil em 1929 e foi comprado por seu avô, Wilson Arruda André, em Minas Gerais em 1959.
Quando se mudou para Vila Velha, o avô de Marcelo trouxe o veículo para terras capixabas, onde faz parte da família desde então, tendo passado apenas por uma restauração completa. Após o falecimento do avô, o carro passou para o pai de Marcelo, que faleceu em dezembro de 2025, deixando o “Fordinho” para o filho.
“Hoje, eu estou cuidando desse carro, honrando a memória do meu avô, honrando a memória do meu pai, e a ideia é que esse carro permaneça na família, para poder contar mais histórias na nossa família, e que a gente possa, ainda, rodar alguns quilômetros na vida do carro e na nossa própria vida", conta Marcelo.
Atualmente, a família utiliza o carro e aluga o veículo para passeios, desfiles e festividades, como casamentos e aniversários. O retorno financeiro, no entanto, não é o principal objetivo da família, segundo Marcelo, mas sim a manutenção de um hobby que atravessa gerações e da história da família e do automobilismo.
Mais do que isso, ele destaca ainda o lado humano do antigomobilismo, que é um meio para aproximar pessoas em volta de um hobby e uma paixão em comum.
“Eu acredito que a importância dos antigomobilistas é preservar a história dos carros, das indústrias e das histórias pessoais. Com isso, a gente desenvolve ciclos de amizades muito fortes, de pessoas apaixonadas pelo mesmo ideal, e a gente vai convivendo com pessoas de todas as idades e classes sociais, parece que somos todos iguais", pontua.
Para mostrar a capacidade que este movimento tem de aproximar pessoas, Marcelo e dois amigos criaram o projeto Trilhas do Fordinho. Os apaixonados por automóveis antigos dirigem o clássico de 1928 pelas ruas vestidos a caráter, com roupas de época, passando por restaurantes e bares. Segundo o cirurgião dentista, a iniciativa é sobre amizade, música boa e sorrisos sinceros.
Alguns antigomobilistas são profissionais do próprio setor automotivo, que têm conhecimentos técnicos de mecânica e até mesmo fazem a restauração de veículos antigos. Este é o caso de Leandro Brunoro Suave, empresário que hoje possui uma oficina de manutenção, estética e projetos personalizados de automóveis.
Atualmente, Leandro tem 12 modelos antigos, entre carros, picapes e caminhões. Ele conta que a paixão começou na infância, quando ganhava carros de brinquedo e se interessou pelo ramo, eventualmente trabalhando com veículos.
“Comecei a trabalhar muito pequeno, lavando ônibus numa empresa de turismo, depois fui para uma loja de som e acessórios e ali me encantei. Cada carro que eu tinha a oportunidade de mexer, eu fui querendo conhecer cada vez mais", conta.
Um dos caminhões que atraiu seu interesse, ainda jovem, foi o COE ("Cab Over Engine" que significa cabine sobre o motor). Atualmente, Leandro possui um caminhão desse modelo da Chevrolet, de 1947, e um da Ford, de 1948.
“Eu vi passando pela rua quando estava no ponto de ônibus e fiquei encantado. Naquela época, eu não tinha noção nenhuma que um dia eu mesmo conseguiria fazer o meu, até porque não é um carro comum", ressalta.
A lista de carros que o empresário tem inclui ainda um Shelby Cobra de 1960, uma F150 de 1968, um Fusca de 1960, um Opala de 1968 (em restauração), entre outros.
“Nós, antigomobilistas, mantemos viva a história desses veículos, da engenharia, da mecânica, que hoje em dia tudo se modernizou. Conseguir manter um carro desse em funcionamento e bem conservado é muito gratificante”, destaca Leandro.
No entanto, um dos principais desafios neste ramo, segundo ele, é a falta de mão de obra qualificada, principalmente ao se tratar de modelos mais antigos, que exigem um trabalho mais minucioso, demorado e caro.