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A doutrina do século 19 que orienta política externa do governo Trump para a América Latina

Doutrina criada em 1823 teve várias reinterpretações ao longo do tempo e, atualmente, tem como o 'mais recente defensor' Donald Trump, segundo vídeo divulgado por seu governo.

Publicado em 11 de Agosto de 2026 às 19:34

BBC News Brasil

Publicado em 

11 ago 2026 às 19:34
Imagem BBC Brasil
O governo Trump já fez vários acenos ao legado da Doutrina Monroe Crédito: Reuters

O governo de Donald Trump exaltou novamente a Doutrina Monroe como uma diretriz para sua política externa no continente americano — mais de 200 anos depois de seu surgimento, em 1823.

Um vídeo de mais de cinco minutos publicado nesta terça-feira (11/08) na conta do Departamento de Estado dos Estados Unidos afirma que a "doutrina encontrou seu mais recente defensor em Donald Trump".

Um dos exemplos da aplicação moderna da doutrina durante o governo Trump, segundo o vídeo, foi a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro no início do ano.

"Ao longo de dois séculos, a declaração de Monroe moldou a política externa dos EUA através de diferentes mandatos e em áreas geopolíticas fundamentalmente distintas. O que começou como um alerta às potências europeias evoluiu para uma estrutura de domínio regional — uma base que permanece, até hoje, a pedra angular da conduta americana no hemisfério", diz o vídeo, narrado por Kevin Marino Cabrera, embaixador dos EUA no Panamá.

Afinal, o que é essa doutrina do século 19 que continua tão influente na política externa dos EUA?

Recado aos europeus

Imagem BBC Brasil
James Monroe estabeleceu sua doutrina em um contexto de independências recentes do continente americano Crédito: Getty Images

O ex-presidente dos EUA James Monroe (1758-1831) dá nome à doutrina.

Em 1823, no tradicional discurso presidencial do fim do ano no Capitólio, o mandatário fincou sua orientação geopolítica afirmando que qualquer tentativa dos países europeus de levarem seus sistemas políticos "a qualquer porção desse hemisfério seria considerada como um perigo à paz e à segurança" dos EUA.

As independências de várias ex-colônias eram recentes e as disputas imperiais rondavam os territórios.

Assim, a Doutrina Monroe estabelecia que qualquer intervenção europeia no continente americano seria interpretada como uma ameaça à segurança aos EUA — que, por sua vez, comprometia-se a não se envolver em conflitos internos da Europa.

Dessa forma, os EUA também se colocavam como uma espécie de "tutores" de outros países do continente, estabelecendo a região como estratégica e prioritária para seus interesses.

A doutrina foi reinterpretada por diferentes gestões da Casa Branca dali pra frente, além de ter justificado intervenções diretas ou indiretas no continente, especialmente no Caribe e na América Central.

As reinterpretações vêm sendo chamadas de "corolários", ou seja, ideias que esclarecem ou fazem acréscimos a afirmações precedentes.

O Corolário Roosevelt, de 1904, é talvez a reinterpretação mais conhecida da Doutrina Monroe.

O presidente Theodore Roosevelt determinou que os Estados Unidos poderiam intervir nos assuntos internos de uma nação latino-americana se esta demonstrasse incapacidade de cumprir obrigações internacionais.

Essa interpretação impulsionou outro termo recorrente quando o assunto é a política externa dos EUA para o continente americano: a postura do "big stick", ou "grande porrete", simbolizando a ameaça de intervenção dos EUA em países de sua região.

'Doutrina Donroe'

Imagem BBC Brasil
Em vídeo, governo americano exemplifica a captura de Maduro como uma aplicação moderna da Doutrina Monroe Crédito: Getty Images

O vídeo postado nesta terça-feira está longe de ser um primeiro flerte do governo Trump com a Doutrina Monroe.

Tanto que a mistura dos nomes "Monroe" e "Trump" gerou até um apelido para a orientação do atual governo, a "Doutrina Donroe".

No fim do ano passado, a Casa Branca divulgou sua nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos (National Security Strategy). Nela, a Doutrina Monroe foi explicitamente citada como uma referência de como deveria ser o relacionamento dos EUA com a América Latina.

Dias antes da divulgação do documento, Trump havia publicado uma mensagem oficial celebrando o aniversário da doutrina. O presidente republicano afirmou que a diretriz estabelecida por Monroe é "fundamental" na história de seu país e que sua gestão está comprometida com a proteção do hemisfério ocidental.

A Estratégia de Segurança Nacional indica que, para a gestão atual da Casa Branca, os países da América Latina são a origem de temas que afetam diretamente os Estados Unidos — como a imigração e o tráfico de drogas.

E, se no passado a Doutrina Monroe tentava blindar o continente americano da influência de potências europeias, o governo Trump parece estar reeditando essa diretriz para, agora, conter o poder da China na região.

Em uma entrevista no ano passado, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que seu país deveria recuperar a influência no seu "quintal", "perdida" para a China.

*Com informações de Vinícius Mendes e Ayelén Oliva

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