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Fifa está indo longe demais com projeto de 'vender a Copa do Mundo'?

A BBC explica os motivos que levam o presidente da Fifa, Gianni Infantino, a se sentir com poder suficiente para vender participações na Copa do Mundo e quais poderão ser as consequências.

Publicado em 29 de Julho de 2026 às 16:35

BBC News Brasil

Publicado em 

29 jul 2026 às 16:35
Imagem BBC Brasil
Gianni Infantino apresentou a proposta mais ousada dos seus 10 anos na presidência da Fifa Crédito: Getty Images
Gianni Infantino chama a ideia de democratização do futebol.
Mas o anúncio da Fifa de que a entidade pretende buscar investimentos privados para suas competições de futebol (incluindo a Copa do Mundo), por meio de associados do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi recebido com incredulidade e revolta pelos torcedores, políticos e organismos regionais.
O grande atrativo, segundo Infantino, são os US$ 40 milhões (cerca de R$ 205 milhões) de financiamento a serem fornecidos para todos os países da Fifa para "desenvolver o esporte", após a finalização do acordo.
Infantino estabeleceu um prazo até 19 de setembro para que as federações nacionais de futebol aceitem seu projeto, que dará acesso ao valor inicial de US$ 20 milhões (cerca de R$ 102,5 milhões).
Esta é a medida mais ousada do atual presidente da Fifa em uma década de mandato.
Infantino é um administrador que se considera um líder mundial, no mesmo patamar de presidentes e primeiros-ministros.
Se a Fifa levar o projeto a cabo, ele terá consolidado seu poder a longo prazo e enriquecido seus investidores no processo.
Mas por que Infantino sente que seu poder é suficiente para tomar uma decisão tão controversa? E quais seriam as suas consequências?

Como Infantino pode implementar seu plano? E como ele pode ser derrubado?

Infantino tem apoio suficiente para que o plano tenha boas probabilidades de seguir adiante.
Desde que foi eleito presidente da Fifa em 2016, ele conquistou apoio generalizado e duradouro de muitos países da África, Ásia e do continente americano, que se beneficiaram financeiramente de diversas políticas gerenciadas por ele.
Elas incluem a ampliação da Copa do Mundo para 48 países, o crescimento da receita comercial e de direitos de transmissão supervisionada pela Fifa e um programa que aloca milhões de dólares diretamente para os países membros, todos os anos.
Estas medidas concederam a ele uma base de apoio composta de mais da metade dos 211 países membros da Fifa.
As votações na Fifa exigem maioria simples. Se mais da metade votar a favor, o plano de Infantino será aprovado.
A proposta será atraente para muitos países, principalmente aqueles mais abaixo na cadeia alimentar do futebol. Para eles, um aporte de US$ 20 milhões seria mais do que eles ganhariam normalmente ao longo de vários anos.
O nível de apoio a Infantino parece ter fortalecido sua visão da presidência da entidade.
Recentemente, sua administração tomou decisões sem a votação dos seus membros, como a padronização das pausas de hidratação e do show musical de meia hora na final da Copa do Mundo. Elas seriam consideradas impensáveis quando Infantino assumiu o cargo, uma década atrás.
Imagem BBC Brasil
A família Trump poderá obter ganhos financeiros com a proposta de Infantino Crédito: Getty Images
E o relacionamento próximo entre Trump e Infantino também é de fundamental importância.
O fundo de investimentos Thrive Capital, com quem a Fifa está negociando, é comandado por Josh Kushner, cunhado da filha do presidente americano, Ivanka Trump.
A Fifa afirma que Greg Maffei também atua como "importante consultor comercial". Ele é ex-presidente da empresa Liberty Media, proprietária da Fórmula 1, e doador para as campanhas políticas de Trump no passado.
A proposta se segue a anos de declaradas tentativas de Infantino de aprofundar os laços, seus e da Fifa, com Donald Trump.
Ele criou um Prêmio da Paz e o concedeu a Trump. Ele abriu um escritório da Fifa na Trump Tower, em Nova York.
Ele permitiu que o troféu da Copa do Mundo de Clubes fosse mantido no Escritório Oval, na Casa Branca. Ele riu durante o discurso de posse de Trump, no qual o presidente ameaçou os coanfitriões da Copa do Mundo, Canadá e México.
E, na semana passada, Infantino reproduziu precisamente a linguagem de Trump, ao publicar uma declaração descrevendo aqueles que criticaram alguns aspectos da organização da Copa do Mundo como tendo sido "consumidos pelo ódio e pelas críticas".
Trabalhar com associados de Trump no projeto permite a Infantino fazer uso do poder gerado pelos laços que ele cultivou com a pessoa mais poderosa do mundo, com a promessa de resultados benéficos para as duas partes.
A Fifa manteve discussões sobre a possível busca de investimentos privados de forma unilateral, gerando irritação entre os países e regiões que sentiram que tudo foi feito pelas suas costas.
Existe um elemento de risco significativo nesta proposta. Mas a possibilidade de Infantino ser derrubado por ela é pequena, considerando o forte apoio que ele detém em outras partes do mundo.

Quais os benefícios para Infantino e os investidores?

Se a proposta for aprovada, a Fifa receberá de imediato um enorme fluxo de dinheiro e a parcela destinada às federações nacionais seria disponibilizada a partir de 1° de janeiro de 2027, segundo uma carta enviada por Infantino para cada país membro da entidade.
"A decisão de prosseguir ou não com esta proposta pertence inteiramente a vocês", destacou ele. "Em troca, tudo o que é necessário é a sua confiança. Todo o resto permanece igual."
O apelo é claro: vote para ajudar a nos deixar mais ricos e também enriqueceremos você.
Mas cada Copa do Mundo lucra muito mais que a anterior. O evento provavelmente irá valer muito mais daqui a quatro anos — e quatro anos depois do próximo torneio.
Se a Fifa vender as participações agora, os investidores privados irão se beneficiar desse crescimento nos próximos anos, não apenas a Fifa e o futebol.
Em última análise, a Fifa é uma organização sem fins lucrativos, segundo a legislação suíça. Isso significa que, pelo menos teoricamente, seu principal objetivo é manter o futebol a longo prazo, não gerar lucros.
Os grandes vencedores do projeto, sem dúvida, seriam alguns dos menores países do futebol, os investidores privados e Gianni Infantino.
Imagem BBC Brasil
Infantino e Trump receberam vaias da torcida durante a final da Copa do Mundo de 2026 Crédito: Getty Images
"O que sabemos até agora sobre como algumas federações nacionais gastam seu dinheiro levanta muitas dúvidas se o dinheiro chega aos níveis de futebol prometidos pela Fifa", afirma o ex-presidente do comitê de governança da entidade, Miguel Maduro.
Ele afirma ter se demitido do cargo após 10 meses, devido a discordâncias entre Infantino e a liderança da Fifa como um todo sobre a forma de operação do comitê.
"A Fifa funciona como um cartel político", explica ele.
"Ela é alimentada e sustentada por um sistema de apadrinhamento, que funciona por meio do dinheiro que a Fifa distribui para as federações nacionais. Houve casos de corrupção."
"A probabilidade de aprovação desta proposta é muito grande", prossegue Maduro.
"É uma forma de propina legalizada."
A BBC Sport entrou em contato com a Fifa, pedindo comentários sobre a avaliação de Maduro, mas não obteve resposta.
Os investimentos de capital privado já transformaram os esportes nos Estados Unidos.
Regras foram alteradas no baseball, basquete, futebol americano e hóquei sobre o gelo, para permitir o aumento dos investimentos minoritários na última década. Com isso, o valor das equipes disparou.
La Liga e a Ligue 1 (os campeonatos de futebol espanhol e francês, respectivamente) já venderam partes das suas operações para a empresa de capital privado CVC Capital Partners, em troca de um pagamento imediato em dinheiro.
Infantino segue uma tendência da economia esportiva, em vez de tentar algo totalmente novo. Mas ele estará prestes a fortalecer ainda mais o seu próprio poder, se for bem sucedido.

O conflito entre Infantino e Ceferin

A proposta de Infantino aprofundou seus conflitos já existentes com a entidade europeia — a Uefa, a mais rica e poderosa associação regional de futebol do planeta.
O presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, boicotou a final da Copa do Mundo, em protesto contra a decisão da Fifa de eliminar a suspensão automática do atacante americano Folarin Balogun após intervenção de Donald Trump.
O incidente se seguiu a uma série de anúncios feitos pela Uefa, deixando claro que não seguiria a política da Fifa sobre questões controversas, como os preços dinâmicos dos ingressos e as pausas de hidratação.
Um dos marcos da divisão entre Infantino e Ceferin é a Copa do Mundo de Clubes da Fifa. Ampliada e reformulada, ela se tornou uma ameaça clara e direta à Uefa Champions League.
Até então, a Uefa era a única organização que promovia uma competição internacional de clubes de futebol com os melhores jogadores do mundo, que é acompanhada por bilhões de pessoas em todo o mundo e gera lucros significativos.
No ano passado, a Fifa fortaleceu sua presença no território dos clubes de elite, acrescentando equipes de outros continentes à competição.
Imagem BBC Brasil
As tensões tomaram conta do relacionamento entre Aleksander Ceferin e Gianni Infantino, que antes era cordial Crédito: Getty Images
Algumas federações nacionais expressaram sua irritação por só terem tomado conhecimento dos planos da Fifa quando eles foram anunciados para o público.
Mas, fundamentalmente, muitas das declarações emitidas até agora não condenaram explicitamente o conceito de busca de investimentos privados em si.
Dito isso, a BBC Sport apurou que muitos membros da Uefa ficaram irritados com o projeto e que deve ser realizada uma reunião para discutir uma resposta.
Na terça-feira (28/7), a Uefa declarou que o plano da Fifa é "usar o nosso esporte para enriquecer, a eles e aos seus amigos".
Alguns relatos indicam uma possível ameaça de boicote à Copa do Mundo pelos países europeus. Teoricamente, uma Copa do Mundo sem a participação de seleções europeias comprometeria gravemente o valor do torneio para a Fifa.
Mas as possibilidades de que isso aconteça são discutíveis. A Europa abriga dois dos principais países-sede da próxima Copa do Mundo, em 2030.
Espanha e Portugal detêm a maior parte dos jogos, ao lado do Marrocos. E a Espanha vem trabalhando arduamente para conquistar o direito de receber a final no lugar da nação africana.
Existe também uma Copa do Mundo Feminina a ser realizada no Brasil no ano que vem. Ela poderia ser objeto de eventuais ações iniciais, caso a Uefa realmente queira tomar uma medida séria a este respeito.
A entidade europeia poderia também encontrar e inscrever um candidato para concorrer com Infantino na eleição para presidente da Fifa em 2026. Mas, como as nações da Uefa totalizam apenas 55 votos, uma vitória na votação seria improvável.
Se Ceferin e outros líderes europeus quiserem realmente combater o projeto de Infantino ao máximo possível, eles devem se dispor a tomar medidas importantes, de alguma espécie, com muita rapidez.
No momento, Infantino está mais fortalecido do que nunca.

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