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Fobias: por que temos tanto medo de coisas que provavelmente não irão nos machucar?

Muitos de nós temos medo de coisas que não representam risco muito sério. Os cientistas acreditam não nascemos com estes medos. Mas, então, de onde eles vêm?

Publicado em 20 de Agosto de 2026 às 16:34

BBC News Brasil

Publicado em 

20 ago 2026 às 16:34
Imagem BBC Brasil
Crédito: Art Images via Getty Images

O que você sente quando uma aranha aparece correndo no chão da sala de estar?

A maioria das aranhas são venenosas, mas muito poucas são perigosas para os seres humanos.

Acredita-se que menos de 10 pessoas morram anualmente de picadas de aranha em todo o mundo, segundo o Instituto de Educação e Pesquisa Ambiental. Mas é difícil coletar os dados com precisão.

Ainda assim, muitas pessoas afirmam ter fobia de aranhas, incluindo a autora desta reportagem. Não consigo dormir quando aparece uma no meu quarto e até pensar em teias é o suficiente para me fazer estremecer.

Em muitos casos, as fobias representam medo intenso de alguma coisa que, na verdade, não pode nos causar ferimentos sérios. Mas por que elas são tão comuns e de onde elas vêm?

Do medo para a fobia

O medo é uma emoção vital para os seres humanos, segundo a professora de psicologia Vanessa LoBue, da Universidade Rutgers em Nova Jersey, nos Estados Unidos.

"O medo é importante porque nos protege do que é potencialmente perigoso", explica ela.

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Aranhas dentro de casa são uma visão comum, que causa mais angústia para alguns que para outros Crédito: Elva Etienne via Getty Images

Mas, se o medo se tornar algo extremo e debilitador, ele poderá ser classificado como fobia, segundo András Zsidó, diretor do Laboratório de Emoções e Cognição Visual da Universidade de Pécs, na Hungria.

"Podemos imaginar isso como uma variável contínua, que começa basicamente com o medo bastante normal, e todos têm medo de alguma coisa", prossegue ele.

"Mas, quando começa a representar uma barreira para a sua vida diária, podemos considerar este medo como uma fobia."

LoBue também afirma que as fobias costumam ser desproporcionais à ameaça.

Em algumas partes do mundo (como no Reino Unido, onde moro), a maior parte das espécies de cobras não representa risco para os seres humanos, por exemplo. Por isso, o medo extremo destes animais pode ser irracional e classificado como fobia.

O mesmo não acontece em outras partes do mundo.

Inato ou adquirido?

Algumas fobias são comuns, mas a maioria dos especialistas não acredita que tenhamos nascido com elas.

Para LoBue, bebês jovens não conseguem sentir medo.

"Você só observa medo posteriormente, pois ele exige que você determine que algo é uma ameaça", explica ela. "E você precisa conhecer um pouco do mundo para isso."

Ou seja, se não nascemos com medo de aranhas ou cobras, por que as pessoas desenvolvem fobias em relação a estes animais?

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O medo de cobras pode parecer mais racional em algumas partes do mundo que em outras Crédito: dlewis33 via Getty Images

A professora de psicologia do desenvolvimento Stefanie Hoehl, da Universidade de Viena, na Áustria, realizou um estudo e concluiu que os bebês sofrem maior dilatação das pupilas quando observam cobras ou aranhas, em comparação com flores e peixes.

A dilatação das pupilas é um sinal de que eles podem estar percebendo possíveis riscos. Ela está relacionada à ativação do sistema noradrenérgico, envolvido na reação de "lutar ou fugir".

Esta reação é caracterizada por sintomas como aumento dos batimentos cardíacos, da pressão sanguínea e aceleração da respiração. São sinais de que o corpo está se preparando para correr ou lutar contra um perigo percebido.

Hoehl não acredita que os medos sejam inatos, mas afirma que existem certas coisas no nosso ambiente que podemos ser capazes de detectar com mais rapidez do que outras, dependendo, em parte, da forma em que elas se movem.

"Estamos preparados para aprender a ter medo de certas coisas que existem no mundo", explica ela.

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Podemos não nascer com fobias, mas especialistas acreditam que podemos ser geneticamente programados para aprender a ter medo de certas coisas Crédito: Maskot via Getty Images

LoBue acredita que podemos ser mais propensos a aprender a ter medo de aranhas e cobras do que de outros animais porque eles são "estranhos". Eu, de minha parte, concordo totalmente.

"Pense em uma cobra", explica ela. "Não há nada no mundo que se pareça com uma cobra."

"Pense em como os bebês se acostumam a ver os animais. São coisas de quatro patas que andam, certo? Mas as cobras não fazem isso. As aranhas se movimentam de formas anômalas. Nós não gostamos disso."

Especialistas acham que a nossa tendência de temer certas coisas pode ser consequência da evolução.

"Os primeiros seres humanos tinham um ambiente imprevisível", afirma Zsidó.

"Todos os medos e fobias... foram racionais em alguma fase do desenvolvimento da humanidade. Mas eles basicamente deixaram de ser úteis e racionais no nosso dia a dia."

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Aranhas e cobras se movimentam de formas que nos perturbam, segundo a professora de psicologia Vanessa LoBue Crédito: Catherine Falls Commercial via Getty Images

Mas a predisposição evolutiva de aprender certos medos, conhecida como teoria da preparação, por si só, não é suficiente para o desenvolvimento de fobias.

Uma experiência negativa direta com um animal ou objeto é uma forma muito rápida de adquirir medo, especialmente se já tivermos predisposição natural para isso, segundo LoBue.

Mas podemos também passar a temer algo ao observar reações negativas de outras pessoas.

"Você tem uma reação fisiológica", explica a professora. "Você é picado, você se assusta."

"E então... a mamãe reage ou diz: 'Uau, isso é muito ruim'... Tudo isso forma sua probabilidade de aprender a ter medo daquilo."

Por isso, as fobias podem ser passadas ao longo de gerações, segundo Hoehl.

'Veja os filmes'

Como as experiências definem se temos medo de algo, LoBue também acredita que a cultura popular é outra "culpada" pela grande incidência das fobias em relação a cobras e aranhas.

"Veja os filmes, veja os livros", explica ela. "Quando as cobras e aranhas são heróis? Nunca!"

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LoBue acredita que a forma em que são retratados certos animais em filmes e livros pode ser responsável, em parte, pelo medo que algumas pessoas têm deles Crédito: Flashpop via Getty Images

Em relação às fobias do mundo natural (as chamadas biofobias), pode haver outro fator em jogo.

Zsidó estudou se haveria relação entre o nível de urbanização do ambiente das pessoas e a incidência de fobias animais. E ele concluiu que sim, quanto mais urbanizada for uma região, mais comuns são as biofobias.

"Aparentemente, as pessoas que passam mais tempo na natureza, que têm mais experiências com a natureza, tendem a temer menos os animais que possam encontrar", explica ele.

Com mais de 80% das pessoas morando atualmente em áreas urbanas em todo o mundo, fica explicado por que as fobias relacionadas a animais são tão comuns.

Desaprendendo a ter medo

A maioria dos especialistas concorda em dois pontos: que podemos desaprender nossas fobias e que a melhor forma de fazer isso é nos expormos a elas.

"Se você se sentir um pouco desconfortável em certas situações, pode ser uma boa ideia se forçar um pouco", explica Hoehl.

LoBue indica começar com ações pequenas — observando fotos daquilo que lhe dá medo, por exemplo, e aprendendo fatos positivos sobre aquilo, para depois aumentar gradualmente a exposição.

Mas, se a fobia for extrema e tiver grande impacto sobre a sua vida, pode ser melhor buscar ajuda profissional.

Imagem BBC Brasil
Pesquisas indicam que as pessoas que passam mais tempo na natureza apresentam menos probabilidade de desenvolver biofobias Crédito: Justin Paget via Getty Images

A pesquisa de András Zsidó também sustenta a ideia de que a exposição não só nos ajuda a desaprender nossos medos, mas também nos impede de desenvolvê-los.

"A experiência pessoal é o fator mais importante para o desenvolvimento de medo", explica ele.

"Se houver uma experiência positiva, digamos, na infância, na escola ou algo parecido, ela age basicamente como fator de proteção contra o desenvolvimento do medo."

Vanessa LoBue destaca que o medo é positivo e nos protege. E também que temos controle sobre as nossas fobias.

"Você não é destinado a ter medo de nada em particular", explica a professora. "Se você tiver medo de algo e não quiser ter, existem soluções."

Pessoalmente, não sei se adquiri minha fobia de aranhas com um dos meus pais, se foi de um filme ou porque encontrei poucas aranhas ao longo da vida. Talvez seja uma combinação de todos estes fatores.

Quem sabe escrever esta reportagem pode ter sido o primeiro passo para superá-la.

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