"Vou partir para uma missão maluca…"
Esta foi a mensagem que o norueguês Johannes Natland, de 19 anos, enviou à sua namorada antes de viajar para o Reino Unido.
Em 19 de março de 2025, Natland foi preso em um hotel na cidade de Huddersfield, no norte da Inglaterra, com duas armas de fogo, 19 cartuchos de munição e £ 2 mil (cerca de R$ 14,6 mil) em espécie.
O grupo de crime organizado conhecido como Rede Foxtrot teria enviado Natland ao Reino Unido para executar um "assassinato por encomenda", segundo promotores britânicos.
O Foxtrot é um grupo extremamente violento, conhecido por recrutar adolescentes como assassinos de aluguel, prática que a Europol, agência policial da União Europeia, chamou de VaaS (sigla em inglês para "violência como serviço").
Mas como um jovem apaixonado por futebol acabou envolvido com o grupo criminoso que o contratou para matar? Como a Foxtrot e seu líder, Rawa Majid, recrutam adolescentes e jovens de diferentes países da Europa? E qual é a ligação da organização com o governo iraniano?
O que se sabe sobre a violenta quadrilha Foxtrot?
Em 13 de março de 2025, uma semana antes de Natland ser preso no Reino Unido, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou sanções contra a Foxtrot e Majid como parte da campanha de "pressão máxima" do presidente dos EUA, Donald Trump, contra o governo iraniano.
Em comunicado, o governo americano afirmou que o Foxtrot e Majid "cooperam com o Ministério da Inteligência do Irã".
Um mês depois, o Reino Unido também impôs sanções ao grupo e a seu líder por seu envolvimento em ataques contra alvos em diferentes países da Europa e para combater a ameaça interna atribuída ao governo iraniano.
No ano passado, os jornais suecos Dagens Nyheter e Expressen publicaram reportagens baseadas em documentos e informações que disseram ter recebido do Mossad, o serviço de inteligência e operações especiais de Israel. Segundo as publicações, Majid "trabalha para a República Islâmica do Irã".
O nome do Foxtrot ganhou notoriedade na imprensa em 2023. Em meados de junho daquele ano, uma forte explosão, ouvida a até 20 km de distância, atingiu a cidade sueca de Uppsala.
A explosão foi tão intensa que destruiu cinco casas próximas. Uma jovem, que, provavelmente não era o alvo do atentado segundo a polícia, morreu na explosão.
Naquele mesmo ano, surgiram relatos de uma série de confrontos armados e violentos na região metropolitana de Estocolmo. Os confrontos deixaram vários mortos, a maioria adolescentes, e geraram medo pelo país.
No último dia de janeiro de 2024, um funcionário da embaixada de Israel encontrou um dispositivo que se acreditava ser um explosivo dentro do terreno da embaixada em Estocolmo. A unidade antibombas da Polícia Nacional da Suécia foi acionada e, após retirar o dispositivo do local, informou que ele havia sido detonado de forma controlada.
O embaixador de Israel considerou o episódio como uma "tentativa de atentado terrorista".
Dois grupos criminosos suecos violentos, a Foxtrot e a Rumba, foram associados a esses episódios, e a República Islâmica do Irã foi acusada pelos governos da Suécia, dos EUA e de Israel de ter "cooperado" com eles.
Em 30 de maio de 2024, durante uma rara entrevista a jornalistas, o Serviço de Segurança da Suécia acusou o governo iraniano de "realizar atos ilegais e violentos na Suécia e em outros países por meio de uma rede de criminosos".
Daniel Stenling, chefe do Serviço de Segurança da Suécia, disse na entrevista: "Embora os alvos atacados por essas quadrilhas criminosas sejam principalmente grupos e opositores políticos do governo iraniano, representantes de países como Israel, além de organizações e instituições judaicas, também são alvo delas."
A Holanda também fez acusações semelhantes contra o Irã. Depois que os líderes de dois grupos de oposição ao regime iraniano foram assassinados em território holandês, em 2015 e 2017, o Serviço Geral de Inteligência e Segurança da Holanda acusou o Irã de "contratar grupos criminosos holandeses" para executar esses assassinatos.
No ano passado, o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido também afirmou que o Irã estava "usando redes de grupos criminosos violentos na tentativa de realizar atos violentos contra opositores políticos".
O Serviço de Segurança da Suécia, que antes apontava China e Rússia como as maiores ameaças à segurança do país, agora incluiu o Irã nessa lista.
Segundo o órgão, "o Irã já recorreu à violência em outros países europeus com o objetivo de silenciar críticos e neutralizar ameaças percebidas pelo regime".
O Serviço de Segurança da Suécia afirma ainda que, nos últimos anos, impediu "a execução de vários planos de assassinato ligados aos serviços de inteligência iranianos e a redes criminosas" na Suécia.
O Irã nega com veemência as acusações e afirma que a Suécia se baseia em "informações falsas fornecidas por Israel".
'Raposa Curda'
O homem apontado como líder da Rede Foxtrot é Rawa Majid, conhecido como "Raposa Curda". Segundo a imprensa sueca, ele nasceu no Irã, enquanto sua família é originária do Curdistão iraquiano. Pouco depois de seu nascimento, a família se mudou para a cidade sueca de Uppsala, onde Majid cresceu.
Majid é procurado pela Interpol por uma série de acusações, entre elas tráfico de drogas, homicídio, cumplicidade em homicídio, crimes violentos, porte de armas e outros delitos.
Acredita-se que Majid tenha deixado a Suécia há vários anos para evitar ser preso. Seu paradeiro é incerto, embora, em outubro de 2023, a emissora pública sueca SVT tenha informado que o "Raposa Curda havia sido preso no Irã ao tentar entrar ilegalmente no país pela fronteira com a Turquia".
A polícia sueca expediu vários mandados de prisão contra Majid à revelia. O mais recente foi emitido em setembro de 2023, após a apreensão de uma carga de 800 kg de anfetamina, cocaína e haxixe.
Segundo a imprensa sueca, além da cidadania sueca, Majid também possui cidadania iraquiana e turca. Quando a Suécia solicitou sua extradição, a Turquia recusou o pedido por ele ser cidadão turco. Na época, Majid estaria tentando fugir para o Irã.
Com base em documentos atribuídos ao Mossad, o jornal sueco Dagens Nyheter afirma que, "quando Rawa Majid foi preso no Irã, foi obrigado a escolher entre a prisão e cooperar com a República Islâmica".
Em outubro de 2023, o primeiro-ministro da Suécia, Ulf Kristersson, afirmou à SVT que tinha "informações não confirmadas indicando que Majid havia sido preso no Irã", mas não deu mais detalhes.
Segundo informações que o jornal sueco Expressen afirma ter recebido do Mossad, "Rawa Majid dirige remotamente seus associados na Suécia para realizar atentados contra alvos israelenses e judeus".
Antes de fugir da Suécia, Majid havia sido preso várias vezes sob suspeita de homicídio, envolvimento em tiroteios e tráfico de drogas.
De acordo com o relatório do Serviço de Segurança da Suécia, ele vem liderando a quadrilha Foxtrot à distância desde 2018, e a maior parte de suas atividades criminosas aconteceram enquanto ele já estava fora da Suécia.
Além do líder e da Foxtrot, a quadrilha rival "Rumba" e seu líder, Ismail Abdo, também foram acusados de cooperar com o Irã.
Segundo a imprensa sueca, Abdo era amigo e aliado de Rawa Majid, mas rompeu com ele após graves desentendimentos.
A disputa entre as duas quadrilhas atingiu o auge em 2023 e desencadeou uma série de episódios de violência — incluindo atentados a bomba, homicídios e confrontos armados — em Estocolmo e cidades vizinhas, deixando dezenas de mortos.