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'Influenciadoras que fingem submissão aos maridos são as mesmas que gerenciam impérios multimilionários', diz autora de best-seller sobre tradwives

A americana Caro Claire Burke faz uma crítica mordaz às influenciadoras conservadores em 'Bons Tempos: Yesteryear', que acaba de ser lançado no Brasil e será adaptado ao cinema por Anne Hathaway.

Publicado em 05 de Setembro de 2026 às 11:34

BBC News Brasil

Publicado em 

05 set 2026 às 11:34
Imagem BBC Brasil
Crédito: Divulgação

Em frente às câmeras, elas promovem e imitam os papéis tradicionais de gênero, retratando seus maridos como os grandes provedores, enquanto se dedicam à criação dos filhos e à manutenção da casa. Mas, no mundo real, pagam as contas de toda a família com o seu trabalho e administram impérios multimilionários.

Para a autora americana Caro Claire Burke, o retrato é parte da grande ironia que ilustra o fenômeno das influenciadoras que se apresentam como esposas tradicionais (ou tradwives, na expressão em inglês).

Burke é autora do livro Bons Tempos: Yesteryear, sucesso de vendas na Europa e Estados Unidos, e que acaba de ser lançado no Brasil pela Editora Rocco e que será adaptado para o cinema

A obra de ficção traz a história de Natalie, uma mulher de 32 anos que trabalha como influenciadora e se apresenta como uma tradwife. De repente, ela é transportada de volta ao século 19 e, quando o teatro vira realidade, os "bons tempos" rapidamente deixam de parecer tão agradáveis.

Em entrevista concedida em abril ao programa Book Club, da BBC Radio 2, Caro Claire Burke falou sobre o processo de escrita do livro e a ironia que é ver mulheres que lucram milhões com as redes sociais se posicionarem como submissas diante das câmeras.

"Existe uma certa ironia aí, porque essas mulheres que fingem submissão e que não saem de casa muitas vezes são as provedoras de seus lares, muitas vezes administram impérios multimilionários. É uma grande contradição", disse a autora.

Imagem BBC Brasil
O romance de estreia da escritora Caro Claire Burke conta a história de uma influenciadora de sucesso, que se apresenta como 'esposa tradicional' e é transportada para o século 19 Crédito: Divulgação/Ed. Rocco

Para Burke, a forma como outras mulheres se definem "não é da conta de ninguém". Porém, quando essas mesmas figuras estão propagando suas crenças nas redes sociais, usando uma imagem que, por vezes, é apenas uma performance, o tema se torna digno de discussão.

"Tenho muito interesse em como todos nós, de certa forma, performamos o tempo todo, tanto online quanto na vida real. É como um efeito de espelho distorcido, e é muito divertido explorar isso na ficção", disse a autora à BBC Radio 2.

Burke diz não ter se inspirado em uma pessoa específica para criar a personagem de sua obra, mas admite que passou muitas horas nas redes sociais pesquisando sobre as tradwives.

Segundo sua própria definição, essas figuras são mulheres que acreditam "em assumir papéis tradicionais" e na submissão das esposas aos maridos.

"Uma influenciadora tradwife é alguém que coloca essas ideias em prática online, geralmente ganhando bastante dinheiro", explicou Burke.

Questionada sobre as razões que a levaram a escrever a história, Burke disse que o tema pode ser encontrado "na interseção de todas as conversas possíveis sobre mulheres".

"Podemos falar sobre maternidade e cuidados infantis, trabalho, economia e cultura. Então, me pareceu uma ótima oportunidade para abordar todos os assuntos que me interessam", afirmou.

Questionada sobre o tom adotado na obra, classificada como uma "sátira sombria", a autora confessou ter se assustado com as próprias palavras em alguns momentos.

"Mas não foi algo em que pensei muito. O humor e o medo foram coisas que fiz meio que por instinto."

Uma fachada convincente e lucrativa

A protagonista de Bons Tempos: Yesteryear é Natalie Heller Mills, que se apresenta como uma tradwife.

Aos 32 anos, casada e mãe de cinco filhos (esperando o sexto), ela narra aos seus milhões de seguidores nas redes sociais a vida aparentemente idílica da sua família, em uma fazenda de 200 hectares no Estado americano de Idaho.

Sua personalidade retrata a subcultura real existente na internet, de mulheres que promovem e imitam os papéis tradicionais de gênero, com os homens sendo os provedores e as mulheres, suas subordinadas, priorizando a criação dos filhos e a manutenção da casa.

Natalie prepara pães de fermentação natural, educa seus filhos em casa, bebe leite não pasteurizado da sua própria vaca e coleta ovos de suas galinhas ("as meninas") todas as manhãs, tudo com um cintilante sorriso no rosto. Pelo menos, enquanto a câmera está ligada.

Na verdade, a vida perfeita de Natalie é apenas uma fachada cuidadosamente construída, convincente e lucrativa.

Mas, um dia, ela acorda vivendo subitamente no mesmo passado que ela romantiza, mais precisamente, no ano de 1855. E, quando o teatro vira realidade, os "bons tempos" rapidamente deixam de parecer tão agradáveis.

O romance alterna entre o presente e uma versão apavorante do passado. E, só no final do livro, ficamos sabendo como e por que Natalie foi parar no século 19.

Sucesso de vendas com paralelos na vida real

A versão em inglês de Bons Tempos: Yesteryear ficou semanas na lista dos mais vendidos do jornal americano The New York Times e em primeiro lugar entre os livros de ficção do Sunday Times, no Reino Unido.

A história também se tornou extremamente popular nas redes sociais, com muitos comentários sobre o livro nas plataformas Bookstagram e BookTok.

Em junho, o romance liderou o ranking de assuntos mais comentados da plataforma BookTok. E, nos grupos de bate-papo e clubes de livros, os leitores debatem intensamente o seu valor literário.

Por que o livro se tornou tão popular?

Os editores certamente investiram em uma intensa campanha de marketing. Mas o entusiasmo de Anne Hathaway também ajudou a chamar a atenção para a história.

A atriz americana viu um primeiro rascunho, comprou os direitos e irá produzir e estrelar o filme baseado na obra.

Sobre a adaptação, Burke afirmou ao programa Book Club que a equipe trabalhando no filme "é incrivelmente apaixonada" e o roteiro, que ainda está em desenvolvimento, "é fenomenal".

Imagem BBC Brasil
Crédito: Getty Images/Harper Collins

O papel de esposa tradicional também está em alta na ficção. Já são três livros com o título Trad Wife ou Tradwife publicados este ano em inglês. Todos explorando a ideia de que vidas aparentemente perfeitas raramente são o que parecem.

"Acho que as pessoas ficam fascinadas com as tradwives porque são figuras exageradas, extravagantes", disse à BBC Culture a professora de cultura e literatura contemporânea Rachel Sykes, da Universidade de Birmingham, no Reino Unido.

O inerente paradoxo das esposas tradicionais, que aparentemente desprezam as mulheres profissionais enquanto constroem paralelamente seu próprio negócio de sucesso, também as torna objeto de dissecação cultural.

E a ascensão das mulheres influenciadoras conservadoras é um choque para as progressistas, segundo Sykes.

"A figura da esposa tradicional realmente cristaliza muito desta questão e livros como este levam as pessoas a debater o que é importante para elas."

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