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O aventureiro britânico que partiu do Chile e há 28 anos percorre o mundo a pé

A BBC vai à Bélgica para caminhar um trecho com o aventureiro Karl Bushby, cuja viagem de volta para casa se aproxima do fim após 28 anos

Publicado em 20 de Setembro de 2026 às 20:34

BBC News Brasil

Publicado em 

20 set 2026 às 20:34
Imagem BBC Brasil
Karl fotografado no Chile no início de sua aventura Crédito: Karl Bushby

Há 28 anos, o aventureiro Karl Bushby percorre o mundo a pé. Agora, ele se aproxima do fim de sua viagem.

Escrevo sobre ele durante a maior parte desse tempo. Embora tenhamos conversado com frequência e trocado centenas de e-mails, nunca nos encontramos pessoalmente.

Nós nos encontramos na localidade de Havré, e acompanho Karl por um trecho de oito quilômetros até Mons, na Bélgica.

É parte da caminhada final até Calais, de onde ele planeja atravessar a nado o Canal da Mancha em outubro.

Vestindo shorts e uma camiseta com sinais de ter sido remendada durante a viagem, Karl — que ostenta uma barba grisalha — aparece no estacionamento de uma estação de trem belga.

Ele empurra um carrinho carregado de equipamentos de acampamento e outros itens essenciais.

Aos 29 anos, Karl partiu do Chile em direção à sua cidade natal, Hull, na Inglaterra, seguindo duas regras que havia estabelecido para si: não usar meios de transporte para avançar e não retornar ao Reino Unido até completar o percurso.

Imagem BBC Brasil
Karl Bushby, à direita, ao lado de Kevin Shoesmith, da BBC, a caminho de Mons, na Bélgica Crédito: Crispin Rolfe/BBC

A aventura de Karl Bushby

O suor atravessa sua camiseta, formando manchas em forma de asas sobre as omoplatas.

Este ex-paraquedista iniciou sua viagem em novembro de 1998, calculando que o percurso de volta à casa de sua infância — onde sua mãe ainda mora — levaria cerca de 12 anos.

Cerca de 28 anos depois, ele continua a caminho, embora seu avanço tenha desacelerado devido a restrições de visto, à crise financeira de 2008 — que o fez perder patrocinadores —, à covid-19 e a questões geopolíticas.

Em sua rota, atravessou Argentina, Peru, Equador, Colômbia e o Tapón del Darién em direção ao Panamá.

Passou por Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala e México antes de cruzar para os Estados Unidos e o Canadá.

Atravessou o estreito de Bering, entre o Alasca e a Rússia, e percorreu a Sibéria, a Mongólia, a China, o Turcomenistão e o Cazaquistão.

Atravessou a nado o mar Cáspio até o Azerbaijão.

Depois, seguiu para a Turquia antes de entrar na Europa.

Aos 57 anos, percorreu mais de 48 mil quilômetros e agora considera atravessar a nado o Canal da Mancha, depois que os responsáveis pelo Eurotúnel rejeitaram seu pedido de acesso a um túnel de serviço.

Karl entra rapidamente em uma loja e sai com uma garrafa de água, que prende sob uma corda elástica de seu carrinho, um veículo que ele próprio fabricou na Nicarágua no início da aventura. "A Fera", como ele a chama, é sua tábua de salvação.

Imagem BBC Brasil
Karl chega a Mons, na Bélgica, quando sua aventura se aproxima do fim Crédito: Kevin Shoesmith/BBC

Mantemos um ritmo acelerado. Com uma temperatura de 30 °C, tenho dificuldade para acompanhá-lo, enquanto Karl não demonstra sinais de cansaço, apesar de já ter caminhado 16 quilômetros antes do almoço.

Conversamos sobre como ele atravessou o estreito de Bering congelado em 2006 ao lado do aventureiro francês Dimitri Kieffer e sobre sua travessia a nado de 300 quilômetros, em trechos, pelo mar Cáspio.

Ao falar sobre sua travessia pelo Tapón del Darién, que conecta a Colômbia e o Panamá, Karl comenta: "Você precisa abrir caminho por uma floresta densa".

"Você encontra sistemas fluviais e muitos pântanos. E, para completar, existe o fato de que é uma zona de guerra", afirma.

Diante da ameaça de sequestro, Karl tentou parecer uma pessoa em situação de rua.

"Pessoas em situação de rua são praticamente invisíveis: ninguém presta atenção nelas; essa era a nossa intenção. Eu não queria ser o gringo loiro de olhos azuis com o equipamento mais moderno da The North Face", afirma.

E acrescenta: "Tingi meu cabelo e minha pele e deixei minhas roupas em farrapos. Carregava minhas coisas em sacos".

Imagem BBC Brasil
Karl lutando contra o gelo enquanto atravessa o estreito de Bering para entrar na Rússia em 2006 Crédito: Karl Bushby

'A persistência é o mais importante'

Uma mulher aparece na janela e observa, desconcertada, os dois homens e o carrinho.

Karl me convida a empurrar "A Fera" por um tempo. A fita preta que recobre o guidão está desgastada e começa a se soltar.

À medida que avançamos, nossa conversa se torna mais filosófica. Pergunto quais foram os maiores aprendizados da caminhada.

"A persistência é o mais importante", responde.

Karl tem dificuldade para manobrar "A Fera" entre uma fileira de carros estacionados. "Essas cidades podem ser divertidos circuitos de obstáculos", suspira.

Ao retomar minha pergunta, acrescenta: "Por vir de um ambiente militar, você nem sempre vê o melhor das pessoas, então isso abriu meus olhos. Desde o primeiro dia, o resto do mundo me recebeu de braços abertos".

Imagem BBC Brasil
Karl diz que partiu para provar a si mesmo e aos outros do que é capaz Crédito: Kevin Shoesmith/BBC

"Eles dirigiam durante oito horas seguidas para me encontrar e me dar comida na beira da estrada", lembra.

Quando Karl iniciou a viagem, tinha apenas US$ 500 no bolso e não contava com patrocinadores.

Depois, a expedição passou a ser financiada principalmente com recursos próprios, obtidos por meio de publicações — incluindo seu livro "Passos de gigante" — e palestras.

Coloco a mão na mochila e tiro uma carta da mãe de Karl, Angela Bushby. Na bolsa também há pacotes de seus doces favoritos.

"A mamãe se lembra", diz ele, rindo, enquanto escolhe alguns biscoitos de caramelo.

A última vez que se viram foi em 2015.

"Você ainda é o filhinho dela, não é?", pergunto.

"Aparentemente, sim", responde Karl. "Um menino muito feliz com todo aquele chocolate."

Na carta, Angela pergunta se ele realmente precisa atravessar o Canal da Mancha a nado. Tanto mãe quanto filho sabem a resposta.

E então aparece uma frase que diz tudo.

"Você costumava pensar que não servia para nada. Pois bem, você provou que não é assim", escreveu Angela.

Sempre soube que Karl tende a minimizar suas próprias conquistas, mas isso fica evidente na carta.

Imagem BBC Brasil
Angela Bushby escreve uma mensagem para o filho, que entreguei a ele quando se aproximava de Mons Crédito: Kevin Shoesmith/BBC

Ele me conta que nunca se sentiu tão em forma quanto seus colegas durante o período em que esteve no Exército.

Karl, cujo pai serviu no SAS (Serviço Aéreo Especial do Reino Unido), diz que o Exército o ajudou a ganhar confiança, mas o "dano já estava feito" na primeira infância, quando a dislexia não diagnosticada fez dele alvo de bullying.

"Eu não tinha confiança em mim mesmo. Eu tinha baixo desempenho. Minha dislexia só foi detectada no meu último ano de escola", afirma.

No entanto, Karl nunca duvidou de que conseguiria concluir sua viagem.

"Sem dúvida existe esse desejo de provar algo a mim mesmo. A mim e aos outros. Estamos falando de fazer algo que outras pessoas sequer poderiam sonhar em fazer", argumenta.

Imagem BBC Brasil
Karl na Colômbia em 2001, quando estava havia três anos em sua viagem de volta para casa Crédito: Karl Bushby

'É hora de colocar um ponto final'

Durante anos, Karl encarou com tranquilidade a data de conclusão. Agora, não. Existe uma urgência real.

"Definitivamente é hora de colocar um ponto final", diz. "Não quero continuar fazendo isso por muito mais tempo."

Chegamos a Mons e à sua impressionante Grand-Place, onde vários jovens, ao reconhecê-lo por sua conta no Instagram, vão diretamente até ele.

"Meu Deus, você é uma lenda", diz um jovem entusiasmado a Karl.

Imagem BBC Brasil
Karl diz que agora é reconhecido em todos os lugares graças às redes sociais Crédito: Kevin Shoesmith/BBC

Karl tem medo do futuro?

"Sim", admite. "Um dia vou acordar na casa da minha mãe: aos 57 anos, sem nada além das minhas coisas em uma bolsa ao lado da cama."

Chegamos a um café e Karl pede um suco de laranja.

Pergunto qual foi a parte mais difícil da viagem, mas, em vez de falar sobre bolhas ou medo da criminalidade, ele diz: "São os relacionamentos. Eu me apaixonei duas vezes, perdi essas pessoas e isso deixa marcas.

"A dor física, sim, dá para suportar. Mas se apaixonar e depois ter que continuar caminhando? Isso tira você completamente do eixo."

Ele me conta que sente uma "verdadeira euforia diante de um bom horizonte".

Provavelmente nada vai superar a primeira vez que ele vir os penhascos brancos de Dover.

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Os famosos penhascos brancos de Dover serão a primeira visão da Inglaterra que Karl terá desde que partiu do Chile há 28 anos Crédito: Kevin Shoesmith/BBC

Enquanto estamos em uma bela praça, com o famoso campanário de Mons se erguendo sobre nós, pergunto a Karl se ele alguma vez para para realmente contemplar a paisagem.

"Às vezes, você simplesmente não tem energia", admite.

"Em um lugar como este, você realmente absorve aquilo. Você ficaria surpreso com quantas vezes me encontrei em um lugar dizendo a mim mesmo que nunca mais estarei aqui."

Espero que nossos caminhos voltem a se cruzar... em solo inglês.

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