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O que está por trás da viagem secreta do chefe da CIA a Moscou

Não há nada de rotineiro na viagem secreta de ida e volta de John Ratcliffe a Moscou, escreve Frank Gardner.

Publicado em 27 de Agosto de 2026 às 22:34

BBC News Brasil

Publicado em 

27 ago 2026 às 22:34
Imagem BBC Brasil
Ratcliffe foi levado a Moscou em um avião militar dos EUA Crédito: Getty Images

O diretor da CIA, John Ratcliffe, se reuniu na terça-feira (27/8) com autoridades russas de inteligência — em particular com seu equivalente na agência de espionagem externa da Rússia, Sedrgei Naryshkin — depois de chegar ao país sem aviso prévio a bordo de um avião militar dos Estados Unidos, segundo confirmou o Kremlin.

O presidente Donald Trump disse que a viagem de Ratcliffe à Rússia foi uma visita "semirrotineira", mas não há nada de rotineiro na viagem secreta de ida e volta de cerca de 16 mil quilômetros do diretor da CIA a Moscou.

Já se passaram quase cinco anos desde que seu antecessor, William Burns, fez uma viagem semelhante. Na época, o momento também era de grande tensão: a Rússia estava elaborando os planos para invadir a Ucrânia. Por isso, é provável que a atual viagem seja algo sério.

Na ausência de um comentário oficial dos EUA sobre o motivo da missão, a viagem de Ratcliffe tem sido amplamente descrita como uma tentativa de alertar Moscou para não escalar a situação diante do impasse na Ucrânia — possivelmente com uma ação contra países da Otan.

Imagem BBC Brasil
Putin intensificou a retórica contra países aliados da Otan Crédito: Getty Images

Um funcionário do governo dos EUA disse ao site Politico que o "principal objetivo da reunião era alertar a Rússia contra qualquer ação de escalada contra os países bálticos".

O Reino Unido também está na mira da Rússia. Nesta quinta-feira, uma porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo disse que o país poderia atacar alvos militares britânicos em retaliação aos ataques ucranianos contra a Rússia com o uso de mísseis britânicos.

Além disso, especialistas em segurança afirmaram que um drone carregado com explosivos encontrado em um aeroporto da cidade alemã de Leipzig provavelmente era russo.

A notícia da viagem de Ratcliffe ocorre após relatos de que análises da inteligência dos EUA indicavam que o presidente Vladimir Putin estaria planejando um ataque limitado contra um país aliado da Otan.

Mas não é preciso contar com a organização de espionagem eletrônica mais poderosa do mundo — a Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) — para saber que Putin sofre uma pressão interna crescente para "fazer alguma coisa" e romper o impasse.

Os ataques ucranianos de longo alcance com drones não apenas atingiram duramente o setor energético da Rússia, como também levaram a guerra para perto da população russa.

Poucas coisas mostram tão claramente que os planos não estão saindo como esperado quanto as longas filas nos postos de gasolina e a fumaça saindo das refinarias de petróleo atingidas.

O Kremlin considera esses ataques uma forma de a Otan travar uma guerra indireta contra a Rússia, usando a Ucrânia como representante.

Então, como a Rússia pode reagir? Há vários caminhos possíveis.

Entre eles está intensificar os ataques com mísseis balísticos contra a Ucrânia, que Moscou já vem realizando, inclusive com ataques ao centro de Kiev, sabendo que a Ucrânia está perigosamente perto de ficar sem interceptadores Patriot para detê-los.

Isso poderia significar ampliar a "guerra híbrida" não declarada que a Rússia já é suspeita de travar contra países da Otan, com sofisticados ataques cibernéticos, incursões de drones e até o uso de criminosos menos sofisticados para realizar ataques incendiários contra fábricas de munição.

Mas, em um cenário ainda mais preocupante, há outras possibilidades que o Kremlin pode estar considerando, sob pressão dos setores mais radicais.

Uma delas seria desviar a atenção do evidente fracasso em vencer a guerra na Ucrânia, testando a disposição da Otan de reagir por meio de um ataque limitado a um dos países bálticos. Estônia, Letônia e Lituânia fizeram parte da União Soviética e foram, na prática, governadas por Moscou até 1991.

Hoje, os três países são membros da Otan, embora ainda tenham comunidades expressivas de pessoas que falam russo.

Putin certamente está ciente do desprezo que Donald Trump demonstra ocasionalmente pela Otan e pode ter calculado que um ataque discreto a Lituânia, por exemplo, não seria suficiente para acionar a cláusula de defesa mútua da aliança — o Artigo 5 — e que os EUA não reagiriam.

Nesse caso, faria sentido que parte da missão não explicada do diretor da CIA em Moscou tivesse sido lembrar à Rússia que os EUA continuam plenamente comprometidos com o Artigo 5.

A Lituânia é de especial interesse para o Kremlin porque faz fronteira com a Polônia por uma faixa de território conhecida como "Corredor de Suwalki". Com apenas cerca de 100 quilômetros de extensão, essa faixa de terra é o que separa Belarus, aliado da Rússia, do enclave russo de Kaliningrado, que não tem ligação territorial com o restante da Rússia.

Se a Rússia tomasse o controle dessa área, na prática, isolaria por terra os três países bálticos de seus vizinhos da Otan.

Armas nucleares táticas

Há ainda a questão das ogivas nucleares táticas. Há muito tempo se diz que a doutrina militar russa considera essas armas — pequenas em tamanho, mas extremamente destrutivas — parte integrante de sua estratégia militar.

Moscou tem sido alertada, tanto por aliados quanto por adversários, a não quebrar o tabu de 81 anos contra o uso de armas nucleares em conflitos.

Ainda assim, essa poderia ser uma opção tentadora para Vladimir Putin, na tentativa de "escalar para desescalar": demonstrar à Ucrânia que a Rússia dispõe de armas capazes de provocar uma destruição catastrófica e que seria melhor para Kiev aceitar agora os termos de Moscou ou enfrentar a aniquilação.

É claro que, na ausência de qualquer confirmação oficial clara e atribuída aos EUA sobre o motivo dessa viagem repentina do chefe da CIA a Moscou, também é possível que a missão tenha tratado de outro assunto.

Uma possibilidade seria tentar convencer a Rússia a interromper sua cooperação militar com o Irã, por exemplo, ou discutir novas trocas de prisioneiros e a possibilidade de uma mobilização em massa de tropas russas.

Mas não há dúvida de que essa foi uma viagem incomum e ocorreu em um momento de tensão crescente entre Moscou e o Ocidente. É quase certo que alguma coisa esteja acontecendo.

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