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Os irmãos que perderam a mãe no terremoto da Venezuela e agora sofrem com o tremor na Colômbia: 'Eles nos perseguem'

Deivi e Winder Delfín têm 15 e 17 anos. Em junho, o prédio onde moravam desabou após terremotos na Venezuela, e eles levaram 27 dias para recuperar os corpos da mãe e do irmãozinho com as próprias mãos. Eles se mudaram para a Colômbia com o pai e, três dias depois, a terra tremeu novamente.

Publicado em 14 de Agosto de 2026 às 11:34

BBC News Brasil

Publicado em 

14 ago 2026 às 11:34
Imagem BBC Brasil
Deivi (à esquerda) e Winder com o pai, Deivid Crédito: BBC Mundo

"Vim da Venezuela e o terremoto está me perseguindo", diz Deivi Delfín de uma barbearia em Cali, na Colômbia, onde seu pai trabalha.

Este adolescente de 15 anos e seu irmão Winder, de 17, viram coisas que nenhuma criança deveria ver: corpos irreconhecíveis, casas soterradas e famílias desesperadas.

Os irmãos Delfín viveram os devastadores terremotos de 24 de junho em La Guaira, a região mais afetada de toda a Venezuela.

Foi lá que perderam a mãe, Yusmani, soterrada sob os escombros de seu apartamento, que desabou.

Na tragédia, também morreram o irmão mais novo, Moissés, de 10 anos, e a avó Carmen.

Eles próprios retiraram os corpos dos escombros, depois de quase um mês removendo laje por laje. Não sabem ao certo de onde tiraram forças para fazer isso, apenas que conseguiram.

Na segunda-feira (10/08), três dias depois de migrarem para a Colômbia com o pai e menos de dois meses após o terremoto na Venezuela, a terra sob seus pés voltou a tremer.

Cali é uma das cidades mais atingidas pelo terremoto de magnitude 7,4 que deixou centenas de mortos no país.

Conversando com os adolescentes e seu pai, Deivid, percebe-se neles uma maturidade e uma força incomuns para a idade.

Eles contam que imaginam suas novas vidas na Colômbia com muito estudo e trabalho. Querem que a mãe, "onde quer que esteja", sinta orgulho deles.

Uma data difícil de esquecer

Em 24 de junho, os adolescentes foram passar o dia na praia. Winder também queria levar Moissés, mas o menino estava de castigo e a mãe não deixou que ele fosse.

"Eu insisti, insisti, mas minha mãe não deixou", lembra.

Passava das 18h quando eles voltavam para casa e o chão começou a tremer.

Dois terremotos, de magnitude 7,2 e 7,5, atingiram a Venezuela com apenas 39 segundos de diferença.

Os irmãos conseguiram se abraçar e fechar os olhos. Quando os abriram, tudo estava tomado por poeira e terra.

Imagem BBC Brasil
Os dois irmãos testemunharam os terremotos de 24 de junho na Venezuela Crédito: Getty Images

Foi então que voltaram para casa e viram que o prédio de 12 andares onde moravam havia desabado.

Sob aquela montanha de concreto, estavam presos a mãe, o irmão e a avó deles.

"Meu mundo desabou sobre mim", diz Winder.

O governo venezuelano estima em mais de 6,3 mil o número de mortos nos terremotos. Ainda não há um número oficial claro de desaparecidos.

La Guaira se transformou em um cenário de buscas exaustivas por mortos, e a dimensão do desastre ultrapassou a capacidade de resposta das equipes especializadas.

Foram familiares, vizinhos e voluntários que percorreram os prédios que haviam desabado, removendo concreto e abrindo pequenas passagens na tentativa de encontrar desaparecidos.

Winder e Deivi também fizeram isso.

"Passamos vários dias por lá, ajudando muita gente", lembra Winder, que perdeu a conta de quantas pessoas salvaram durante aquelas longas jornadas.

"Vimos várias crianças sem cabeça, pessoas com metade do corpo esmagada pedindo nossa ajuda", acrescenta.

Imagem BBC Brasil
Deivi diz que, depois dos terremotos na Venezuela, não se sentia mais como uma criança Crédito: BBC Mundo

Nos primeiros três dias, os irmãos não tinham onde dormir nem o que comer, mas nunca deixaram de ajudar nos resgates. Foram contando com a ajuda de desconhecidos até que alguns tios os encontraram.

Foi então que Winder caiu no choro. Ele só conseguia repetir: "Minha mãe, minha mãe, minha mãe".

A essa altura, o pai deles já estava viajando da Colômbia para se encontrar com os filhos.

Deivid vivia havia quase uma década em Cali, de onde enviava dinheiro à Venezuela para sustentar a família.

Quando chegou, Deivid não conseguia encontrar os filhos. "Eu não via o prédio onde meus filhos moravam. Tudo aquilo estava desabado", lembra.

Quando encontrou os dois filhos mais velhos, três dias depois dos terremotos, os três se abraçaram e choraram.

Não houve muito tempo para o reencontro. A mãe, o irmão e a avó dos meninos continuavam sob os escombros.

Naquela noite começou uma busca que duraria 27 dias.

'Eu não me sentia mais como uma criança'

Durante três semanas, os Delfín tentaram abrir caminho pelos andares comprimidos do prédio em busca do apartamento 107.

Abriram um buraco. Depois outro. E outro.

Deivid sabia que entrar no meio dos escombros representava um risco para os filhos, mas também não encontrava uma maneira de mantê-los afastados das buscas.

Às vezes, via os filhos chorando. Eles perguntavam pelos familiares que estavam sob os escombros. O pai não sabia o que responder.

Imagem BBC Brasil
Assim como milhares de sobreviventes na Venezuela, os irmãos e seu pai passaram dias revirando os escombros em busca dos corpos de seus familiares Crédito: Getty Images

Usaram uma pá, uma picareta, uma marreta, um martelete pneumático, uma serra e até uma faca de cozinha.

As ferramentas passavam de mão em mão entre vizinhos que tentavam encontrar seus próprios familiares.

Crianças e adolescentes, como Deivi e Winder, tinham uma vantagem: conseguiam entrar por espaços estreitos demais para os adultos. Os sobreviventes começaram a chamá-los de "tou­peiras".

Eles se enfiavam entre as lajes com celulares ou lanternas para explorar os buracos e indicar aos adultos por onde cavar.

Quebravam concreto e barras de ferro enquanto avançavam entre os destroços do que havia sido sua casa.

"Naquele momento, eu já não me sentia como uma criança", diz Deivi.

A saia florida da avó

A busca foi revelando fragmentos da vida da família.

Começaram a aparecer objetos que eles reconheciam: um short de Moissés, a Bíblia de Yusmani, uma lista de compras interrompida: "duas bananas, dois limões".

Eles estavam cada vez mais perto do que havia sido sua casa.

Imagem BBC Brasil
Da esquerda para a direita, Yusmani, Moissés e Carmen Crédito: Cortesia da família Delfín

No dia seguinte, enquanto avançavam pelo túnel, Deivi viu um tecido florido entre os escombros e o reconheceu imediatamente.

"Era a saia florida da minha avó", lembra.

Os bombeiros confirmaram que haviam encontrado uma mulher. "É a minha avó", disse ele.

Retirá-la levou várias horas. Os adultos quebravam as lajes com martelos e picaretas, enquanto os adolescentes removiam os pedaços de concreto.

Uma escavadeira trabalhava sobre eles, mas a família pediu que lhes permitissem continuar o trabalho manualmente. "As máquinas queriam entrar e estragar o nosso trabalho", afirma Deivi.

Finalmente, dois voluntários conseguiram entrar e retirar Carmen dentro de um saco preto.

Winder e Deivi abraçaram o pai e choraram enquanto um dos voluntários rezava.

Ainda faltavam Yusmani e Moissés.

Imagem BBC Brasil
Winder reconheceu sua mãe entre os escombros de seu prédio em La Guaira Crédito: BBC Mundo

A mãe e o irmão

Winder foi o primeiro a reconhecer a mãe entre os escombros.

O adolescente soube que era Yusmani porque ela ainda tinha nos cabelos a touca que havia colocado para tingi-los antes de ele e Deivi saírem para o parque aquático.

"É a minha mãe, é a minha mãe!", lembra de ter repetido.

Winder se aproximou o máximo que conseguiu. Retirou a touca dos cabelos dela e ficou alguns momentos ao seu lado.

Ainda não era possível retirar o corpo. Uma laje de concreto prendia Yusmani, e a família precisava continuar abrindo espaço ao redor dela. O pai deles golpeou o concreto com uma marreta.

Foi enquanto removiam os escombros que encontraram Moissés. O menino estava abraçado à mãe.

Imagem BBC Brasil
Deivi mostra com carinho fotos de seu irmão mais novo Crédito: BBC Mundo

Deivid, ao ver o filho Moissés, desabou.

"Quando a cabecinha dele caiu nas minhas mãos… eu perdi o controle. Os paramédicos tiveram que me tirar de lá porque era desesperador demais o que eu estava vivendo", conta.

Os socorristas levaram Deivid até uma tenda para receber atendimento. Ele ficou lá por cerca de uma hora. Depois, pediu para voltar. Queria estar novamente com os filhos e ver Moissés.

Enquanto isso, Winder havia permanecido no local. "Eu tirava forças de onde não tinha", lembra.

À noite, ele continuava removendo os escombros e ajudando a retirar o corpo da mãe.

Um mês depois, as buscas terminaram. Depois de cremar os corpos dos familiares e enterrá-los, os irmãos se mudaram com o pai para Cali.

Imagem BBC Brasil
Os irmãos enfrentaram outro terremoto na segunda-feira, desta vez em Cali, Colômbia Crédito: Getty Images

'Pensei que fosse um pesadelo'

A família Delfín chegou a Cali na sexta-feira, 7 de agosto. Eles vivem em um bairro humilde, comercial e com casas baixas no nordeste da cidade.

Na segunda-feira, 10 de agosto, pouco depois das 7h da manhã, a casa começou a tremer: o pior terremoto em uma década na Colômbia sacudia o país.

Deivi estava dormindo. No início, sentiu um movimento suave e esperou passar. "Achei que fosse um pesadelo", lembra.

Quando o tremor se intensificou, ele saiu da cama e desceu correndo do segundo andar. O irmão também.

Do lado de fora, os dois se agarraram a uma grade e esperaram até que o tremor parasse.

O pai estava na rua. Quando sentiu o terremoto, pensou imediatamente nos filhos e correu para casa. Quando chegou, eles não estavam lá.

Uma vizinha disse que os tinha visto sair e continuou procurando por eles até encontrá-los em frente à barbearia onde o pai trabalhava.

Os filhos tentaram acalmá-lo: "Pai, fica tranquilo. Isso a gente já viveu".

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