Uma execução extrajudicial. É dessa maneira que ONGs de defesa dos direitos humanos e nomes da política venezuelana, como o ex-prefeito de Caracas Antonio Ledezma e a ex-procuradora-geral da República Luisa Ortega Díaz, se referem à morte do piloto rebelde Óscar Pérez, durante uma operação realizada por forças de segurança na segunda-feira. Além da condenação, opositores do governo também exigem uma investigação para esclarecer como foi a ação, que envolveu agentes da polícia, da Guarda Nacional Bolivariana, do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin) e das Forças de Ações Especiais, deixando nove mortos. A Estadão Conteúdo
“Que evidências mais querem a ONU e o Tribunal Penal Internacional que o testemunho de Óscar Pérez manifestando sua intenção de se render e pedindo que a vida dos presentes seja poupada?”, questionou Luisa Ortega no Twitter. “Não garantiram as vidas desses jovens como aconteceu com (o ex-presidente) Hugo Chávez e (o ex-presidente da Assembleia Nacional) Diosdado Cabello quando se renderam na quartelada de 1992”.
Em 15 vídeos publicados no cerco, Pérez, ex-inspetor do Corpo de Investigações Científicas, Penais e Criminalísticas (Cipc) da Venezuela, afirmava sua intenção de se entregar, tentava convencer militares na operação a se juntarem a ele, e depois aparecia ensaguentado acusando forças de segurança de dispararem granadas contra a casa em que ele e seu grupo estavam escondidos. No entanto, o ministro de Interior, Justiça e Paz, Néstor Reverol, afirmou que o grupo resistiu à captura.
— Apesar de todas as tentativas de chegar a uma negociação pacífica, o grupo iniciou, de maneira mal-intencionada , um enfrentamento com as forças de segurança — afirmou Reverol, ecoando uma mensagem publicada por Cabello na segunda-feira, na qual afirmou que a polícia respondeu a tiros disparados por Pérez, que teria ferido agentes de segurança.
O Programa Venezuelano de Educação e Ação em Direitos Humanos (Provea), que durante a negociação exigiu do Ministério Público que a integridade física de Pérez e de seu grupo fosse respeitada, lamentou o que classificou como uma ação deliberada do Estado.
— O que aconteceu ontem (segunda-feira) foi uma execução — afirmou o advogado da ONG, Marino Alvarado ao GLOBO. — Pérez fez um apelo, e as autoridades não fizeram qualquer esforço para garantir sua integridade física. Foi uma omissão do Ministério Público, que poderia ter salvado não apenas o grupo de Pérez, mas também os dois policiais mortos.
Insinuações feitas por Reverol, de que o paradeiro do grupo teria sido revelado a autoridades por membros da oposição, foram rebatidas num comunicado emitido pela Mesa de Unidade Democrática (MUD), principal coalizão opositora do país. Na nota, a coalizão classifica o ministro e o governo do presidente Nicolás Maduro de “mentirosos”, e questiona a presença de paramilitares dos chamados “coletivos” na operação que culminou na morte do piloto e de mais seis rebeldes.
“Como explicar a presença, confirmada por (o comissário geral do Sebin) Freddy Bernal, do sr. Sr. Heiker Vásquez, líder do coletivo Tres Raíces, e responsável pelo controle e o tráfico de alimentos na região, na operação militar? Onde estavam o Ministério Público e a Defensoria do Povo?”, perguntou a coalizão, anunciando que o Parlamento decidiu abrir uma investigação sobre o ocorrido.
Em El Junquito, distrito da Grande Caracas onde os rebeldes foram mortos, protestos foram registrados. Para Alvarado, a repercussão do caso pode dificultar ainda mais a situação de Maduro, alvo de enormes críticas em todo o mundo:
— Desta vez não foi algo que ficou restrito aos venezuelanos. O mundo inteiro viu que o governo de Maduro despreza a vida e não hesitará em violar a lei para se impor. Isso terá repercussões internacionais.