"Existem muitos homens grandiosos, mas só existe um Mestre."
É assim que muitos jovens chineses se referem ao falecido líder chinês Mao Tsé Tung online: "Mestre" ou "Professor".
Uma busca por "Mao Tsé Tung" ou "Professor" na plataforma de vídeos Bilibili retornará dezenas de exemplos de compilações de vídeos com aparições de Mao extraídas de vários filmes e séries de TV.
Esses vídeos abrangem diferentes fases da vida de Mao, incluindo episódios de sua juventude, seu período como comandante militar e como líder na gestão das relações da Guerra Fria entre a China, os EUA e a União Soviética. Muitos atraíram milhões de visualizações e dezenas de milhares de comentários, incluindo elogios como "Viva o grande homem".
A base de usuários do Bilibili é predominantemente jovem, com quase 60% na faixa etária de 18 a 24 anos.
Por que, 50 anos após sua morte — em 9 de setembro de 1976 —, Mao ressurgiu com tanta proeminência na cultura jovem chinesa online?
Um Mao diferente
Como a figura política que definiu a China do século 20, Mao liderou o Partido Comunista — e o país — desde a fundação da república em 1949 até o dia de sua morte, em 1976. Ele conduziu a China através do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural — campanhas que remodelaram a economia e a sociedade do país, mas ao custo de milhões de mortes.
Uma das pessoas que se sentem atraídas pelo líder hoje é Dong, um estudante de Nanjing que está prestes a começar a universidade.
Recentemente, ele se comoveu com um vídeo de duas jovens cantando uma canção patriótica em frente a uma estátua gigante do jovem Mao na Ilha Laranja, em Changsha.
"Elas cantaram com tanta emoção, e a estátua é tão alta e jovial. Ao vê-la, de repente me senti bastante emocionado", disse Dong à BBC.
Muitos de seus colegas participam de comunidades online de jovens que discutem assuntos da atualidade, comumente conhecidas como "círculo político de teclado".
Outro indicador dessa tendência é que, a partir de 2019, o livro Obras Selecionadas de Mao Tsé Tung tornou-se inesperadamente a obra mais emprestada da Biblioteca da Universidade de Tsinghua, mantendo-se nessa posição em todos os anos até 2025.
É importante destacar que o interesse dos jovens por Mao hoje difere da narrativa pública com a qual seus pais cresceram.
Em 1981, o Partido Comunista Chinês (PCC) adotou uma resolução elaborada sob a liderança de Deng Xiaoping. Ela estabeleceu oficialmente uma avaliação de Mao que equilibrava suas conquistas com seus erros, frequentemente resumida como "70% conquistas, 30% erros".
Durante os governos de Deng Xiaoping e, posteriormente, de Jiang Zemin, os retratos de Mao desapareceram gradualmente das estações ferroviárias, praças públicas e salas de aula.
As pessoas passaram a ver Mao cada vez mais como uma figura histórica, e não como uma divindade, um homem com limitações. Deng, por sua vez, tornou-se um símbolo de uma nova era econômica – um programa de reformas para construir uma economia de mercado interna e abri-la para o mundo.
Hoje, porém, Mao recuperou a relevância para os jovens chineses, e muitos, incluindo Dong, raramente se referem a Mao pelo nome, chamando-o de "Professor".
O título tem uma origem específica. Durante um encontro com o jornalista americano Edgar Snow em 1970, Mao teria comentado que não gostava de títulos como "Os Quatro Grandes" — um slogan político usado para elogiá-lo como um grande professor, líder, comandante e timoneiro durante a Revolução Cultural — dizendo: "Só resta um... Professor, porque eu sempre fui um professor".
Dong e seus colegas discutem Mao abertamente e sem rodeios. Mas quando o assunto é o atual líder chinês, Xi Jinping, Dong sente que "não é algo que possa ser discutido abertamente".
Um estudo do Instituto Mercator para Estudos da China (MERICS) descobriu que, embora o espaço online da China ainda permita um certo grau de discussão pública, tópicos que realmente afetam os mais altos níveis de liderança são frequentemente evitados conscientemente.
O relatório argumenta que esse "espaço frágil para discussão" é resultado tanto da censura quanto da autocensura.
'Não é simplesmente nostalgia'
Na visão de alguns especialistas, a renovada atenção dada a Mao por alguns jovens está interligada com suas percepções sobre questões sociais como a desigualdade de riqueza e o declínio da mobilidade social.
Florian Schneider, professor da Universidade de Leiden que há muito estuda a cultura política da juventude chinesa, afirma que os jovens de hoje enfrentam uma realidade muito diferente da das gerações anteriores.
Seus pais viveram numa época em que o crescimento econômico parecia elevar o padrão de vida de todos, enquanto muitos jovens agora se sentem deixados para trás pelo progresso prometido pelas reformas de Deng.
Segundo os dados mais recentes do Departamento Nacional de Estatísticas da China, a taxa de desemprego urbano para jovens de 16 a 24 anos que não são estudantes subiu para 17,9% em julho de 2026 — o nível mais alto desde a revisão da metodologia estatística três anos antes.
Novos termos passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano dos jovens.
"996" faz referência ao trabalho das 9h às 21h, seis dias por semana.
Muitos dizem que preferem "ficar deitados", ou seja, permanecerem passivos em vez de se deixarem levar pela "involução" — termo que designa trabalhar cada vez mais apenas para se manter no mesmo lugar.
Nesse contexto, as críticas de Mao ao capitalismo encontram eco em alguns jovens. Schneider afirma que alguns usam as ideias de Mao para expressar insatisfação com o que consideram "a captura do Estado pelo capital", enquanto outros tratam os escritos de Mao como uma espécie de guia para lidar com as contradições da vida.
Dong expressa uma opinião semelhante: "Nossa geração foi ensinada desde a infância que o trabalho árduo seria recompensado. Mas quando crescemos, descobrimos que não era tão fácil conseguir emprego e que as casas eram inacessíveis".
Ele acrescenta que a linguagem de Mao é direta, dividindo as pessoas em diferentes categorias.
"Ele deixa claro quem é o opressor e quem é o oprimido. Essa estrutura simples é mais fácil de entender do que o jargão econômico."
"O ressurgimento de Mao não é simplesmente nostalgia", diz Schneider. "Reflete uma tentativa dos jovens de usar uma linguagem histórica existente para nomear e processar a desigualdade e a insegurança que vivenciam."
Energia política
A avaliação oficial do PCC sobre Mao ainda se baseia na resolução de 1981: as conquistas de Mao são primordiais, enquanto seus erros são secundários.
A terceira resolução histórica do Partido, adotada em 2021, coloca o "grande rejuvenescimento da nação chinesa" no centro de sua narrativa.
Nesse contexto, a revolução de Mao é frequentemente entendida como a fase em que a China "se ergueu", estabeleceu a República Popular, resguardou a independência nacional e lançou as bases para o rejuvenescimento do país. Mao, portanto, não é apenas uma figura histórica cujas conquistas e fracassos devem ser avaliados; ele também é apresentado como uma das origens das narrativas atuais de força nacional.
Schneider acredita que "as políticas educacionais do Partido têm pelo menos parte da responsabilidade pelo ressurgimento de Mao nos dias de hoje. Para muitos jovens, a China de Mao se baseia em uma fantasia na qual esse grande líder é um herói inquestionável".
Ele argumenta que muitos jovens desconhecem as realidades devastadoras do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural, ou possuem uma compreensão distorcida do papel de Mao nesses eventos.
Schneider alerta que essa admiração popular por Mao contém mais energia política do que pode parecer à primeira vista.
"Este é um desenvolvimento potencialmente explosivo, porque essa cultura de fãs de Mao, que surge de baixo para cima, tem um caráter claramente populista e não se limitará necessariamente a questionar os métodos de governo atuais."
Ele compara isso às expressões de nacionalismo na China: "Esses sentimentos populistas podem ser censurados até certo ponto, mas controlá-los completamente é extremamente difícil".
Para Dong e seus contemporâneos, a atual "febre Mao" pode estar longe de terminar. Resta saber se ela se limitará à cultura da internet ou se desenvolverá em uma forma mais duradoura de identidade política.
- Usamos inteligência artificial para traduzir esta reportagem, originalmente escrita em inglês. O texto foi revisado por um jornalista da BBC antes da publicação. Saiba mais aqui sobre como a BBC está usando a inteligência artificial (link para texto em inglês).