Uma equipe de limpeza percorria as perigosas encostas superiores do Monte Everest no início de junho, recolhendo lixo após uma intensa temporada de escaladas, quando avistou um homem vestindo um macacão azul brilhante "deslizando lentamente" aos pés da Cascata de Gelo do Khumbu, considerada uma das áreas mais perigosas da montanha mais alta do mundo.
Era Hillary Dawa Sherpa, um guia de montanha de 57 anos que havia se separado dos viajantes de seu grupo durante a descida seis dias antes. Quando reapareceu, ele já tinha sido dado como morto e sua família já havia iniciado os rituais funerários. Seria mais uma vida perdida nas encostas traiçoeiras do Everest.
Apesar das queimaduras causadas pelo frio extremo e do estado de exaustão, Dawa Sherpa ainda conseguia se sentar e conversar com as pessoas que o encontraram, antes de ser levado de helicóptero para um hospital em Katmandu, capital do Nepal.
A notícia de sua sobrevivência surpreendente ganhou manchetes internacionais e causou grande repercussão entre a comunidade de montanhistas.
Mas o caso também levanta questões preocupantes sobre a crescente indústria do turismo de alta altitude e chama atenção para os riscos fatais enfrentados pelos Sherpas, grupo étnico do Nepal tradicionalmente associado às expedições no Everest.
A empresa Himalayan Traverse Adventure (HTA), para a qual Dawa Sherpa trabalhava, afirma que todos os procedimentos adotados durante o incidente seguiram os protocolos adequados e que as condições climáticas desfavoráveis dificultaram as operações de resgate.
Mas muitos questionam se a empresa, conhecida por oferecer pacotes abaixo dos preços praticados no mercado, fez o suficiente para proteger seus guias.
Se Dawa Sherpa havia sido contratado como cozinheiro de acampamento, por que, então, ele estava guiando clientes até o topo da montanha de 8.849 metros? E por que as buscas só começaram três dias depois de seu desaparecimento? E elas teriam começado antes se ele fosse um cliente, e não um guia?
A família de Dawa Sherpa apresentou uma queixa à polícia acusando a HTA de negligência, e o Departamento de Turismo do Nepal investiga o caso.
Desastre a 7.500 metros
A HTA inicialmente havia contratado Dawa Sherpa como cozinheiro para trabalhar no Acampamento 2, a mais 6.000 metros de altitude. Mas, segundo a empresa, ele acabou sendo designado como substituto de um guia que "adoeceu no acampamento-base".
Dawa Sherpa aceitou a mudança improvisada de função porque "queria ganhar um dinheiro extra", disse à BBC Angfurba Sherpa, gerente da HTA.
Foi assim que Dawa Sherpa acabou acompanhando dois clientes, o alpinista britânico Chris Thrall e o alpinista polonês Mariusz Chmielewski, na expedição ao topo do Monte Everest que quase terminou em tragédia. Também estava com eles outro guia, Pasang Kaji Sherpa.
Na rota sul do Everest, há quatro acampamentos acima do acampamento-base principal, normalmente usados pelos alpinistas como pontos de descanso e aclimatação. O Acampamento 4, situado a 7.920 m de altitude, é o mais alto.
O grupo começou a descida a partir do Acampamento 4 em 29/5, com Pasang Kaji Sherpa e Chmielewski seguindo à frente, porque Chmielewski estava ficando sem oxigênio.
Thrall, que vinha atrás com Dawa Sherpa, disse que o guia (Dawa Sherpa) parou para se sentar sobre a mochila logo acima do Acampamento 3, a cerca de 7.500 metros, "como já havia feito centenas de vezes antes para descansar por alguns minutos".
"Eu me virei e perguntei: 'Hillary [Dawa Sherpa], você está bem, irmão?'", contou Thrall em um vídeo no Instagram. "Ele respondeu: 'Sim, sim, estou bem, Chris, por favor, siga em frente'."
O ex-soldado britânico descreveu o dilema que enfrentou sobre voltar para buscar Dawa Sherpa ou alcançar o restante do grupo: "Eu deveria voltar pelo Sherpa, que provavelmente chegaria logo e ficaria bem, como já havia acontecido centenas de vezes antes, ou ajudar meu colega de escalada, que estava sem oxigênio, com congelamento nos dedos e, obviamente, sempre perto de uma hipotermia lá em cima?"
Em resposta às acusações de que a equipe havia deixado Dawa Sherpa para morrer, Thrall afirmou: "No Everest, as coisas são muito diferentes. Eu tinha um cilindro de oxigênio que já estava meio vazio [àquela altura]."
"Tentar subir de volta... teria consumido praticamente todo o meu oxigênio. Não estou tentando me livrar da minha responsabilidade. Só estou dizendo que é preciso ser realista", disse Thrall.
Em entrevista ao programa Newshour, da BBC, Thrall disse que decidiu "se voltar para o integrante mais frágil do trio", em referência a Chmielewski, com quem dividiu o pouco oxigênio que ainda restava enquanto continuavam a descer a montanha em meio a uma forte tempestade de neve.
As condições eram tão ruins que Thrall e Chmielewski chegaram a gravar mensagens de despedida para os seus familiares, acreditando que talvez não sobrevivessem.
O grupo levou cerca de 38 horas para finalmente chegar ao acampamento-base. Àquela altura, eles já presumiam que Dawa Sherpa estivesse morto.
"Era um branco total", disse Thrall. "Todas as cordas estavam cobertas por cerca de 30 cm de neve... Em nenhum momento, quando olhei de volta para a montanha, vi [qualquer sinal de] Dawa Sherpa."
Chmielewski, por sua vez, também acusou a HTA de negligência.
"Veja, Dawa Sherpa foi deixado sozinho; ele se salvou por conta própria", disse Chmielewski à BBC. "Isso mostra a triste verdade sobre a forma como a Himalayan Traverse [HTA] trata os seus funcionários. Os clientes são tratados de maneira parecida."
Chmielewski afirma que Pasang Kaji Sherpa, o outro guia de montanha do grupo, avisou a empresa em 30/5 que Dawa Sherpa estava desaparecido, mas que nenhuma operação de busca foi iniciada até dias depois.
Chmielewski, que também foi internado com lesões causadas pelo frio, sugere ainda que as decisões durante a expedição foram tomadas de forma improvisada e que a empresa parecia despreparada.
"Tenho enormes ressalvas em relação à agência que organizou esta expedição", afirma. "Acho que eles deveriam perder a licença."
'Não achei que fosse sobreviver'
Dawa Sherpa afirma que foi "forçado a ficar para trás" perto do Acampamento 3, situado a cerca de 7.200 m de altitude, porque havia ficado sem oxigênio e já não conseguia andar.
Sem oxigênio suplementar, um alpinista totalmente aclimatado normalmente sobreviveria apenas dois ou três dias naquela altitude.
"Eu não conseguia andar... Não comi nada nos dois primeiros dias. Depois comecei a mastigar gelo, mas meus dentes doíam", disse Dawa Sherpa à BBC Nepal, do Hospital HAMS, em Katmandu. "Não achei que fosse sobreviver."
Depois, ele encontrou chocolates no bolso e conseguiu beber um pouco de gelo derretido.
Segundo duas pessoas que conversaram com ele sobre o que viveu, Dawa Sherpa desceu lentamente, até cair em uma fenda no gelo.
Então, uma avalanche que lançou neve para dentro da fenda lhe deu a primeira esperança em dias.
"Pisando na neve, consegui me levantar e olhei para cima... Senti que poderia sair dali", disse.
Depois de conseguir escapar dali, ele encontrou cordas por perto, que o ajudaram a avançar mais na descida. Foi então que viu a equipe de limpeza, as primeiras pessoas que encontrou em quase uma semana.
Dawa Sherpa foi transferido da UTI para uma enfermaria no início desta semana e está "se recuperando bem", afirmou a sua família à BBC Nepal.
O fundador e presidente da HTA, Dawa Sherpa (cujo nome é parecido com o do guia que desapareceu), afirmou que, quando a empresa percebeu, em 30/5, que não conseguia contato com o guia Hillary Dawa Sherpa, informou a 8K Expeditions, empresa parceira de maior porte que ajudou a emitir as licenças de escalada de Thrall e Chmielewski. "A operação de busca foi atrasada apenas por causa das condições climáticas adversas, mas isso não significa que houve negligência", disse ele à BBC.
"O tempo estava muito ruim, era um branco total, o que significa que tivemos neve profunda continuamente por alguns dias. Não teria sido possível enviar um helicóptero [imediatamente]. Eu estaria mandando os socorristas para a morte."
Dawa, presidente da HTA, acrescenta que a 8K Expeditions deveria ser a empresa responsável pelo resgate, porque foi ela que emitiu as licenças. A 8K Expeditions, no entanto, afirma que não era responsável por fornecer a logística nem os serviços operacionais daquela expedição específica.
"Ainda assim, como parte de nossa responsabilidade e compromisso de apoiar a comunidade do montanhismo, fizemos o possível para ajudar [nas] buscas", disse à BBC Lakpa Sherpa, diretor-gerente da empresa.
Lakpa Sherpa confirmou que a HTA realmente fez o primeiro contato em 30/5, mas depois deixou de responder. A HTA não se manifestou sobre essas alegações.
"Tentamos várias vezes entrar em contato com a Himalayan Traverse Adventure para obter mais informações e coordenar as ações", afirmou Lakpa Sherpa. "No entanto, eles estavam inacessíveis... Em 2/6, conseguimos contato com a família de Hillary e coordenamos uma operação de busca aérea."
Essa busca não encontrou nada.
A 8K Expeditions chamou o caso de Dawa Sherpa de um "verdadeiro autorresgate" e "nada menos que um milagre".
O cozinheiro que acompanhou clientes na subida do Everest
Especialistas no Everest dizem que os cozinheiros de acampamento raramente estão preparados para escalar a montanha.
"Em geral, os guias locais que levam clientes ao cume de montanhas de 8.000 metros são treinados especificamente para essa função", afirma Ben Ayers, repórter da Outside Magazine que cobre o Everest há muitos anos.
"Dawa Sherpa tinha experiência nessa função em anos anteriores, mas já estava em uma fase avançada da carreira."
Chmielewski, o alpinista polonês, afirma que a HTA disse ao grupo que Dawa Sherpa havia sido realocado como guia de escalada "porque [o guia original] tinha problemas com álcool e um problema de saúde".
"Não nos disseram exatamente o que era", disse ele à BBC.
Em uma segunda ligação com a BBC, o gerente da HTA, Angfurba Sherpa, afirmou que os dois clientes não quiseram pagar o custo adicional por um guia mais experiente quando já não podiam contar com o guia original.
Thrall e Chmielewski pagaram cerca de US$ 37,5 mil (R$ 202 mil) cada um pela expedição, que inclui uma tentativa de chegar ao topo do Everest e ao Island Peak, de 6.189 metros, explicou Angfurba Sherpa.
"Eles pagaram um dos preços mais baixos e, ainda assim, esperam serviço VIP", afirmou Angfurba Sherpa, acrescentando que outras empresas cobram valores de seis dígitos por viagens semelhantes.
Chmielewski classificou o comentário como "absurdo e ultrajante". Os alpinistas pagaram "vários milhares de dólares" adicionais esperando contar com um guia de escalada qualificado, afirma ele, mas Dawa Sherpa foi colocado na função "por falta de pessoal".
Angfurba Sherpa também sugere que Dawa Sherpa deveria ter entrado em contato para avisar à empresa que ainda estava vivo.
"Ele tinha um walkie-talkie funcionando, com baterias extras", afirma Angfurba Sherpa. "Isso teria levado dez segundos."
Familiares e amigos de Dawa Sherpa, no entanto, dizem que o Sherpa foi abandonado. Enquanto Dawa Sherpa se recupera no hospital, eles cobram que os responsáveis sejam levados à Justiça.
"Acredito que esse problema ocorreu porque eles o contrataram como cozinheiro, mas o usaram como guia", disse à BBC Nepal seu amigo de longa data Pasang Dawa Sherpa.
"Nossa principal pergunta é: por que uma busca não foi iniciada logo depois que ele ficou preso? Queremos saber por que houve tamanha negligência."