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Que tipo de Colômbia representam De la Espriella e Cepeda, adversários no 2º turno da eleição deste domingo

Os dois projetos que disputam o segundo turno das eleições na Colômbia não poderiam ser mais diferentes.

Publicado em 21 de Junho de 2026 às 06:35

BBC News Brasil

Publicado em 

21 jun 2026 às 06:35
Imagem BBC Brasil
Abelardo de la Espriella tem vantagem sobre Iván Cepeda em várias pesquisas Crédito: Getty Images / BBC Mundo
"Um país dividido em dois" foi uma expressão amplamente utilizada em diversos meios após o primeiro turno da eleição na Colômbia, que deixou frente a frente os dois candidatos à Presidência Abelardo de la Espriella e Iván Cepeda.
Seus projetos de governo não poderiam ser mais diferentes.
O advogado "outsider" De la Espriella chega ao segundo turno deste domingo (21/06) com uma proposta linha dura e conservadora, alinhada com as direitas de Donald Trump nos Estados Unidos, Javier Milei na Argentina e Nayib Bukele em El Salvador.
O senador e filósofo Cepeda chega com uma agenda de esquerda, que inclui reformas sociais de grande alcance e um discurso conciliador na área de segurança, dando continuidade à trajetória progressista do atual presidente, Gustavo Petro.
A disputa parece equilibrada, como no primeiro turno. De la Espriella obteve 43,7% dos votos contra 40,9% de Cepeda.
Ambos parecem representar dois países e modelos de gestão opostos. E polarizados, segundo meios de comunicação e vários analistas. Mas especialistas consultados pela BBC News Mundo (serviço de notícias em espanhol da BBC) questionam essa visão.

A Colômbia dividida

Uma tendência vem se repetindo desde 2016, quando o plebiscito pelo acordo de paz entre o governo e as forças paramilitares Farc dividiu a Colômbia em dois.
O "Não" venceu, promovido por setores conservadores. E desde então, as regiões do país vêm votando de forma semelhante nas eleições presidenciais de 2018, 2022 e 2026.
"Há fortes oposições do eleitorado no território nos últimos 15 anos. As regiões periféricas hoje votam pela esquerda e as do centro pela direita, com exceção das cidades, que têm dinâmicas próprias", analisa para a BBC Mundo Yann Basset, cientista político da Universidade do Rosario, na Colômbia.
Essas regiões periféricas coincidem com algumas das áreas mais pobres e excluídas. Também com as mais afetadas pela violência e pelas disputas de grupos armados para controle de rotas do narcotráfico e outras rendas ilegais, aproveitando-se da limitada presença estatal.
Cepeda conseguiu seus melhores resultados no primeiro turno em várias dessas áreas. Seu partido, o Pacto Histórico, apostou na inclusão de seus habitantes, entre os quais há afro-colombianos e comunidades indígenas, para consolidar seu projeto político.
Basset aponta outras distinções econômicas entre essas regiões — que coincidem com os litorais, a Amazônia e a fronteira com a Venezuela — e as do centro, atravessadas pelos Andes.
"O centro vive de um sistema agroindustrial integrado às cidades, enquanto nas periferias predomina uma economia extrativista. Esses fatores enraizaram essa diferença territorial tão acentuada", explica o especialista.
Embora nas grandes cidades como Bogotá, Medellín, Cali ou Barranquilla as dinâmicas sejam mais complexas, Basset adverte que os estratos de renda mais baixos tenderam a votar em Cepeda no primeiro turno, enquanto os de renda média e alta preferiram De la Espriella.
Na economia, De la Espriella propõe medidas como reduzir o tamanho do Estado e diminuir impostos para empresas, enquanto Cepeda aposta em aumentar o papel do Estado, transformar o campo em motor nacional e apoiar as pequenas empresas.

Novas demandas

O historiador Felipe Arias Escobar vê uma herança histórica dos votos pelo Partido Conservador nas regiões andinas e pelo Partido Liberal no litoral.
Ambos os partidos dominaram a política colombiana até o início do século 20. Algumas de suas bandeiras hoje são retomadas por outros movimentos.
"Há continuidades e fenômenos que transcendem a dicotomia de esquerda e direita. São demandas de setores e simpatias que em algum momento, por exemplo, eram atendidas pelo Partido Liberal, depois pelo ex-presidente Juan Manuel Santos e hoje por opções de esquerda como Cepeda e Petro", analisa Escobar.
O mesmo ocorre no lado oposto, com De la Espriella, segundo o historiador.
"Setores que em seu momento votavam no Partido Conservador e depois no ex-presidente Álvaro Uribe agora simpatizam com essa versão colombiana das direitas populistas, características da política mundial desde a primeira eleição de Trump há 10 anos", diz.
De qualquer forma, afirma Escobar, é difícil falar em eleitores "mecânicos", que votam automaticamente em A ou B, mas sim em cidadanias diversas e voláteis, que "em 2006 puderam votar em Uribe e, em 2018, em Petro".
Em 2021, durante o governo do conservador Iván Duque, uma explosão social eclodiu contra o modelo econômico, a injustiça e a política tradicional que, até 2022 e a chegada de Petro, havia dominado a Colômbia por séculos.
Imagem BBC Brasil
A explosão social de 2021 resultou em uma recomposição da política colombiana Crédito: LUIS ROBAYO/AFP via Getty Images
As manifestações tiveram episódios de violência e o Estado reprimiu com uma força que foi criticada pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
Os ecos daquele episódio ainda reverberam nestas eleições.
"Há um grupo com demandas identitárias e novas cidadanias que se visibilizaram na explosão e que agora entraram em choque com movimentos de reação", diz Escobar.
Diversos analistas vinculam esse movimento de 2021 a parte do voto em Petro e Cepeda, enquanto atribuem o fenômeno de De la Espriella a uma recomposição das direitas que busca frear o impulso dessa nova cidadania representada pela esquerda.

Posições que mudam

Naqueles tempos de liberais e conservadores, o cientista político Juan Fernando Giraldo identificava identidades que hoje são menos estáticas.
"Nos anos 1940 e 1950, uma pessoa dizia que era conservadora e isso refletia tudo sobre sua identidade, interesses e família. Isso não está acontecendo hoje", diz o especialista em opinião pública e marketing político.
"Você encontra colombianos que, por exemplo, hoje têm um apetite por figuras de autoridade e valores que podem se assemelhar a princípios católicos e também uma Colômbia que recalibra essas prioridades de forma diferente. Mas sinto que não é algo estático", acrescenta.
Os valores e a autoridade são centrais na campanha de De la Espriella.
O candidato promove um discurso de linha dura contra o crime e de princípios religiosos cristãos para, segundo ele, trazer mais segurança e moralidade ao país.
Mas, se considerarmos apenas a matemática em uma sociedade onde 80% se identifica como católica e outros 10% como cristã, o resultado sempre favoreceria posições conservadoras como as de De la Espriella.
Imagem BBC Brasil
Apesar da polarização na eleição, especialistas duvidam que os colombianos estejam enraizados em posições fixas de esquerda e direita Crédito: Edwin Rodriguez Pipicano/Anadolu via Getty Images
"Há um grande bloco cidadão com posições menos intensas sobre as coisas, que não acredita muito em se a autoridade do Estado deve ser maior (como defende De la Espriella) ou se deve ser mais ampla (como propõe Cepeda). São, além disso, pessoas que tendem a se informar e a se expressar menos", comenta Giraldo.
Isso indica que grande parte do eleitorado pode votar em candidatos muito distantes entre si, mas que nem por isso representam fielmente o país polarizado que aparece na cédula.
"É uma leitura superanalisada da elite. Quando se analisa nas cidades e no meio rural, as conversas não são tanto sobre se alguém é de direita ou esquerda, mas surgem preocupações mais sensíveis de uma cidadania que muda facilmente", sustenta Giraldo.
O analista acredita que o marketing de De la Espriella também soube explorar mensagens claras sobre família, autoridade e combate firme ao crime, que se mostraram particularmente eficazes.
Da mesma forma, ele argumenta que a aposta da esquerda em se unificar em torno de Petro se traduziu em uma elevada intenção de voto para Cepeda.
"Muita gente se entusiasma com a forma como Petro fala e com o que ele diz, mas isso não quer dizer necessariamente que essas pessoas se considerem de esquerda ou defendam direitos das minorias. Não é algo generalizado", diz Giraldo.

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