Muito se fala sobre a crise migratória no mundo, mas nenhum outro país sente as consequências como Uganda. Desde julho de 2016, mais de um milhão de sul-sudaneses cruzaram a fronteira entre os dois países fugindo da guerra civil que assola o Sudão do Sul desde dezembro de 2013. O governo ugandês estima em US$ 2 bilhões a verba anual necessária para dar apoio a essa multidão de migrantes, mas recebeu de agências e doadores apenas US$ 358 milhões. Sem fundos, a ração diária foi cortada pela metade, mas um “superfeijão” traz esperança de alívio da fome nos campos de refugiados.
A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) está distribuindo sementes do Nabe 15, um tipo melhorado de feijão — não modificado geneticamente — desenvolvido por cientistas Organização Nacional de Pesquisas em Agricultura de Uganda, em parceria com o Centro Internacional para Agricultura Tropical, com base na Colômbia.
— Uganda está atualmente sobrecarregado com o alto número de refugiados, especialmente vindos do Sudão do Sul. Os parceiros humanitários estão encontrando dificuldades em manter as rações de assistência alimentar necessárias — avaliou Beatrice Okello, gerente do programa da FAO em Uganda, em entrevista ao “Guardian”. — A maioria dos refugiados é de famílias de agricultores. Fornecer sementes ajuda na retomada do sustento da família e na garantia da segurança alimentar.
O Nabe 15 foi melhorado para ser mais resistente à seca e imune a pragas. Além disso, seu cozimento é mais rápido e ele produz em menos tempo. Segundo estimativas da FAO, um hectare pode produzir duas toneladas de feijão com um saco de 50 quilos de sementes. A plantação demora entre 60 e 70 dias para amadurecer, contra 80 a 90 dias de outras variedades.
Beatrice destaca que o Nabe 15 é mais gostoso e resiliente a pestes e doenças que os feijões locais. E é eficiente para a produção em pequenos espaços, característica importante para os refugiados que vivem em campos lotados. Bidi Bidi, o maior campo de refugiados do mundo, abriga cerca de 270 mil migrantes em 250 quilômetros quadrados.
— Ele cresce em qualquer lugar. Algumas das terras alocadas para os refugiados não são muito favoráveis à produção, mas esta variedade de feijão se sai relativamente bem — comentou Beatrice. — Tanto fresco ou sexo, ele incha quando cozido, aumentando a quantidade a ser comida. E cozinha rápido, sem consumir muita madeira, um combustível escasso.
Andie Lambe, diretor executivo da ONG International Refugee Rights Initiative, destaca que os refugiados com os quais conversaram estão ávidos para alcançar a subsistência.
— Eles não querem receber ajuda de forma passiva e indefinida — apontou Lambe.
No início do movimento migratório, os refugiados vindos do Sudão do Sul recebiam do governo de Uganda um terreno de 2 mil metros quadrados para plantações e materiais para a construção de uma casa. Mas com o aumento do fluxo migratório, o programa precisou ser cortado. A estimativa é de que apenas metade dos refugiados tenham acesso à terra arável.
— Se estamos sofrendo para fornecer até mesmo os serviços mais básicos, obviamente estamos falhando em nossa responsabilidade coletiva e precisamos enfrentar esta deficiência para garantir que os refugiados não sejam forçados a tomar medidas drásticas para sustentarem suas famílias — avaliou Lambe, apontando outras possíveis soluções de longo prazo. — Poderia incluir microcréditos e treinamento para o desenvolvimento de habilidades segundo as necessidades da comunidade.