Os números mostram o quão desafiador é ser ciclista no Espírito Santo: 44% foi o aumento em acidentes com ciclistas só este ano, com mais de mil atendimentos, segundo dados do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). A soma dos desafios aumenta com a falta de ciclovias, sinalização inadequada e a invisibilidade dos corpos dos ciclistas.
Mas esse fato que poderia desanimar os amantes do pedal parece que os encoraja a enfrentar o cotidiano tenso da vida urbana. Por esporte ou necessidade, os capixabas aderem a este transporte que promete mudar a vida de muitos. Vide os dados da Federação Espírito Santense de Ciclismo (Fesc) que revela o aumento crescente do uso de bicicletas em todo Espírito Santo, de modo especial na Grande Vitória.
Contudo, a prática segura exige que o veículo tenha sinalização noturna refletiva, campainha, espelho retrovisor e lanternas. Do praticante ou condutor, exige-se luvas, capacetes e, acima de tudo, atenção e cuidado. Mas essas e outras exigências que visam proteger os ciclistas têm um custo elevado. Por isso, encontramos em ciclovias invisíveis das cidades, sem proteção alguma, o ciclista com sua “magrela”.
A cidade e seus códigos de trânsito escolhe a velocidade e expulsa os lentos. Os ciclistas não têm espaço. A velocidade empurra, atropela e passa por cima dos que não conseguem acompanhar o seu ritmo veloz. Estes cabem na cidade! Ela é feita para corpos normativos. Eles se adaptam às regras impostas. Já o ciclista, é um errante. Então por que ainda insistem em pedalar em suas avenidas? O que faz alguém sair de casa e usar a bicicleta como meio de transporte? Por que pedalar numa “cidade que não lhes dão as boas-vindas”?
Para Gustavo Gabler, pesquisador capixaba do ciclista anônimo, a cidade apresenta relações de encontros com diferentes ritmos interligados que permitem múltiplas maneiras de sentir e viver em seus espaços urbanizados. Mas esta vivência é sintoma da crise de mobilidade que estamos vivendo. Neste contexto, a bicicleta é uma alternativa para enfrentar os novos desafios no ir e vir das cidades motorizadas.
Resta ao poder público ir além dos discursos e investir em politicas públicas que tomem como referência a exposição e o risco de vida diário dos corpos de ciclistas em nossas cidades. Só assim poderão desenvolver novas formulações urbanas que priorize os diversos e múltiplos espaços que garantem o ir e vir seguro para os ciclousuários capixabas.