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Cordel Político

O Cordel do Queiroz e do rachid: teu salário nós divide!

No Rio é a popular rachadinha / Aqui, é o famoso rachid / Você pega, do salário, uma quantia / E com o chefe, um político, divide / Suspeitas muito fortes já se tinha / Mas agora é difícil quem duvide: / No gabinete do Flávio existia / Um esquema como esse (e com requintes!)

Publicado em 22 de Dezembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

22 dez 2019 às 04:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Fabrício Queiroz e Flávio Bolsonaro: partes indivisíveis Crédito: Amarildo

No Rio é a popular rachadinha
Aqui, é o famoso rachid
Você pega, do salário, uma quantia
E com o chefe, um político, divide
Suspeitas muito fortes já se tinha
Mas agora é difícil quem duvide:
No gabinete do Flávio existia
Um esquema como esse (e com requintes)

O Queiroz (aliás, onde estaria?)
Era quem todo o esquema operava
Recebia dos demais e recolhia
A grana e para o Flávio a repassava
A pessoa, ao ser indicada, já sabia:
Tinha que devolver parte da bolada
E o Flávio, diz o MP, sabia
E com tal “colheita” se locupletava

Agora cada peça se encaixa
Parte dos assessores sacava
Quase todo o salário do caixa
Logo que o pagamento entrava
O destino era a conta do Queiroz
Onde, a conta-gotas, a grana pingava
Cerca de R$ 2 milhões, cá pra nós,
Uma vaca leiteira premiada!

Quase 500 depósitos (ou entregas)
Em espécie, cheque ou transferência
Repasses todos feitos por colegas
Ao Queiroz que tinha tripla incumbência:
Além de ser o chefe de segurança
Do Flávio e também seu motorista,
Garantia para o chefe a bonança
Com os desvios, evitando dar na vista

Ocorre que, pra não erguer suspeitas,
Havia um grandíssimo problema:
Como encobrir os frutos da colheita?
Como lavar a grana do esquema?
Loteria? Não! Chocolateria!!!
Pro Leão não o pegar com suas garras
Dinheiro bem lavado, quem diria?
Com chocolate em shopping da Barra

Com a loja na Barra da Tijuca,
Flávio teve “lucros desproporcionais”
Mas não foi a sua única arapuca
Para encobrir os ganhos ilegais
Valendo-se de um intermediário,
Usou também imóveis de bacana
Em dois negócios imobiliários
No nobre bairro de Copacabana

O Flávio adquiriu apartamentos
Pagando valor subfaturado
Com preço registrado no momento
Da compra bem abaixo do mercado
Depois por fora deu o complemento
Em espécie (o dinheiro desviado)
Vendeu os apês, pegou o pagamento
E pronto: o dinheiro foi lavado!

Ali, na Alerj, aquele gabinete
Era de emprego um cabide
Cabia tudo: fantasmas, parentes
A regra era entrar no rachid
Existia o núcleo de Resende:
Nove parentes da ex de Bolsonaro
Sacaram R$ 4 milhões, minha gente!
Praticamente tudo o que ganharam
Até o ex-sogro do presidente
Mas crachá da Alerj nunca usaram...

E o núcleo vinculado ao Fabrício
Queiroz, incluindo mulher e filha
A Nathalia, que nem ia ao serviço
Mas também fazia parte da famiglia
Ali de tudo um pouco você tinha
Em comum, serem indicados por Queiroz
Seus amigos, seus vizinhos e vizinhas
“Aqui é tudo nosso. Aqui é nóis!”

E vejam, o Queiroz não é ciumento
Em relacionamento, é de boa
Ali, também fazendo os pagamentos,
Estava até o ex de sua patroa
E a enteada ali também mantinha
Mas ela trampava numa farmácia!
Se a esposa tinha crachá? Você adivinha...
Só para rimar: o nome dela é Márcia*

Seu cargo: "consultora especial"
Mas na real era cabeleireira
E a ex-cunhada do Jair, que tal?
Fisiculturista e faxineira!
Todos lotados oficialmente
Como assessores na Assembleia
Muitos sua função, precisamente,
Na certa não tinham a menor ideia

Havia também nesse mesmo time
A mãe e a ex-mulher do Adriano
Aquele lá do Escritório do Crime
Aquele mesmo: o miliciano!
Aquele contra quem pesa mandado
De prisão, mas que se encontra foragido
Capitão suspeito de assassinatos
Mas pelo então deputado ungido
Em 2003, homenageado
Pelo próprio Flávio na Alerj
Dezesseis anos depois rastreado
Pela morte de Anderson e Marielle

Em janeiro passado (por que será?)
Antes de seu desaparecimento
Orientou a ex a se calar
Perante a Justiça, em depoimento
O mesmo também (por que será?)
Orientou-lhe o Queiroz (cá pra nós…)
Este, aliás (por que será?)
Foi exonerado em plena campanha
Aconteceu o mesmo após um mês
Com a mãe de Adriano e sua ex
Por que será preocupação tamanha?

As evidências estão todas aí
E chamaram a atenção do MP
Do Rio, e tudo o que aqui escrevi
É o que na investigação se lê
Os promotores estão convencidos
De lavagem de dinheiro e peculato
E que de uma quadrilha havia indícios
No gabinete do então deputado

O Flávio, obviamente, nega tudo
Mas, se não devo, pente fino topo
O senador ao Supremo, contudo,
Requereu, novamente, um habeas corpus…

Todo domingo, você encontra aqui um novo Cordel Político. 

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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