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Tarcísio Bahia

O medo colocou grades no ideal modernista de cidades

Brasília é um exemplo de cidade construída para ser mais democrática, buscando mais integração entre os espaços públicos e privados

Publicado em 24 de Outubro de 2018 às 19:46

Públicado em 

24 out 2018 às 19:46
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

tbahia65@gmail.com

Vista aérea da Praça dos Três Poderes em Brasília Crédito: Geraldo Magela/Agência Senado - 18/10/2012
Entre as décadas de 1930 e 60, com a inauguração de Brasília, o Brasil se tornou referência no âmbito da arquitetura e urbanismo modernos. Especificamente na questão arquitetônica, isso se deu graças à construção de alguns edifícios que se tornaram expoentes mundiais. Costuma-se considerar a vinda ao país do célebre arquiteto franco-suíço Le Corbusier como ponto de inflexão que permitiu a explosão da criatividade brasileira em nomes como Lucio Costa, Affonso Reidy ou Oscar Niemeyer.
Um dos pontos chaves do modernismo era a defesa de uma cidade mais democrática, num ponto em que a questão social começou a ser tema de debate dos arquitetos e intelectuais da época. Graças aos avanços tecnológicos proporcionados pela Revolução Industrial, a arquitetura sofreu uma radical transformação com vários pontos de inovação, entre eles a ideia do pilotis: um espaço livre ao nível do solo, com o edifício propriamente dito elevado. Com isso chegou-se à proposta de que tal espaço seria destinado ao convívio coletivo entre os cidadãos, ou seja, o chão da cidade se tornaria um território livre, sem barreiras e ao abrigo da chuva ou do sol. Desse modo, surgiram em todo o mundo vários prédios que “flutuavam” sobre o pilotis. O pilotis deveria ser, portanto, um espaço propício para a realização de reuniões, encontros, brincadeiras, fazendo da cidade um lugar mais aprazível. Houve até mesmo considerações (radicais) em torno do fim da propriedade privada do solo por alguns teóricos políticos, mas que logo foram rechaçadas.
De qualquer modo, no contexto modernista brasileiro, muitos foram os prédios construídos em todo o país que buscavam uma maior integração entre o espaço público da rua com o espaço privado edificado, por meio do pilotis.
Com o tempo, porém, tais espaços foram se desvirtuando. Se em locais como Jardim da Penha eles já nasceram desfigurados, pois foram concebidos como área de estacionamento, em diversas situações vimos genuínos pilotis sendo fechados por meio de grades em razão do aumento da violência urbana, de tal modo que a integração com a rua se perdeu.
É certo que a segurança pública é um dos temas mais ingratos no que tange a realidade atual das cidades brasileiras. No entanto, é um equívoco achar que o autoaprisionamento por meio de grades ou qualquer outro tipo de barreira é garantia de segurança.
Há pouco tempo mesmo, um condomínio fechado de luxo na Grande Vitória, totalmente cercado, foi alvo de assalto, caindo por terra a ideia de que se tratava de uma “ilha da fantasia”. Em bairros residenciais de médio e alto padrão, há quem prefira ter uma casa escondida por enormes muros, achando que isso aumenta a segurança. Trata-se de um equívoco, como já foi até confessado por delinquentes em pesquisa realizada pela própria polícia, pois os bandidos preferem mesmo invadir casas com muros altos, pois é mais fácil de realizar ações criminosas longe do olhar da rua.
A segurança, em função dos altos índices da violência urbana, é de fato um problema urgente. A questão é como o urbanismo pode contribuir para humanizar nossas cidades. A criação de espaços de convivência – ideal modernista – é uma das estratégias para lograrmos uma cidade mais democrática, coletiva e segura.

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaço

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