Quarteto cômico que fez história na televisão e no cinema brasileiros nos anos 1980 e 1990, os Trapalhões tinham em Didi, cearense humilde mas esperto, um protagonista cheio de carisma. Mussum não ficava atrás, com seu jeitão de malandro carioca (malãndris carióquis). Zacarias, um mineirinho meio ingênuo, fazia sucesso com a garotada. O único que carecia de uma marca própria mais notável era Dedé. Mas ele era igualmente fundamental para a química do grupo. Era o “escada”, o personagem que proporcionava as situações cômicas para os parceiros, sobretudo Didi.
Na política brasileira, o PP (Partido Progressista) é o Dedé dos escândalos de corrupção. Não brilha, não tem protagonismo, carece de uma marca própria, mas está sempre metido em todas as tramas. E o mais notável de tudo: apesar de pouco se destacar na mídia, tem participação fundamental em praticamente todos os principais esquemas de apropriação de dinheiro público descobertos pelo MPF e pela Polícia Federal no Brasil nos últimos anos.
Do mensalão ao petrolão, o PP está em todas. A última ocorreu na última terça-feira: o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, e dois deputados federais do partido foram alvo de operação da Polícia Federal por tentativa de comprar o silêncio de um ex-assessor que estava colaborando com as investigações da Lava Jato.
Os casos vão se sucedendo, mas, comparado a outros partidos mais importantes, que monopolizam a atenção da imprensa e do público, o PP é tratado como um “personagem secundário”, um cúmplice de menor potencial ofensivo. Assim como Dedé, o PP também é o “escada”, mas o escada de si mesmo, para sempre subir degraus em direção a espaços no poder em troca de apoio parlamentar ao presidente da vez.
Enquanto as atenções se concentram nos escândalos envolvendo os figurões de PT, PMDB e PSDB, os do PP são deixados em segundo plano. Para os progressistas, essa falta de visibilidade não poderia ser mais conveniente. É dela que eles se servem para sobreviverem politicamente. Os integrantes do partido dizem “muito obrigado”, “esqueçam-se de nós”, e vão ficando por ali. Ficando e crescendo.
Incrivelmente, apesar de seu profundo envolvimento nos já citados esquemas, o PP foi a legenda que mais cresceu no Congresso nessa última janela partidária. Começou a legislatura, em 2015, com 38 deputados federais. Antes do início da janela, em março, já somava 45. Hoje, possui 50 deputados, tendo se tornado a 3ª maior bancada da Câmara, atrás somente do PT e do PMDB (seus sócios, aliás, na pilhagem da Petrobras). Com isso, é lógico, ganhou ainda mais poder de barganha junto ao governo Temer.
Podemos concluir que é justamente a desatenção dos eleitores sobre a “ficha corrida” do PP que permite a perenização do partido de Paulo Maluf, repousando na sombra formada pela copa do poder. Seu poder de resiliência passa exatamente por não ser muito notado. E assim, sem ser notado, o partido continua mordendo as boquinhas desde o governo Lula. No governo Dilma, acumulou espaços na Esplanada, como o poderoso Ministério das Cidades. Dilma caiu, Temer ascendeu. Cumprindo sua vocação adesista, o PP passou para o lado de Temer e hoje é recompensado com três ministérios cobiçados: Saúde, Cidades e Agricultura. Ainda indicou o atual presidente da Caixa Econômica Federal.
Trata-se de um fenômeno a ser estudado, pois semelhante crescimento não condiz com a história recente do Partido Progressista. Uma história que analisaremos melhor amanhã.
PP no Espírito Santo
Em âmbito nacional, o PP é um partido de médio para grande porte. Essa dimensão não se reflete no ES. Aqui, o partido é, proporcionalmente, bem menor do que em outros Estados. Não tem, no momento, nenhum deputado estadual. No Congresso, tem dois federais: o recém-filiado Evair de Melo e o presidente estadual da legenda, Marcus Vicente.
Crescimento local
Mas, apesar de não ser tão grande no Espírito Santo, o PP também é um dos partidos que mais crescem por aqui. Só neste ano, até o dia 7 de abril, teve saldo de 120 filiações. Foi o 3º partido que mais cresceu no Estado em número de filiados no período, atrás do PSDB e do PSL.
Cabo de guerra humano
O governador Paulo Hartung (PMDB) puxa por um braço, a senadora Rose de Freitas (Pode) puxa pelo outro. Na semana passada, o governador prestigiou Audifax Barcelos (Rede) em evento do governo no bairro Parque das Gaivotas, na Serra; já nesta semana, Rose levou o prefeito a tiracolo ao TCU para destravar a obra do Contorno do Mestre Álvaro.
Vitória de Colnago
Ficou só na ameaça a tão propalada “desfiliação em massa” de tucanos insatisfeitos com a atual direção estadual. Ex-dirigente do PSDB na Serra, Charles de la Vega chegou a falar em 300 desfiliações. Como mostrou reportagem de A GAZETA, os números oficiais do TSE comprovam apenas 30 baixas, contra 280 adesões entre 1º de janeiro e 7 de abril – fim da janela para deputados trocarem de partido sem risco de perder o mandato e fim do prazo para filiação de quem quiser se candidatar este ano. O saldo positivo de 250 novos membros deixa o PSDB como a 2ª sigla que mais cresceu no Espírito Santo no período. Vitória de César Colnago.