A vitória avassaladora de Johnson para primeiro ministro do Reino Unido é um retrato da era que vivemos. Alguns referem-se a ela com modernidade tardia, outros pós-modernidade. Isso porque o discurso conservador contrário aos ideais na União Europeia não era esperado na modernidade.
Explico melhor: o projeto da modernidade diz respeito aos ideais kantianos de paz perpétua, hospitalidade entre os povos e um modelo de governança internacional por meio de uma organização no modelo da ONU, ou até mesmo, da União Europeia.
Para alguns pensadores, como os franceses Derrida e Lyotard, o projeto da modernidade não deu certo, por isso vivemos hoje em dia o aparente caos da pós-modernidade, que pôde ser melhor visto a partir do ataque às Torres Gêmeas nos Estados Unidos, quando vários modelos de política, religiões diversas, tipos aleatórios de comércio internacional e uma moralidade de conveniência, passam a coexistir.
Para outros, em especial para o alemão Jurgen Habermas, o projeto da modernidade é um projeto inacabado. Para ele, mesmo com o esgotamento das utopias modernas, há ainda um ideal a ser defendido, o de uma política internacional democrática, sem explorações de um país pelo outro, democracia esta pautada na razão comunicativa, por ele esboçada no seu livro de "1981, Teoria do Agir Comunicativo" (a edição brasileira usou equivocadamente o termo “ação comunicativa”).
O fórum correto para estabelecer políticas de comércio, de guerra e paz e de meio ambiente é uma organização internacional no modelo da ONU ou da União Europeia, que para Habermas é (ou era) o exemplo mais bem-sucedido de democracia internacional.
Mas o que pensar sobre o momento em que vivemos com a eleição avassaladora de Boris Johnson e o descaso de vários líderes políticos com organizações com a UE e a ONU? Um sinal interessante de se analisar é a alta do valor da libra no dia 13 de dezembro, logo após a divulgação dos resultados. Analistas de mercados especulam que a alta da libra se sustentará por longo prazo, de modo que para o mercado a eleição de Johnson é tida como benéfica para o Reino Unido.
Seguindo nessa toada, de grande apoio para a população e de condescendência do mercado financeiro, Johnson irá negociar o Brexit tranquilamente com a União Europeia e terá para isso o aval do Parlamento, que agora tem maioria conservadora, do partido do primeiro ministro confirmado no cargo pela grande maioria da população.
Parece, assim, que o projeto da modernidade estaria por acabar ou já está falecido... e esse é um sinal para os Estados Unidos de Trump e o Brasil de Bolsonaro.
Triste de ver que mesmo com evidências fortes para o impeachment de Trump no Congresso norte-americano, os 50% da população que antes do início da oitiva de testemunhas no processo parlamentar concordavam com o impeachment mantêm-se estável. Ao contrário do que os Democratas esperavam, esse número não mudou, permanecendo estável até hoje, o que é lido pelos Republicanos como apoio ao governo de Trump, mesmo com todos os desmandos e arbítrios do presidente.
Da mesma forma aqui no Brasil, os eleitores de Bolsonaro, não importa o que ele diga ou defenda ou as perdas sofridas por ele no Congresso (derrubada de vetos e não aprovação de suas medidas provisórias) agora em dezembro, mantêm-se fiel.
A dúvida que resta é: vivemos numa época em que a democracia do agir comunicativo habermasiano é incompatível com a política de Johnson, Trump e Bolsonaro? A mim me parece que a maioria população nesses países está aceitando todo tipo de discurso e política, sem sequer exigir um debate público. Que estranho!