*Luiz Tadeu Teixeira
A estreia da peça “O Rei da Vela” em 1967 no Teatro Oficina de São Paulo representou um grande momento do teatro brasileiro. Antes, um outro grupo paulista, o Teatro de Arena, virara de cabeça para baixo as concepções tradicionalistas que marcavam até então a nossa cena, ditada pelo estilo TBC (Teatro Brasileiro de Comedia), comandado por diretores e técnicos europeus que trouxeram da Europa método e rigor profissional para o teatro feito no Brasil.
A diferença entre as linguagens do Oficina e do Arena era maior do que se percebia à distância. Ambos tiveram o ponto alto de suas trajetórias com textos brasileiros. “Arena Conta Zumbi” num caso, obra saída da lavra do próprio grupo, assinada por Augusto Boal (também diretor) e Guarnieri, com música de Edu Lobo. No outro caso, “O Rei da Vela”, um texto político assinado por um expoente da Semana de Arte Moderna de 1922, Oswald de Andrade.
O espetáculo do Arena assumia a proposta de encontrar um jeito nosso de interpretação, na busca do “homem brasileiro”, contrapondo com o estilo às vezes empolado, metódico, herdado do teatro didadico de Bertolt Brecht. Utilizava o mito de Zumbi dos Palmares para falar de escravidão, exploração e servidão humanas, humilhação, submissão e revolta. “0 Rei da Vela” preferia uma linguagem mais aberta, anarquista, para tratar de assuntos semelhantes, porém específicos, com críticas à acomodação da burguesia, à subserviência ao capital, à mais-valia, à política do “importante é levar vantagem em tudo”. O tom feérico da encenação, os personagens caricatos, a mistura de expressionismo alemão com teatro de variedades, cabaré e uma debochada carnavalização formavam um painel no qual muita gente identificou uma vertente que logo desembocaria numa das mais originais linguagens artísticas da cultura brasileira, com lastro pelo cinema, pelas artes plásticas e sobretudo pela música: o tropicalismo.
Em Vitória os ventos do “Rei da Vela” só chegaram de modo brando três anos depois, com um espetáculo que realizou única apresentação, “Ensaio Geral”, no auditório da Escola Técnica (hoje IFES). Na verdade, “Ensaio Geral” teve mais a ver com outra montagem do Oficina, quase da mesma época, e proibida pela censura: “Roda Viva”, que motivou um ataque do CCC (Comando de Caça aos Comunistas). O grupo de extrema direita invadiu o teatro, atacou a equipe e destruiu cenários. Nosso “Ensaio Geral”, também proibido pela Censura, acabou como o primeiro happening do teatro no Espírito Santo, pois seus integrantes resolveram promover uma ato de desobediência civil e apresentá-lo assim mesmo. Durante a encenação destruiu toda a cenografia diante do público que lotava o auditório da Escola Técnica.
Mas o eco do Teatro de Arena de São Paulo soou mais forte. Um grupo capixaba, o Geração, sob a direção de Antonio Carlos Neves, produziu uma montagem local de “Arena Conta Zumbi” que se tornou memorável na história do nosso teatro. Além de reunir notáveis do movimento estudantil e cultural da cidade, como Zélia Stein, Milson Henriques, Cidinho Vasconcellos, Sheila Bandeira e outros, ocupou durante várias semanas seguidas, sempre com bom público, o auditório do Colégio Brasileiro (Hotel Majestic) no Centro.
O sucesso de “Arena Conta Zumbi” pelo Grupo Geração antecipou um período frutífero para o teatro feito no Espírito Santo, numa época em que o Carlos Gomes, abandonado, ameaçava desabar como muitos prédios antigos do Centro de Vitoria.
Com o tempo, ficou evidente que ter o Carlos Gomes (reinaugurado em dezembro de 1970) em atividade ou até outros novos espaços que surgiriam depois não seria suficiente para dar continuidade e autonomia às produções locais.
Mas aí é outra história.
*O autor é jornalista, diretor de teatro e de cinema.