Na tarde do dia 19 de abril, o ex-presidente do STF Joaquim Barbosa teve o seu primeiro encontro oficial com o seu partido, o PSB, após ter se filiado. Ao sair da reunião, foi abordado por um grupo de repórteres. Mostrando visível desconforto, afirmou que ainda não estava convencido quanto a ser candidato à Presidência. Indagado então se a demora dele em se decidir não poderia prejudicar as alianças do partido, Barbosa respondeu com uma pergunta que encerrou a entrevista e traiu certo desdém: “Who cares?” (em inglês, “quem se importa?”).
Extremamente reservado, pouco dado a entrevistas e avesso a contatos com a imprensa (não raro, inclusive, ríspido nas reações a algumas abordagens de repórteres). Esse é o perfil de Barbosa como “pessoa pública”. Convenhamos: é um estilo que não combina exatamente com quem se pretenda um homem público. E menos ainda com alguém que queira concorrer ao mais alto e mais visado cargo público do país.
O ônus da inevitável exposição que acompanha qualquer candidato relevante à Presidência da República certamente pesou na decisão de Barbosa de desistir de ser aquilo que jamais chegou a ser de fato. Essa é a opinião do ex-governador Renato Casagrande, secretário-geral do PSB nacional. Casagrande acredita que o jeito altamente discreto de Barbosa influenciou em sua desistência prematura.
“Nesse primeiro mês de filiação, ele sentiu um pouco do calor da campanha. Isso com certeza fortaleceu as dúvidas que ele já tinha. O quadro político brasileiro está muito tensionado. Não é fácil a pessoa sair de uma vida tranquila para entrar em uma vida de conflito permanente, que é a vida do candidato.”
Na verdade, socialistas já estavam incomodados com a indefinição de Barbosa, a pouca disposição demonstrada por ele em interagir mais com o PSB e o jeito blasé com que o ex-ministro estava tratando tema tão essencial para o futuro imediato do partido. No último dia 1º, a jornalista Andreza Matais, da Coluna do Estadão, publicou que Barbosa já estava se estranhando com integrantes do PSB. Segundo a colunista, o próprio Casagrande chegou a confidenciar a aliados que “a relação com o ex-ministro estava difícil”. Casagrande confirma isso pela metade.
“Eu defendia que a gente tivesse uma convivência maior no PSB, mais estreita. Mas não houve tempo para isso. Acho que o perfil dele é aquele ali. Ele é reservado. É uma figura com posições fortes, mas reservado, isolado. Então era preciso uma convivência maior dele com o partido e do partido com ele.”
E alguém que queira ser candidato à Presidência, ou a qualquer cargo público, pode mesmo ser assim tão cheio de “reservas”? “Não pode”, responde Casagrande. “Tem que mudar um pouco o comportamento. Vai ver ele não quis mudar. Na verdade, até o estilo mais reservado dele seria bom para a política brasileira. O perfil dele até poderia ajudá-lo. Mas a política não é feita só pelos políticos. Também é feita pelos cidadãos. E os cidadãos gostam de ter uma interação com os candidatos.”
Finalmente, cumpre observar o seguinte: o recuo de Barbosa não representa somente a desistência de mais um “candidato” que nem sequer chegou a sê-lo. É, especificamente, a desistência prematura de um dos principais nomes que figuravam na lista de “outsiders” viáveis (ou “não políticos”) cotados para a Presidência no início do ano. Um a um, eles estão tirando o corpo fora. Primeiro foi Huck. Agora, o relator do mensalão no STF. Política exige muito cérebro, mas também muito estômago e, acima de tudo, pele grossa. É território para poucos. Como Barbosa gosta de frases em inglês, arriscamos aqui dizer que os outsiders, por enquanto, preferem continuar outside: do lado de fora da política.