Uma triangulação envolvendo o deputado federal Carlos Manato, o deputado estadual Amaro Neto e o secretário estadual de Esportes, Roberto Carneiro, pode gerar uma dança das cadeiras partidárias nos próximos dias, em mais uma evidência gritante de como os partidos são tratados no Brasil pela grande maioria dos políticos: não como partidos de verdade, que expressem uma ideologia com a qual seus filiados se identifiquem, mas apenas como “casas de passagem”.
Carneiro era filiado ao PDT, partido pelo qual foi vice na chapa de Amaro à Prefeitura de Vitória em 2016. Tido como um dos grandes “montadores de chapa” do Estado – o cara que faz as contas e articula tudo nos bastidores –, o secretário não tinha lá grande afinidade com o PDT. No governo Paulo Hartung, é considerado da cota pessoal do governador. Há poucos dias, com as bênçãos de Hartung, migrou para o Partido Republicano Brasileiro (PRB), entrando pela porta de cima: já chega para presidir a sigla no Estado e com plenos poderes para montar a chapa da mesma para as eleições.
Enquanto isso, Manato e Amaro são os dois principais nomes do Solidariedade (SDD) no Espírito Santo. Manato é o presidente estadual, enquanto Amaro, pré-candidato ao Senado, é a principal aposta eleitoral do partido este ano. Manato chegou a anunciar que Amaro se tornaria “presidente de honra” no encontro estadual do SDD, marcado para o próximo dia 22. Amaro ficaria encarregado de montar a chapa do partido na eleição majoritária.
Tudo parecia fluir naturalmente nesse sentido, até que eles próprios, Amaro e Manato, passaram a bater cabeça. Amaro passou a avaliar que ficar no SDD pode não ser a opção mais interessante para seu projeto eleitoral. E o próprio Manato também passou a julgar que talvez seja chegada a hora (às vésperas da eleição!) de abandonar o barco pilotado por ele mesmo no Espírito Santo.
Seduzido por Carneiro, outro nome que figura no seu rol de aliados, Amaro tende a trocar o SDD pelo PRB. Trata-se do braço político da Igreja Universal do Reino de Deus, do dono da emissora de TV na qual o deputado trabalha. “Devo ser um dos poucos apresentadores da emissora que não é filiado ao PRB”, confirma ele. Não sem razão, o namoro entre Amaro e a legenda de Russomanno e Crivella é bem antigo. Essa identidade pesa, é claro. Mas pesa, acima de tudo, o pragmatismo que leva quase todos os candidatos a se perguntarem: onde terei melhores condições de me eleger?
No caso de Amaro, ele se vê praticamente diante de uma escolha de Sofia: ou fica ao lado de Manato, ou fica nas hostes de Hartung. Dificilmente será candidato ao Senado pelo partido de Manato e com o apoio do governo ao mesmo tempo. A incompatibilidade é flagrante por um motivo: a aliança visceral de Manato com Jair Bolsonaro, a proximidade dele com líderes dos policias militares e seu apoio à greve da PM-ES de fevereiro de 2017. Manato é o pai de um dos projetos em tramitação na Câmara que preveem anistia aos participantes da greve no Estado. Por razões óbvias, o grupo político de Hartung não quer nenhuma ligação com nada disso.
Para fortalecer a chapa do SDD e o palanque local de Bolsonaro, Manato tem articulado filiação em massa de policiais, inclusive alguns líderes do movimento grevista, para lançá-los na eleição parlamentar. No dia 27 de fevereiro, precipitou o anúncio de filiação de Capitão Assumção, o que deixou Amaro irritadíssimo. Depois disso, o próprio Manato voltou atrás. “Foi coisa de momento.” Mas continua no trabalho de atração de quadros da PM para seu grupo político, que vai escoar no palanque de Bolsonaro. Esse desentendimento empurrou Amaro ainda mais para o colo do PRB.
SDD: sigla em extinção
Se Amaro Neto sair mesmo do Solidariedade, Carlos Manato ficará reinando sozinho no partido, correto? Não, na verdade talvez nem isso. O pragmatismo vai além. É o que veremos amanhã.
Theodorico: vai ou racha
O deputado estadual Theodorico Ferraço está na expectativa de que, com a formação da nova Executiva nacional do DEM, haja mudanças nos comandos estaduais, inclusive no Espírito Santo. Hoje o DEM no Estado é dominado por aliados de Paulo Hartung, enquanto Ferraço está isolado na oposição. “Se o diretório não tiver transformação, não temos condição de ficar. Se for um novo diretório, independente, temos condição de ficar.”
Octaciano e Colnago
Falando em DEM, o mercado político capixaba foi tomado nos últimos dias pelo zunzunzum de que o secretário estadual de Agricultura, Octaciano Neto, poderia trocar o PSDB pelo partido de Rodrigo Maia. O raciocínio é que, se Hartung for candidato à reeleição, o vice-governador César Colnago (PSDB) disputará vaga na Câmara Federal, aonde Octaciano também quer chegar. Nesse caso, a chapa proporcional do PSDB poderia ficar apertada demais para comportar os dois.
Octaciano levanta...
No último dia 2, a coluna perguntou ao secretário sobre a troca. “Fiquei sabendo agora”, respondeu ele. Na última quarta-feira insistimos, e ele reiterou: “Nunca conversei com ninguém sobre mudança”.
Colnago corta
Na última quinta, após participar de atividade em São Mateus ao lado de Octaciano, o próprio Colnago pôs uma pedra nessa especulação: “Octaciano não sai. Viajei com ele hoje. Conversei com ele hoje. Não tem essa possibilidade”.