Em 1969, Pelé e Catherine Deneuve estavam no auge. O Rei do Futebol, no esplendor da forma física e técnica, marcava o seu milésimo gol, no Maracanã, jogando com a 10 do Santos contra o Vasco. Enquanto isso, a musa francesa era indicada ao Bafta, principal honraria do cinema britânico, como melhor atriz, por sua atuação no clássico “A Bela da Tarde”, de Luiz Buñuel – a primeira das suas dezenas de indicações para os mais importantes prêmios do cinema mundial.
Mas os dois têm mais em comum.
Em agosto de 2014, o goleiro Aranha, então defendendo o mesmo Santos pelo qual Pelé se consagrou, sofreu ofensas racistas de torcedores do Grêmio, em partida válida pela Copa do Brasil, disputada em Porto Alegre. Da arquibancada, homens e mulheres chamaram o jogador de “macaco”, entre outros insultos flagrados por câmeras de TV. Injuriado, Aranha fez o que poucos haviam feito até então: em vez de engolir a raiva, silenciar e deixar para lá, desabafou à beira do gramado logo após o apito final: “Aguentei até que começaram com canto de macaco. Fico nervoso, desculpa a palavra, fico mais puto com essas coisas acontecendo aqui”.
A recusa de Aranha em se calar deu resultados. Pelo comportamento da torcida, o Grêmio foi excluído do torneio. Mais importante: as palavras do goleiro lançaram luz sobre o problema velado do racismo no futebol, presente até em estádios do nosso miscigenado país.
Dias depois, Pelé – que, fora das quatro linhas, só consegue marcar gol contra – comentou o episódio. Para espanto geral, não só não apoiou como condenou a atitude do goleiro. “Aranha se precipitou um pouco em querer brigar com a torcida. Se eu fosse parar o jogo cada vez que me chamassem de macaco ou crioulo, todo jogo teria que parar. (...) Quanto mais atenção se der para isso, mais vai aguçar [o problema].”
Notem: o Rei não negou que exista racismo no futebol. Na verdade, seu depoimento reforça que as manifestações racistas sempre foram realidade durante as partidas. Mas sua lógica é a do “ah, se sempre foi assim, então é melhor não mexer com isso e deixar tudo como está”.
Pela visão de Pelé, melhor é ignorar o tema, fingir que é tudo normal, que está tudo muito bem, e vida que segue. É a lógica da naturalização do preconceito, tão entranhada em nossa cultura da “cordialidade passiva”. Como o racismo existe desde sempre, desde antes do nascimento do Edson Arantes do Nascimento, tocar no assunto só piora as coisas.
Pelé está errado.
Na verdade, quanto menos atenção se der ao problema, quanto mais se fingir que nem sequer existe um problema, mais ele vai seguir existindo e afligindo vítimas silenciosas. No caso específico, vítimas de racismo. Mas há vítimas de problemas de outro gênero...
Assédio não é normal. Nem aqui nem na Indochina
Se você não passou os últimos meses na Lua, com certeza sabe que está em curso uma campanha de dimensão inédita contra um problema histórico, gravíssimo, mas quase sempre silenciado: o assédio sexual, sobretudo contra mulheres. Iniciada em Hollywood, a onda de protestos e denúncias espalhou-se pelo mundo e encontrou seu ápice no último domingo, com o discurso de Oprah Winfrey na cerimônia do Globo de Ouro. Elas mesmas vítimas de algum tipo de abuso, várias estrelas mundiais venceram o medo e a vergonha para denunciar seus agressores, encorajando mulheres a fazer o mesmo mundo afora.
Eis que La Deneuve, a bela da tarde, resolve dar uma bela mancada. Indo na contramão de suas colegas, ela e outras 99 francesas publicam no Le Monde um manifesto literalmente em defesa do direito de serem importunadas – ou molestadas. Usando argumentos pré-geração 69, o texto pode ser traduzido como um “meninas, não é pra tanto...”. A estrela de “A Caça ao Homem” chama de “puritanismo” e ameaça à “liberdade sexual” o movimento das que não querem ser “caçadas” nem tratadas como presas. Põe no mesmo balaio o que é aceitável e o que não é. Mistura machismo com cavalheirismo; assédio sexual e estupro com cantadas e sedução.
Errado? Por essa perspectiva, errado é quem reclama. Errado é quem denuncia. Errado é quem condena o assédio. De novo, a naturalização do problema.
Numa contrarreação já esperada (como em todo movimento de mudança de valores e costumes, lento, gradual e marcado por entrechoques), as femmes capitaneadas por Deneuve desvalorizam a iniciativa de quem finalmente rompeu a lei velada do silêncio e da autocensura. E fazem pouco do problema, como se fosse parte da vida, tachando como exagero a onda de protestos das colegas.
A perversão desse contramovimento é que trata algo muito sério como frívolo e banal, como muito barulho por nada. É o caso de se perguntar às que se sentiram incomodadas não com os abusos em si, mas com a reação de colegas aos abusos: o que há de natural no fato de diretores, produtores e atores praticarem estupro e assédio sexual? O que há de exagero em denunciar essas práticas?
Romper a espiral do silêncio para denunciar agressores requer extrema coragem. Qual é o grau de coragem exigido para se publicar um manifesto em defesa do “deixa tudo como está”?
O que Pelé e Deneuve não entenderam é que os tempos estão mudando – “the times they are a changin”, como cantava Bob Dylan em 1964, ano em que a musa estrelou “A Caça ao Homem”. Em 2018, racismo e assédio sexual não são mais toleráveis, muitos menos podem ser tratados como algo trivial e natural.
Nem aqui nem na Indochina.
Nascidos um pro outro
Pelé e Catherine Deneuve têm quase a mesma idade: ele tem 77 anos; ela 74. Uma última coincidência os une: ela faz aniversário no dia 22 de outubro; ele, um dia depois.
Coser x Givaldo
No terceiro, aliás, quarto, aliás quinto tempo da eleição pela presidência estadual do PT, realizada em maio passado, o deputado federal Givaldo Vieira, derrotado por João Coser, está com um pé e meio fora do PT e dentro do PSB. Coser afirma que, além de querer sair, Givaldo está trabalhando para levar outros petistas na esteira dele. “Lamentavelmente, ele está fazendo isso dentro do PT. Está abordando pessoas abertamente, dirigentes municipais, trabalhando para levar pessoas junto com ele.” Clima zero.
PH para empresários
Palestrando em evento das Findes na última segunda, para uma plateia formada por políticos e empresários, o governador Paulo Hartung criticou representantes do meio empresarial que estão se animando com ideias extremistas de direita.
“Tem gente aqui”
“Não vamos nos enganar. Os dois extremos no Brasil são equivocados. Tem gente aqui nesse meio que olha o extremo da esquerda com descaso, com desprezo, e olha com uma certa tolerância o extremo da direita. No Brasil, os extremos têm cabeça muito parecida. Eles quase se encontram quando o assunto é Estado brasileiro. Eles acreditam no Estado quase de maneira religiosa. Aliás, os dois lados quando estiveram no poder, simbolizado pelo regime militar e simbolizado agora pelos governos mais recentes, os dois lados meteram o pé na jaca de achar que o governo pode tudo.”