Confirmando algo fortemente especulado nos bastidores políticos capixabas desde 2017 e que ela própria já havia sinalizado, a senadora Rose de Freitas (PMDB) anunciou, esta semana, que é pré-candidata ao governo. A pergunta que não cala é: por que Rose anunciou sua aspiração, de modo tão explícito e com tanta antecedência, enquanto todos os demais escondem o jogo e na certa seguirão escondendo até o limite do que for permitido pelo calendário eleitoral?
A resposta passa por uma série de fatores. O mais relevante deles: mais do que qualquer concorrente, Rose precisava avisar ao mercado político como um todo e, principalmente, ao próprio partido: eu estou aqui e estou no páreo.
Em primeiro lugar, Rose tem uma peculiaridade em relação a todos os outros potenciais candidatos ao governo: ela é a única que não controla o próprio partido no Estado e que é ameaçada por um forte concorrente interno: o governador Paulo Hartung, que, sem precisar se expor, controla o PMDB no Espírito Santo, por intermédio do deputado Lelo Coimbra.
Para ser mesmo candidata, Rose sabe que tem um baita desafio pela frente: se Hartung permanecer no PMDB, ela terá que vencer a luta interna com o governador, o que significa convencer as bases do partido e, sobretudo, a direção nacional para obter a legenda em detrimento de PH. Isso demanda tempo e muito trabalho. Por isso, a senadora precisava deixar claro, desde já, sua intenção de realizar essa disputa interna.
Estrategicamente, era importante para Rose verbalizar sua intenção antes do dia 7 de abril – limite do prazo para Hartung decidir se fica ou não no PMDB e se fica ou não no cargo de governador. Supondo que Hartung decida ficar tanto no cargo como no partido, há 99% de chances de ele se lançar à reeleição pelo PMDB. Nessa conjuntura, não daria para Rose chegar lá na frente, com a decisão de Hartung já tomada, e surpreender os peemedebistas dizendo “também sou pré-candidata, então vamos decidir na convenção”. Para ter chance de êxito, esse embate e essa guerra de nervos têm que ser travados por ela desde já. Do contrário, ela seria atropelada no processo.
Outro efeito almejado por Rose pode ter sido o de “assustar” Hartung, isto é, enviar para o Palácio Anchieta um sinal que não podia ser mais cristalino e que pode ser assim traduzido: “Olha só, não posso ser ignorada. Se você quiser mesmo se lançar à reeleição, primeiro vai ter que passar por cima de mim. Neste caso, é melhor pensar melhor se quer ficar no PMDB. Porque, se ficar, vai ter briga, hein!”. Ao se dizer candidatíssima, Rose insinua a Hartung que, para evitar uma briga doméstica pesada no PMDB, talvez seja melhor ele buscar outro caminho.
Rose, como todos sabem, é destemida e gosta de uma boa briga. Poucos além da própria senadora creem que Hartung, querendo ser candidato, não terá legenda assegurada a ele pela direção nacional do PMDB. Até aliados de Rose acham que não haverá decisão de candidatura através de convenção do partido. E se houver, acreditam, ela não leva. Mas Rose parece disposta a contradizer esta avaliação.
Finalmente, Rose se coloca também dessa forma porque, na corrida rumo ao Palácio (aliás, nas voltas preparatórias para a corrida), ela estava ficando para trás. Enquanto andava meio sumida, Hartung e Colnago têm percorrido freneticamente o Estado, com toda a máquina na mão; sem máquina nem mandato, Casagrande também tem se desdobrado para recuperar terreno; e até Max Filho, através do pai dele, resolveu “entrar na brincadeira”.
Rose apareceu intensamente no ano passado, sobretudo entre agosto e outubro, quando trouxe ao ES uma penca de ministros do governo Temer, em agendas organizadas por ela, rivalizando e notoriamente gerando incômodo no gabinete do governador. Em 16 de outubro, durante visita do ministro da Saúde, Ricardo Barros (PP), ao Hucam, Rose disse à coluna estar disposta a disputar a convenção contra Hartung. Depois disso, seu movimento esfriou, enquanto o dos demais só fez esquentar. Para não tomar volta dos demais, era hora de a senadora se reposicionar na corrida.
É de quem chegou antes
O deputado federal Paulo Foletto (PSB), um dos principais aliados de Casagrande, avalia que, “na naturalidade dos fatos, o governador leva uma vantagem sobre Rose” na disputa por legenda no PMDB. “Ela já vem dizendo para nós que é pré-candidata há muito tempo. Agora, como ela é de um partido que tem governador, terá uma equação difícil para resolver. Normalmente, quem está no mandato leva alguma vantagem nessa questão toda. Entre aspas, ‘tem direito’.”
Conselho de Foletto
“Se ela for esperar até a prévia do PMDB, depois do prazo de desfiliação, para buscar obter a legenda... acho muito difícil. Se fosse eu no lugar de Rose, consultaria minhas bases sobre a possibilidade de ir para outro partido”, avalia o deputado.
No palanque adversário
Por falar em Foletto, o deputado foi um dos que prestigiaram e discursaram ontem no palanque erguido pelo governo do Estado em Marilândia, durante assinatura de ordem de serviço para recuperação de estrada que liga o município a Colatina (reduto de Foletto). O deputado elogiou muito Hartung, dizendo que o governador é exceção no país. É aquela história: em período pré-eleitoral, todo palanque é palanque...
Vinde a mim, prefeitos!
A contraofensiva do governo ao anúncio de Rose veio forte. Onde a senadora é, sabidamente, mais forte? Na influência que exerce sobre prefeitos, sobretudo do interior. Pois bem: o mesmo evento do governo ontem, em Marilândia, reuniu 18 prefeitos, seis vices e 53 vereadores.
Camata: choro e apoio
Na luta interna no PMDB, Rose tem muito mais tradição no partido que PH. Mas quem, senão o ex-governador Gerson Camata, melhor representa a tradição do PMDB no Espírito Santo? Pois bem, Camata participou do evento em Marilândia, defendeu a reeleição de Hartung e (notório chorão que é) foi levado às lágrimas pelos elogios que o governador lhe dedicou em retribuição.