Oficialmente, o partido está com Casagrande (PSB). O presidente estadual da legenda, Neucimar Fraga, apoia o ex-governador e diz que pedirá votos para ele. Mas o segundo na linha de comando do PSD, Zé Carlinhos da Fonseca, decidiu ficar, ao mesmo tempo, ao lado de Rose de Freitas (adversária eleitoral de Casagrande) e, ainda mais importante, do governador Paulo Hartung (principal adversário político do ex-governador).
Após o cavalo de pau conduzido por Neucimar (que levou o apoio do PSD de Rose para Casagrande nas últimas horas do prazo para fechamento das coligações), Zé Carlinhos decidiu permanecer na campanha da senadora, e não apenas como mais um colaborador: nos bastidores, vem sendo tratado como o coordenador. E não é só: também decidiu continuar ao lado de Hartung, desistindo da candidatura a deputado federal pela coligação de Casagrande para voltar ao cargo estratégico de secretário-chefe da Casa Civil, onde responde pela articulação política do governador. Só isso.
Eis, assim, o contrassenso que temos: enquanto seu partido e o presidente de seu partido estão na campanha de Casagrande, Zé Carlinhos colabora com a campanha de Rose e volta a pilotar o fogão da cozinha política do Palácio. Difícil compreender tamanha separação entre os dois mais altos dirigentes da mesma sigla. Mas Zé Carlinhos explica:
“Eu não tinha me programado para ser candidato a deputado. Aceitei entrar na chapa por circunstância fortuita. Já fui deputado federal e sei que não se faz candidatura a deputado na improvisação. Estou velho demais para fazer esse tipo de coisa”, diz ele, do alto de seus 58 anos.
“Somado a isso”, continua, “havia o fato de que eu havia feito um esforço grande em torno da Rose. Acredito nessa candidatura. É viável e necessária. Acho que é a vez de vermos uma mulher batalhadora, guerreira e bem-sucedida ser testada no Palácio Anchieta. Isso pesou na minha decisão. Compreendo e respeito o movimento do meu partido. Não há nenhuma rusga nem desinteligência com Neucimar. Apenas é a opção que faço.”
Além do envolvimento com a campanha de Rose e do compromisso prévio com a senadora, pesou na decisão de Zé Carlinhos sua lealdade ao atual governo, no qual, para surpresa de muitos (deste colunista, inclusive), adquiriu protagonismo. “Também pesa, é claro. Mantenho a minha coerência, respeitando os que, por injunções, optaram por outro caminho.”
Com preocupações maiores no momento – a própria campanha, sobretudo –, Neucimar já virou essa página e é sucinto: “Zé Carlinhos tinha compromisso com Rose. Como houve essa migração nossa para a chapa de Casagrande para resolver a nossa chapa proporcional, ele não se sentiu muito confortável”.
Ao mesmo tempo, Neucimar avisa: “O PSD vai com Casagrande. O partido vai pedir votos para Casagrande e será leal a Casagrande. E vamos cobrar fidelidade dos demais candidatos e filiados”. Exceção feita a Zé Carlinhos, claro.
A ironia implícita na declaração acima de Neucimar só não supera a do seguinte fato: a retirada de Zé Carlinhos pode comprometer exatamente a eleição de Neucimar à Câmara. Afinal, a chapa ficou desfalcada e até agora não há substituto. O presidente estadual do PSD tem feito de tudo para convencer o ex-prefeito de Aracruz, Ademar Devens, a suprir a lacuna de Zé Carlinhos. Por enquanto, Devens resiste. Prefere manter-se na disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa.
Diretamente interessado na troca, Neucimar faz aquela pressão básica: “Ademar está resistente. Quer ser candidato a estadual. Mas o compromisso dele era entrar no PSD para ser candidato a federal”.
Flashback
No dia 4 de agosto, um sábado, dois dias antes do envio das atas das convenções para o TRE, o PSD ainda estava na coligação de Rose de Freitas. Em reunião na casa dela, Zé Carlinhos topou virar candidato a deputado federal, para ajudar no fechamento da chapa do PSD à Câmara. No domingo, os dirigentes passaram à discussão das chapas de deputado estadual. Neucimar se desentendeu com o presidente estadual do Podemos, Gilson Daniel. No dia seguinte, levou o PSD para a coligação de Casagrande, contra a vontade pessoal de Zé Carlinhos.
Chapa pesada
Neucimar estimava que Zé Carlinhos pudesse fazer de 30 mil a 40 mil votos, dando sua contribuição pessoal para elevar a votação total da coligação do PSD na disputa a deputado federal (PSD/ PDT/PSDB/DEM/SDD/PRP). É uma coligação pesada: além de Neucimar, tem Vidigal (PDT), Colnago (PSDB), Norma Ayub (DEM), Jorge Silva (SDD), entre outros. Com os votos de Zé Carlinhos, era mais seguro que a coligação faria quatro vagas, nas sobras. Sem esses votos, diminuem as chances. Mais provável que eles só façam três cadeiras, disputadas por Neucimar e essa turma toda aí.
“Faz falta”
“Zé Carlinhos faz falta”, admite Neucimar, “mas temos condições de potencializar votos também. Se ele fosse candidato, ele ia dividir votos comigo. Agora o partido volta a se concentrar na nossa candidatura”, afirma o candidato. Ele projeta de 100 mil a 110 mil votos para si.
Ademar relutante
Para substituir Zé Carlinhos, o PSD tem prazo de até dez dias contados da homologação da renúncia. Filiado à sigla em abril, no limite do prazo, Ademar Devens (ex-MDB) reluta em topar a missão. “Vou conversar com algumas pessoas e decidir até segunda-feira.”