O eleitor capixaba, sobretudo o indeciso, que assistiu ao debate da TV Gazeta na última terça-feira, deve ter ficado confuso e talvez tenha desligado o televisor após a segunda pergunta entre os candidatos. Em grande parte do debate, sobretudo no início, predominou a sensação de que estávamos assistindo a uma contenda não entre candidatos a governador do Espírito Santo, mas a presidente da República. Ou talvez a uma disputa pelo título de melhor cabo eleitoral de candidatos à Presidência.
No caso de Jackeline Rocha (PT) e, sobretudo, de Carlos Manato (PSL), a apresentação de propostas específicas para o Espírito Santo deu lugar em muitos momentos à defesa dos respectivos presidenciáveis: Haddad e Bolsonaro.
Colar a própria imagem na do candidato à Presidência é estratégia legítima e comum entre postulantes ao governo estadual. Mas, quando usada excessivamente, ou quando todo o discurso se resume a isso, fica parecendo que o candidato precisa do presidenciável como se fosse uma muleta. No caso de Manato, essa estratégia tomou proporções poucas vezes vista em eleições no Espírito Santo.
Somando perguntas, respostas, réplicas, tréplicas e considerações finais, Manato falou por 19 minutos e meio no debate. Citou o nome de Bolsonaro 24 vezes – média de mais de uma vez por minuto. Só no primeiro bloco, ele falou por quatro minutos. Mencionou Bolsonaro 10 vezes – ou 2,5 vezes por minuto. Isso quando o citou nominalmente.
Em outros dois momentos, Manato se disse um “bolsonariano”. Em uma pergunta de Aridelmo sobre saúde, o deputado citou “o plano de governo de Bolsonaro” (para o Brasil), em vez de pôr em evidência seu próprio programa para o governo do Estado. Em outra ocasião, antecipou que, se ele chegar ao 2º turno, emprestará um quarto dos seus 10 minutos diários nos dois blocos do horário eleitoral (limite permitido pela lei) para Bolsonaro fazer campanha à Presidência: “Manato no 2º turno, Jair Bolsonaro vai ter dois minutos e meio todo dia”.
Manato também buscou postar-se ao lado do presidenciável em algumas bandeiras de campanha: “Eu e Bolsonaro somos contra a propaganda”. Em outra parte do debate, compadeceu-se do capitão reformado pelas críticas que ele tem recebido durante o processo eleitoral: “Está apanhando mais do que pão”. Isso sem falar nas menções a Haddad (pelo menos três), a Lula, ao Foro de São Paulo...
Manato foi para o debate predisposto a transpor para a disputa local, ao governo do Espírito Santo, essa polarização extrema, com requintes de radicalismos, que temos vivenciado na eleição presidencial. Buscou reproduzir, no debate entre candidatos a governador do Espírito Santo, o antagonismo meio raso que transforma tudo em um duelo entre “direita” e “esquerda”, “bolsonarianos” e “vermelhos” (palavra usada quatro vezes pelo candidato).
A estratégia de Manato ficou evidente já na primeira pergunta. Sorteado para abrir o debate, o deputado escolheu Casagrande e, em vez de lhe perguntar sobre assuntos pertinentes aos serviços públicos do Espírito Santo, indagou o ex-governador se ele vai apoiar Haddad no 2º turno. “Eu vou dar palanque para Bolsonaro. Você vai dar palanque para Haddad?” Casagrande reafirmou o apoio a Ciro no 1º turno, mas se esquivou como pôde de assumir compromisso para o 2º. Manato não perdoou: “Essa resposta é do vermelho, do Rolando Lero. Eles vão ficar, sim, com Haddad”.
Na pergunta seguinte, calhou de Jackeline ser sorteada e dirigir sua pergunta ao próprio Manato. A petista cobrou o “bolsonariano” pelas declarações do vice da chapa dele. Não o vice do próprio Manato (o empresário Rogério Zamperlini), mas o de Bolsonaro, general Mourão, que defendeu mais de uma vez o fim do 13º e do abono de férias. “Qual sua posição em relação a isso? Vai fazer a mesma coisa com os servidores aqui?”, quis saber Jackeline.
Manato admitiu que a fala do general foi “infeliz”, mas, aceitando o desafio, acentuou a polarização: “Vamos ter uma luta entre o vermelho contra o verde e amarelo. (...) Aqui do meu lado está o vermelho puro”. “Somos vermelho, sim”, replicou Jackeline. “Nosso líder não está na prisão”, devolveu Manato, em referência óbvia a Lula, preso por corrupção.
Ficou a incômoda sensação de que a eleição a governador, a qual eles efetivamente disputam, é só um detalhe menor. Um “puxadinho”, enfim, da eleição presidencial.
Puxadinho petista
Embora mais comedida que Manato, Jackeline também usou o debate da TV Gazeta para cumprir a principal missão para a qual foi escalada neste processo: defender o PT na eleição presidencial. Rendeu homenagens aos governos de Lula e Dilma. Sobre a “ex-presidenta”, disse que Minas a elegerá senadora como “ato de desagravo que sofremos na democracia com o golpe de 2016”.
Críticas a Bolsonaro
Jackeline também criticou o governo Temer (principalmente a PEC do Teto dos Gastos). E naturalmente, em suas respostas, não faltaram críticas a Bolsonaro. Ela condenou a apologia do capitão da reserva à “cultura do estupro” e mencionou duas vezes, inclusive nas considerações finais, a expressão “ele não”.
Confusão geográfica
Também não faltaram, claro, elogios da petista a seu candidato à Presidência. “Tenho muito orgulho do meu candidato a presidente, que é o Fernando Haddad.” Um exemplo da mistura da eleição local com a nacional foi a “adaptação capixaba” que sua equipe de marketing deu ao slogan de Haddad: “O Espírito Santo pode ser feliz de novo e junto com Haddad nós vamos buscar isso”.
E o outro Fernando?!?
A candidata exagerou tremendamente ao dizer que “eleger o primeiro professor presidente da República de fato significa um avanço para o Brasil”. Deve ter arrancado uma lágrima de FHC, professor da USP exilado durante a ditadura militar e honoris causa em algumas das principais universidades do mundo.
Quatro podem brincar
Aridelmo (PTB) e André Moreira (PSOL) resolveram entrar na brincadeira. O primeiro declarou apoio ao vivo a Bolsonaro. O segundo lamentou essa declaração e citou complicações de Bolsonaro, em pergunta a Manato sobre corrupção, como recebimento de auxílio-moradia tendo casa em Brasília, a Val do Açaí e “lavagem de dinheiro da JBS”. “Ele não é um sujeito honesto como vocês dizem.”