Bolha financeira é um fenômeno caracterizado pelo aumento rápido e forte no preço de um ativo, que causa um descolamento total com os fundamentos econômicos de possuí-lo. Por exemplo, se eu compro um terreno em um local afastado por acreditar que a região será um polo de crescimento, geralmente eu pago um valor bem menor do que se comprasse um terreno com a mesma metragem em uma área bem localizada na cidade. Não faria sentido pagar mais caro no m2 de um terreno isolado e sem infraestrutura, apenas por acreditar que aquela região poderá (ou não) se valorizar no futuro.
Existirão muitas incertezas que deverão descontar o preço, e não aumentá-lo. Outro fator que caracteriza uma bolha é a insustentabilidade da taxa de crescimento. Empresas novas podem crescer a taxas elevadas, de 100% ou mais ao ano nos primeiros anos. Aconteceu com o Facebook, o WhatsApp e o Google no início. Mas, quanto tempo é possível crescer a uma taxa tão elevada? Em 2008, a base de usuários mensais ativos do Facebook era de 100 milhões e, em 2017, saltou para 2 bilhões, 1.900% de crescimento em menos de dez anos, ou cerca de 40% ao ano. Se essa taxa for utilizada para projetar os próximos anos, em meados de 2021, todos os habitantes do planeta estarão conectados à rede social.
O mercado financeiro está cheio de situações em que ocorre tanto o descolamento dos fundamentos, quanto a projeção por meio de taxas insustentáveis de crescimento. Em 2013, um Bitcoin custava cerca de U$ 100 e, em 2017, chegou a bater a marca de U$ 17.000. Meros 16.900% de valorização em cerca de 4 anos. O valor de mercado, ou seja, se multiplicarmos todas as bitcoins pelo seu valor em dólar, atingiu cerca de U$ 300 bilhões no seu máximo.
Comparado com a oferta global de dinheiro (todo o dinheiro do mundo) isso representa apenas 0,33% do total, é pouco para balançar o sistema, mas assusta. Ainda mais quando comparado com a capitalização de mercado de todas as empresas negociadas na Bovespa, de U$ 1 trilhão, que geram resultados, investem em máquinas, vendem produtos e serviços e contratam milhares de pessoas.
O valor de mercado da Bitcoin é maior, inclusive, que o da maior empresa de cartão de crédito do mundo, a Visa. No entanto, essa empresa está praticamente em todos os lugares do mundo, enquanto o Bitcoin ainda não é aceito nem em cinco das 500 maiores lojas de e-commerce. Mas qual seria o valor justo do Bitcoin? Difícil dizer, pois ela não pode ser avaliada como uma moeda convencional, pois não há uma taxa de juros atrelada, nem lastro ou paridade de poder de compra como nas moedas convencionais. Também seria difícil avaliar como “ouro digital”, pois não há um uso intrínseco como na fabricação de joias ou eletrônicos. Tão pouco como um meio de pagamento, pois uma moeda que quase ninguém usa deveria ter seu valor próximo de zero.
*O autor é gestor de recursos da AlphaMar Investimentos