Um dos gêneros que vem ganhando espaço nos últimos anos é o jornalismo documental, com histórias reais contadas e recontadas de forma mais aprofundada, tendo como base uma apuração criteriosa e uma linguagem mais cinematográfica, emocional e próxima do expectador.
Com trabalhos premiados internacionalmente, como o Caso Aracelli (1970), a Tragédia do Morro do Macaco (1985) e o Caso do Juiz Alexandre Martins (2003), o editor de conteúdos audiovisuais da Rede Gazeta, Farley Sil, trouxe para uma conversa com os alunos do 29º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta seu olhar apurado sobre produção jornalística tradicional de TV e jornalismo documental. Em cena, a importância do roteiro e a arte de conduzir entrevistas.
Farley explica que a diferença entre a produção para TV e o jornalismo documental está no tempo de produção e na forma de se relacionar com as fontes.
“O espírito na hora de fazer um documentário é completamente diferente. Você olha para as pessoas com mais tempo. A entrevista para a TV é mais rápida e não dá espaço para que o espectador realmente conheça quem está sendo entrevistado. No documentário, você consegue fazer com que o espectador sinta as dores do outro e entenda o que a pessoa quer falar."
Essa liberdade também se reflete na ausência de uma estrutura fixa. "Existe uma estrutura para uma reportagem de TV: off (texto narrado pelo repórter), entrevista... No documentário, você não tem esse modelo. Nos meus documentários, por exemplo, quem conta a história são os entrevistados", compara.
Um dos pontos centrais da fala de Farley foi o que ele chama de "arte de conduzir emoções", que é a capacidade de o entrevistador criar um ambiente de confiança antes mesmo de iniciar as perguntas. "Começar uma entrevista não é chegar com vários equipamentos. A ideia é chegar com tranquilidade, olhar no olho, estabelecer um contato mais próximo para entender primeiro o que o personagem tem pra me entregar. Precisamos fazer com que a fonte perceba o mínimo possível que será uma entrevista, que tem uma câmera captando tudo. Eu sei o que ele vai me dar, mas dependendo da abordagem, ele pode oferecer muito mais. Então vamos fazer com que o personagem se sinta à vontade para contar essa história", ensina.
Para Farley, o processo de construção de um documentário começa antes da ilha de edição, resumido em três verbos: ouvir, pesquisar e observar. Nesse processo, o roteiro deve ser tratado como uma ideia, que pode mudar conforme o desenrolar da entrevista. "O roteiro é o ponto de partida, não uma prisão. Use-o como guia para entender a proposta e a estrutura, mas não tenha medo de questioná-lo durante a montagem".
Essa liberdade se justifica, porque a ordem dos acontecimentos não precisa ser a ordem da narrativa. "Um bom editor segue o roteiro. Um ótimo editor entende o roteiro. Um excelente editor entende quando o roteiro precisa mudar. O editor não corta a imagem, ele constrói o significado”.
Farley reforça que esse cuidado vale também para o áudio. "Diferentes tipos de som mudam completamente a percepção do espectador. Existem trilhas em que o editor quer que o espectador sinta uma emoção específica, mas também podem existir outras que levem o espectador a tirar suas próprias conclusões".
*Este conteúdo foi produzido por Guilherme Marques, residente do 29º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob orientação da editora Giuliane Calvi.