A fotografia pode construir uma narrativa e até definir o que será notícia. Foi sobre esse papel essencial da imagem no jornalismo que o repórter-fotográfico de A Gazeta Fernando Madeira conversou com os alunos do 29º Curso de Residência da Rede Gazeta. Com o tema “Do olhar fotográfico à narrativa audiovisual”, ele deu uma aula sobre fotografia documental, estilo que registra situações com o objetivo de documentar e comunicar uma realidade.
Além de compartilhar suas experiências, durante as aulas os profissionais da Rede Gazeta também dão alguns desafios práticos para os alunos da Residência. No caso de Madeira, a missão foi observar cada fotografia e, a partir delas, descobrir o contexto e a mensagem principal que elas documentavam.
"Treinar o olhar na captação e entender como imagem, edição e roteiro estão entrelaçados é indispensável para quem quer atuar nessa área. Além disso, o fotógrafo precisa pensar no texto do repórter para ajudar na construção da narrativa com as imagens que produz”, orienta.
Com base em algumas reportagens especiais que cobriu, o repórter-fotográfico destacou a importância de uma fotografia que não apenas ilustre, mas também conte, revele e complemente a notícia. Para demonstrar, compartilhou ensaios que produziu dentro do presídio feminino – Nascer no presídio: como vivem os bebês com mães privadas de liberdade – e denunciando que, em pleno século 21, famílias vivem à luz de velas em comunidade sem energia elétrica no ES.
Em um de seus trabalhos de destaque, ao lado do repórter Patrik Camporez, Fernando documentou “a rotina desumana da colheita do café” no Espírito Santo. Segundo ele, a fotografia foi fundamental para a construção da história, pois mostrou a realidade dos trabalhadores nas lavouras em contraste com o colorido das plantações.
Madeira acrescentou que “a fotografia é uma voz”, revelando que muitas das decisões na produção de documentários são fotográficas. “Antes do vídeo, existe a fotografia”, ressaltou.
Formado em design gráfico e com atuação há 12 anos na Rede Gazeta, Madeira começou sua carreira como fotógrafo durante uma viagem de trem de Vitória para Minas Gerais. Ao observar uma moça vendendo biscoitos de polvilho pela janela do trem de passageiros, imaginou que aquela cena daria uma boa foto. Desde então, construiu uma trajetória marcante e, em 2025, recebeu o Prêmio FCW (Prêmio Fundação Conrado Wessel), uma das premiações de maior prestígio no Brasil nas áreas de Ciência, Cultura e Arte.
O tema do Curso de Residência deste ano é “Jornalismo de confiança na era da desinformação” e, ao ser perguntado sobre o uso de inteligência artificial (IA) em suas fotografias, Fernando rebate: “A IA nunca vai substituir nossa presença ali na rua. Registro o que encontro pelo caminho, sem nenhuma montagem”. Madeira também esclarece que é possível distinguir quando uma imagem é real e quando é fruto de IA.
*Este conteúdo foi produzido por Rafaela Gomes, residente do 29º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob orientação da editora Giuliane Calvi.