Quando se compartilha a mesma sala com os dois, a impressão que fica é uma só: cumplicidade. Entre uma resposta e outra, Bruno Dalvi, editor-chefe da TV Gazeta e do G1, e Geraldo Nascimento, editor-chefe de A Gazeta e da CBN, alternam concordâncias e complementos com a naturalidade de quem já está acostumado a dividir não apenas decisões, mas também os desafios de fazer jornalismo.
Com essa mesma dinâmica, os dois bateram um papo de duas horas com a turma do 29º Curso de Residência da Rede Gazeta sobre “Jornalismo de confiança na era da desinformação”, envolvendo temas como eleições, inteligência artificial, futuro da profissão e ética.
“A nossa profissão nunca foi tão importante quanto é agora”, afirmou Bruno Dalvi. Para ele, nunca houve tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, tanta desinformação. Geraldo Nascimento complementou destacando a importância de um jornalismo ético e comprometido em que, segundo ele, a Rede Gazeta acredita e aplica todos os dias em linha com o propósito e os valores da empresa.
Para os editores, uma das funções do jornalismo é justamente ajudar o público a priorizar o que recebe. “O ser humano precisa de alguém para hierarquizar as coisas para ele”, disse Bruno ao defender a importância de definir o que é relevante e merece ser transformado em notícia.
Se o público, especialmente os mais jovens, passou a consumir cada vez mais informação por meio de creators (criadores de conteúdo digital) e influenciadores, o jornalismo também precisa entender essa mudança e se atualizar, mas preservando sua essência: “O profissional deve estar disposto a conhecer novas linguagens e formatos, sem deixar que a preocupação com o formato se sobreponha ao conteúdo”, enfatizou Geraldo.
A discussão sobre formação também apareceu, quando os residentes questionaram o que diferencia um jornalista profissional em um cenário em que creators e influenciadores ocupam cada vez mais espaço na produção e divulgação de conteúdo.
Geraldo Nascimento afirmou que estudar e se preparar para seguir a carreira de jornalista é fundamental, especialmente quando o estudante tira o máximo de proveito da vivência acadêmica. Dalvi concordou e levantou apenas um ponto: “As faculdades de Comunicação só precisam estar mais conectadas à transformação do jornalismo para levar para a sala de aula o que acontece no dia a dia de uma redação.”
Transitar por todas as plataformas contribui com o desenvolvimento profissional e prepara o jornalista para usar ferramentas que ajudam na correria do dia a dia. É o caso da IA que, de acordo com Geraldo, é usada para facilitar o trabalho do jornalista, e não substituí-lo: “A inteligência artificial é para auxiliar e agilizar processos, mas a tomada de decisão é sempre humana”.
Na TV não é diferente. Segundo Bruno, a IA tem sido usada, por exemplo, como recurso para disfarçar a voz de pessoas que não querem ser identificadas numa entrevista.
Neste ano de eleições, os editores-chefes fazem um alerta aos colegas de trabalho: “desconfiar de tudo, checar e rechecar toda informação e denúncia que chega e circula nas redes sociais.”
Depois de duas horas de conversa, ficou evidente que, apesar de todas as transformações do jornalismo, algumas características continuam indispensáveis para um jornalista: ter curiosidade, ler de tudo e ter vontade de investigar. “Pra mim, jornalismo é missão, é se colocar a serviço da sociedade”, disse Bruno.
Missão de dar voz a quem não tem: “Eu gosto muito de uma frase que Abdo Chequer sempre diz: ‘O jornalismo precisa ser conforto dos aflitos e aflição dos confortados”, complementou.
O que esperam dos futuros jornalistas? Geraldo resumiu em duas palavras : curiosidade e indignação. "Se você não tiver curiosidade, vai fazer só o básico; se não tiver indignação, não vai se posicionar".
*Este conteúdo foi produzido por Kamila Rossi, residente do 29º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob orientação da editora Giuliane Calvi.