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Vitor Vogas

"Se conhecimento é balbúrdia, sou parte da balbúrdia", diz secretária no ES

Cientista, professora e pesquisadora da Ufes, Cristina Engel é secretária estadual de Ciência e Tecnologia. Para ela, decisão do MEC de cortar bolsas de pesquisa mostra "desconhecimento sobre as universidades"

Publicado em 15 de Maio de 2019 às 17:52

Públicado em 

15 mai 2019 às 17:52
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Professora Cristina Engel Alvarez Crédito: Hélio Marchioni
“Se balbúrdia é também você comemorar o conhecimento, se é você comemorar o seu potencial de crescimento e de formar pessoas, então que seja muito bem-vinda essa balbúrdia. Eu faço parte dela também.”
A frase-desabafo é da secretária estadual de Ciência e Tecnologia, Cristina Engel Alvarez, professora e pesquisadora do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Engel chegou a chefiar expedições científicas na Antártica para a reconstrução da base brasileira no contingente gelado, incendiada em 2012.
“Balbúrdia” foi o primeiro argumento usado pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, para justificar o corte linear de recursos, de cerca de 25% no orçamento de custeio de universidades federais (inicialmente só na UFBA, na UnB e na UFF, e depois expandido para todas as federais). Além dos recursos voltados para custeio, o Ministério da Educação (MEC) cortou a concessão de bolsas científicas. No Espírito Santo, os cortes do Ministério poderão afetar 150 bolsas de pesquisa.
Na tarde desta quarta-feira (15), a secretária do governo de Renato Casagrande (PSB) criticou duramente a decisão do de cortar recursos destinados às universidades e institutos federais – principalmente, o corte em bolsas para a realização de pesquisas científicas.
INCOMPREENSÍVEL
Para a secretária, a decisão “é tão absurda que chega a ser incompreensível”. Segundo ela, o corte na concessão de bolsas pela Capes vai gerar a interrupção abrupta de pesquisas já iniciadas, jogando pelo ralo tudo o que já havia sido feito e prejudicando a produção de conhecimento e inovação. Com isso, calcula ela, o Brasil vai demorar de 10 a 20 anos para se recuperar em termos de produção acadêmica.
“Inclusive porque vai interromper processos. Existe um andamento das pesquisas, que elas têm que ser continuadas. A partir do momento que há uma decisão de corte, a pesquisa é interrompida. Quando ela for retomada lá na frente, se perde tudo.”
Para ela, a única explicação possível para esse “retrocesso absurdo” é falta de conhecimento por parte de quem tomou a decisão sobre “o que de fato é feito dentro de uma universidade”.
“Existe uma coisa chamada conhecimento, né? Então, quando a gente não conhece alguma coisa, a gente às vezes tem uma tendência a tomar uma decisão equivocada. Eu acredito que esteja ocorrendo atualmente um desconhecimento do que de fato é feito dento de uma universidade.”
Orgulhosamente, Cristina Engel rebateu a suposta "balbúrdia" com a frase que abre o texto, em entrevista à coluna.
Antes de iniciar a entrevista (cuja íntegra segue abaixo), ela pensou duas vezes. Mas decidiu falar o que pensa. Confira:
Antes de ser secretária, a senhora é cientista e pesquisadora da Ufes. Nessa condição, como avalia a decisão do MEC de restringir bolsas voltadas para a pesquisa científica nas universidades e institutos federais?
[Após pensar por alguns segundos] Eu vou te falar o que eu acho. Não sei se eu deveria... mas vou te falar o que eu acho. Isso é uma medida tão absurda que chega a ser incompreensível. Se houver mesmo esses cortes na possibilidade de desenvolvimento de pesquisa e de desenvolvimento da nossa capacidade intelectual, o Brasil vai demorar 10, 20 anos para se recuperar. Inclusive porque vai interromper processos. Existe um andamento das pesquisas, que elas têm que ser continuadas.
A partir do momento que há uma decisão de corte, a pesquisa é interrompida. Quando ela for retomada lá na frente, se perde tudo. Então, em termos de Brasil, isso seria um retrocesso tão absurdo que eu, sinceramente, tenho uma grande esperança de que isso não aconteça.
A que a senhora atribui, então, essa decisão do ministro Abraham Weintraub?
Existe uma coisa chamada conhecimento, né? Então, quando a gente não conhece alguma coisa, a gente às vezes tem uma tendência a tomar uma decisão equivocada. Eu acredito que esteja ocorrendo atualmente um desconhecimento do que de fato é feito dento de uma universidade. O que se propaga muitas vezes, até nos meios de comunicação, algumas notícias que não têm a menor importância diante da grandeza de uma universidade, me parece que estão sendo consideradas de maior importância nas decisões do que o que de fato importa, que é o que uma universidade tem como função: educar e prover conhecimento.
A senhora se refere à “balbúrdia” alegada pelo ministro, como um dos primeiros argumentos para o contingenciamento de recursos nas federais? Pega-se uma exceção e passa-se a tratá-la como se fosse a regra?
Exatamente. Então se balbúrdia é também você comemorar o conhecimento, você comemorar o seu potencial de crescimento e de formar pessoas, então que seja muito bem-vinda essa balbúrdia. Eu faço parte dela também.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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