O que tem chamado atenção na campanha de Bolsonaro não é só a bateção de continência não. É a bateção de cabeça mesmo. Três figuras de alta patente do estado-maior da campanha passam o tempo todo a se desautorizarem publicamente, em um círculo confuso de ideias: o próprio Bolsonaro; seu vice, general Hamilton Mourão; e seu guru econômico, Paulo Guedes.
Senão vejamos:
Guedes defende a privatização de todas as estatais para fazer caixa, inclusive a Petrobras. Em entrevista à GloboNews, Bolsonaro não endossou isso. Agora, o “Posto Ipiranga” falou em recriação da CPMF. Foi desautorizado por Bolsonaro.
Este, do leito hospitalar, deixou-se filmar no domingo reaquecendo a teoria conspiratória sobre as urnas eletrônicas e lançando suspeitas graves sobre o resultado da votação – por antecipação e sem a menor base fática. No dia seguinte, Mourão disse que não é bem assim. Desmentindo Bolsonaro, o general afirmou que é preciso relevar a declaração do capitão sobre fraude nas urnas, por ter sido feita por um homem que “praticamente morreu”. “Vocês têm que relevar um homem que praticamente morreu, que passou por duas cirurgias graves. O cara está fragilizado, então vamos relevar o que ele disse”, atenuou o general a jornalistas, em São Paulo.
Espere um pouco, general. Então não se deve levar em conta nada do que Bolsonaro disser durante a recuperação porque o candidato está “fragilizado”? É verdade, ele está fragilizado. Mas então por que deu a declaração? Contradizendo o titular da chapa, Mourão afirmou ainda que é preciso respeitar o resultado das urnas. “Quem vencer, venceu”.
Ao desmentir Bolsonaro assim, Mourão praticamente matou a autoridade do homem que praticamente morreu. Afinal, quem manda na chapa? Quem é o dono do posto? E em que ideias se deve acreditar? As de Bolsonaro? As de Guedes? As de Mourão? Até agora (e a eleição já vai avançada), está tudo por ali mais anárquico do que a “anarquia” que, segundo Mourão, justificaria o tal “autogolpe”.
Amaro na periferia
Aposta de muitos dirigentes para ser o campeão de votos na eleição de deputados federais, Amaro Neto (PRB) tem priorizado atividades de campanha em bairros da periferia da Grande Vitória, em contato direto com os eleitores. Só na quarta-feira, passou por Itararé (Vitória), São Torquato, Alecrim e Santa Rita (Vila Velha). Na tarde de ontem, caminhou em Jacaraípe (Serra) ao lado do aliado Manato (PSL).
Magno no Norte
Enquanto isso, o senador Magno Malta (PR), aliado de Amaro e Manato na chapa Amagnato, tem feito atividades de campanha para si mesmo principalmente em municípios do Norte do Estado, embora tenha começado a militar na política em Cachoeiro de Itapemirim.
Divisão do território
A assessoria de Magno nega algum tipo de pacto com o senador Ricardo Ferraço (PSDB), também candidato à reeleição, para “dividirem o território” – já que Ferraço tem base mais forte no Sul. Segundo a assessoria, Magno tem mantido o acordo de pedir voto para os dois.
Ainda mais ao Norte
Magno tem ido tanto para o Norte capixaba que às vezes ultrapassa a divisa. No domingo, participará de um grande ato de campanha em favor de Bolsonaro em Salvador, capital de seu Estado natal.
PH fala como Alckmin...
Como já observamos aqui, o discurso de campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) está muito parecido com o que Paulo Hartung (MDB) vem entoando desde 2017, pregando o equilíbrio e a sensatez em oposição ao radicalismo. “Os extremos não são bons. Pessoas raivosas pensam com o fígado e não com a cuca”, já afirmava PH em novembro de 2017. Em um dos primeiros programas eleitorais, a apresentadora da propaganda de Alckmin conclamou: “É hora do equilíbrio, do bom senso. É hora de alguém que resolva, usando a cabeça e o coração”.
...que fala como Amélia
Ninguém pode criticar a campanha de Alckmin por falta de sintonia entre os atores envolvidos. Afinadinha com ele, a sua candidata a vice, Ana Amélia (PP), disse o seguinte em Vitória na última terça-feira: “Eu não acredito que vai haver uma decisão pelo coração ou pelo fígado. Nós temos que decidir com a consciência e com a responsabilidade”.
Subir o morro
Falando em frases “emprestadas” de aliados capixabas, em atividade de campanha em Vitória no último dia 13, Alckmin ouviu o seguinte do senador Ricardo Ferraço (PSDB), durante palestra a empresários capixabas: “É subir o morro com uma lata na cabeça em um dia de chuva”. Na sequência, Alckmin repetiu a expressão de Ferraço, ao frisar que este será o 6º ano seguido de déficit primário por parte do governo federal.
Subir a rampa
E Alckmin gostou mesmo da metáfora. Na última terça, em entrevista ao Jornal da Globo, repetiu-a, um pouco adaptada. Afirmou que “quem ganhar a eleição subirá a rampa [do Palácio do Planalto, para tomar posse] em dia de chuva com lata d’água na cabeça”.