Que o sistema proporcional de eleição de deputados estaduais e federais é absurdo, todos nós estamos cansados de saber. Baseado no quociente eleitoral e na distribuição proporcional das vagas em razão da votação total de cada coligação, esse sistema, com o passar dos anos, provou-se completamente anômalo. É feito para não dar certo, privilegiando o casuísmo, o oportunismo e a improvisação na formação das alianças partidárias a cada nova eleição, em detrimento das afinidades programáticas e ideológicas entre as agremiações.
Na verdade, enquanto vigorar esse sistema eleitoral de deputados, fica até difícil cobrar identidade ideológica dos partidos, pois o próprio sistema encoraja a formação de alianças de ocasião, ditadas pelo pragmatismo e pela conveniência mútua. A coerência é mandada às favas. E a maior parte dos partidos se consolida como balcões de negócios e microempresas eleitorais.
Um terrível agravante é o fato de as eleições estaduais serem casadas: cargos majoritários (governador e senadores) e proporcionais (deputados federais e estaduais) são definidos no bojo do mesmo processo eleitoral. Isso provoca dois problemas:
1) Ofuscada pela disputa majoritária, que desperta muito mais a atenção do eleitorado, a eleição de deputados não recebe a devida atenção nem da mídia nem do público em geral;
2) A definição de alianças para a eleição de deputados fica condicionada e subordinada à definição de alianças para a disputa majoritária. As “pernas proporcionais” (subcoligações partidárias que valem especificamente para a eleição de deputados) são formadas dentro da coligação majoritária, entre os partidos que apoiam determinado candidato a governador.
Isso gera outras situações ainda mais incoerentes. Por exemplo, um partido mais identificado com certo candidato ao governo pode acabar ingressando na coligação do candidato adversário, porque ali encontra uma “perna proporcional” mais confortável, logo mais chances de eleger seus candidatos a deputado (não raro, a si mesmo).
Nada disso é novo e mudanças nesse sistema já foram largamente defendidas por muitos analistas, inclusive neste espaço. Mas nada como evidências práticas para provar por que esse sistema não tem chance alguma de dar certo. Nas últimas duas semanas, com a temporada de fechamento de alianças para as eleições de outubro, pudemos ver como funciona a cabeça de um dirigente partidário. Amanhã, entraremos no cérebro de um deles.
Indolência
No dia 6 de agosto, em uma tremenda mancada antropológica, o general da reserva Hamilton Mourão (PRTB) afirmou, em evento em Caxias do Sul (RS), que o Brasil “herdou a cultura de privilégios dos ibéricos, a indolência dos indígenas e a malandragem dos africanos”. No dia seguinte, tentando amenizar o estrago da desastrosa declaração de seu vice, o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) afirmou: “O que é indolência? É a capacidade de perdoar? O índio perdoa”.
Indulgência
Ninguém entendeu por que, para Bolsonaro, “indolência” é a “capacidade de perdoar”. Mas temos uma teoria. O capitão da reserva deve ter se confundido com a palavra “indulgência”: perdão ou atenuação da gravidade de uma falta; bondade que desculpa o que é censurável ou importuno; remissão dos pecados concedida pela Igreja (religião católica).
Ah, um dicionário...
Indolência não tem nada a ver com isso. É sinônimo de preguiça. A mesma que Bolsonaro teve em abrir um dicionário antes de fazer uma emenda pior que o soneto de Mourão.
O que fica da história
Haja autoindulgência de Mourão e Bolsonaro para sempre buscarem minimizar o que dizem depois que já está dito... É muita “capacidade de se perdoar”.
Microaulas de Aridelmo
Professor de economia, Aridelmo Teixeira (PTB) indica que vai explorar a faceta didática na campanha. Ele tem veiculado vídeos curtos em que aparece em sala de aula, expondo conceitos e bandeiras de maneira sucinta, em tom professoral e com a ajuda de um quadro-negro. Ora olha para a câmera, ora para a pretensa turma de alunos. Assina as vinhetas como “Professor Aridelmo Teixeira”.