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Gabriel Tebaldi

Suicídio coletivo na ponte e a falta de empatia

Necessitamos de empatia. Precisamos contemplar o mundo pelos olhos do outro, medir o que falamos, o que pensamos. Nossas vidas estavam ali, à beira do abismo

Publicado em 15 de Junho de 2018 às 15:44

Públicado em 

15 jun 2018 às 15:44

Colunista

Terça-feira, 10h40. Mais uma vida diante da morte na Terceira Ponte. Foram cinco horas de angústia que escancararam nossa sociedade, hipócrita, medíocre e mesquinha.
Fui mais um espectador, preso no trânsito de uma cidade que funciona no limite, sem alternativas, incapaz de reagir face a imprevistos. Ali, atônito, senti vergonha.
No engarrafamento, um vendedor de bandeirinhas divulgava uma versão pitoresca, com causas, drama e culpados. “Ele está armado”, completou um motoqueiro. No WhatsApp, fotos e vídeos falsos viralizavam a cada minuto. Um surto de pontualidade britânica atingiu nossa gente, hipócrita, “aflita” para chegar ao trabalho.
Logo a insensibilidade beirou o crime: “Tem que se jogar logo”, disse um senhor, de mãos dadas com o filhinho; “Um absurdo a cidade parar por isso”, reclamou uma jovem; “Alguém empurra esse rapaz”, bradou o taxista. Assim foram as manifestações por toda a cidade, prova de nossa aversão ao bom-senso, à meditação do drama da existência.
Chesterton, na década de 1930, escreveu: “O homem que se mata, mata todos os homens, pois, no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo”. O suicídio abarca elementos tão complexos, tão dramáticos, tão subjetivos, que compreendê-lo requer debruçar-se sobre a Humanidade, coisa rara em terra de gente vazia de tudo e cheia de si.
Necessitamos de empatia. Precisamos contemplar o mundo pelos olhos do outro, medir o que falamos, o que pensamos. Nossas vidas estavam ali, de quem amamos, à beira do abismo. “O suicídio é a rebelião da mente contra si”, disse Andrew Solomon. Todos estamos sujeitos ao limite.
Naquela terça, convenci-me de que a ignorância precisa ser constrangida pelo Conhecimento. Cada manifestação da mediocridade deve ser dilacerada pela Verdade. Urge envergonhar o idiota da objetividade.
Que aquele homem que, por cinco horas, foi vizinho da Morte, saiba: há, aqui, alguém que, às 15h, em prece silenciosa, agradeceu a Deus por sua vida. Que nenhum trânsito, nenhum caos, nenhuma estupidez superem a graça de uma segunda chance.
*O autor é graduado em História e Filosofia, e pós-graduado em Sociologia
 

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