Usar a inteligência artificial nas tarefas do dia a dia tem ficado cada vez mais comum, seja para buscar informações, organizar dados ou esclarecer dúvidas. Mas e quando o assunto é investimento? Vale a pena recorrer à IA para tomar decisões financeiras?
Para responder a essa e outras perguntas, A Gazeta ouviu especialistas que, apesar de aprovarem o uso dessas ferramentas em algumas situações, alertam para cuidados importantes para evitar decisões equivocadas.
Segundo o doutor em Ciência da Computação Jairo Lucas, é preciso cautela ao utilizar ferramentas de inteligência artificial, principalmente as generativas, já que elas podem apresentar respostas erradas com aparência de verdadeiras.
Já o sócio e diretor da Valor Investimentos Elídio Almeida afirma que a IA pode ser uma aliada para tarefas como coleta e organização de informações, além de servir como ferramenta educacional. No entanto, ele ressalta que investidores iniciantes precisam ter atenção para não confiar cegamente nas respostas.
O mundo dos investimentos pode parecer complicado à primeira vista. Termos como CDI, Tesouro Direto, bolsa de valores e ações costumam gerar dúvidas em quem está começando.
Segundo Elídio Almeida, é justamente nesse ponto que a inteligência artificial pode ajudar. “Essas ferramentas são excelentes professores particulares. O iniciante pode perguntar ‘o que é CDI?’, ‘qual a diferença entre CDB e Tesouro Direto?’ e receber uma explicação na linguagem dele, no nível dele, quantas vezes precisar, sem vergonha de perguntar de novo”, afirma.
Além de responder dúvidas, algumas ferramentas conseguem transformar conteúdos complexos em formatos mais acessíveis. O diretor cita o NotebookLM, do Google, que converte relatórios extensos e materiais técnicos em podcasts com linguagem simplificada. Dessa forma, o investidor pode aprender enquanto dirige, se exercita ou realiza outras atividades.
De acordo com Elídio, a IA também é útil para reunir e organizar informações, algo que já faz parte da rotina de profissionais do mercado financeiro.
“Um analista que antes gastava horas levantando dados de uma empresa hoje faz isso em minutos. Isso não substitui o trabalho dele. Pelo contrário, libera tempo para o que realmente importa: interpretar, comparar e decidir. Na prática, ele consegue até ampliar o número de empresas que cobre”, comenta.
Na prática, especialistas recomendam o uso da IA para explicar conceitos financeiros, resumir relatórios, comparar características de produtos de investimento e organizar informações. Já tarefas que envolvem recomendações personalizadas ou decisões de investimento exigem mais cautela.
Embora a inteligência artificial possa auxiliar na análise e organização de dados, ela não deve ser vista como substituta de profissionais especializados.
Elídio alerta que a IA consegue reunir informações, mas não tem capacidade de avaliar aspectos subjetivos que influenciam uma decisão financeira.
“No momento da decisão sobre um ativo ou fundo entram outras questões que ela terá dificuldade de considerar, como: quais são as outras alternativas existentes? O investidor prefere rentabilidade ou liquidez? Essa aplicação conversa com o restante da carteira?”, comenta.
Segundo Jairo Lucas, também é importante não confiar cegamente nas respostas geradas pelas ferramentas.
“Elas podem interpretar incorretamente demonstrações financeiras ou apresentar conclusões especulativas como se fossem objetivas. Uma IA pode raciocinar corretamente a partir de dados com os quais foi treinada, muitas vezes de meses atrás, e que já deixaram de representar a realidade”, afirma.
Entre os erros mais comuns está utilizar a inteligência artificial para montar uma carteira de investimentos.
A tarefa depende de fatores como perfil de risco, objetivos financeiros, horizonte de investimento e estratégia de diversificação. Por isso, exige uma análise individualizada.
Para Elídio Almeida, utilizar a IA para essa finalidade é uma prática arriscada, já que a construção de uma carteira envolve decisões subjetivas.
Outro equívoco frequente é acreditar que ferramentas generativas conseguem prever o comportamento do mercado. Segundo Jairo Lucas, é importante não confundir capacidade linguística com capacidade preditiva.
“Esse provavelmente é um dos maiores equívocos atuais quando se fala de IAs usadas no mercado financeiro. Uma IA generativa, como ChatGPT, Gemini, Claude ou DeepSeek, pode explicar muito bem por que uma ação poderia subir. Isso não significa que ela tenha capacidade de prever se essa ação realmente vai subir”, afirma.
O especialista também destaca que muitos investidores acabam criando expectativas irreais sobre rentabilidade. Um exemplo é buscar aplicações que rendam muito acima do CDI sem considerar os riscos envolvidos.
Quanto maior a possibilidade de retorno, maior tende a ser o risco. Quando as expectativas não se concretizam, o investidor pode acabar tomando decisões precipitadas e saindo de um investimento em um momento desfavorável.
Além dos cuidados com as recomendações financeiras, especialistas alertam para a proteção de dados pessoais.
Elídio afirma que informações sensíveis nunca devem ser compartilhadas com ferramentas de inteligência artificial, como senhas, tokens de acesso, números completos de cartão, dados bancários e documentos pessoais.
Informações sobre salário, patrimônio e valor investido também merecem atenção. Embora esses dados possam tornar as respostas mais personalizadas, é importante lembrar que eles estão sendo compartilhados com empresas responsáveis pelas plataformas.
Segundo o especialista, uma alternativa é utilizar valores aproximados ou percentuais em vez de números exatos. “Aqui vale começar por um princípio: a partir do momento em que você compartilha um dado com uma IA, ele está nas mãos de terceiros e pode ser armazenado e, em alguns casos, até usado para treinar a ferramenta”, afirma.
Para os especialistas, o principal é entender que a inteligência artificial deve ser encarada como uma ferramenta de apoio, e não como um analista financeiro.
“Com um profissional de confiança ao lado, alguém com experiência para ajudar na parte mais subjetiva das escolhas, seu perfil real, seus objetivos e seu momento de vida, o investidor consegue tomar decisões mais conscientes”, conclui Elídio.