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Jace Theodoro

Temperamental, desbocada e talentosa: Natércia, a única

Ela se apropriou da corujice do pai para causar e demarcar o território de mulher sem papas na língua num tempo de machos querendo cortar suas falas e asas

Publicado em 10 de Maio de 2018 às 20:01

Públicado em 

10 mai 2018 às 20:01
Jace Theodoro

Colunista

Jace Theodoro Jace Theodoro

jacetheodoro@uol.com.br

Cantora capixaba Natércia Crédito: Amarildo
Temperamental, desbocada e talentosa são apenas alguns dos adjetivos atribuídos à Natércia Lopes, a diva do bel-canto capixaba, primeira e única. Este Única virou marca porque ela própria costuma assinar o adjetivo como sobrenome nos seus autógrafos, o que gera alguns narizes torcidos. Enquanto imaginam ser autoelogio, é apenas deboche da cantora a partir de uma fala paterna que sempre se referia a ela deste modo por Natércia ser filha única.
Esperta, ela se apropriou da corujice do pai para causar e demarcar o território de mulher sem papas na língua num tempo de machos querendo cortar suas falas e asas. Natércia se impôs e seus exageros e o gênio irascível foram compensados pelo talento e o dom, essas joias que, bem lapidadas, ganham qualquer parada quando se escolhe a contramão para cair na estrada.
Aos 72 anos, ela reconhece que o brilho da voz não é o mesmo, mas a luz da grande artista e a marca da estrela se mantêm em sua integridade. Por motivos profissionais, começamos a conviver mais de perto e meus olhos se abriram em contornos inéditos para Natércia. Sai a diva, entra a mulher.
Se tem uma personagem da história cultural capixaba com casos ricos, picantes e dramáticos, esta é Natércia
Junte-se à mulher madura atitudes quase ingênuas, infantilidade que se reflete em “força, em graça, em luz”. Ao mesmo tempo em que conecta histórias e as conta com detalhes enriquecidos pela lembrança, também confunde nomes, realoca personagens de um caso pra outro, reclama da memória lhe retirando fatos que não podem ser esquecidos.
Se tem uma personagem da história cultural capixaba com casos ricos, picantes e dramáticos, esta é Natércia. Os que ainda estão vivos sentem pedras de gelo subindo pela coluna vertebral (leia-se frio na espinha) só em saber que seus causos podem emergir pela voz de soprano da artista. E ela presente, protagonista das cenas.
E virão à tona, com ou sem nomes. Natércia Lopes precisa ter o registro compartilhado das suas experiências artísticas e pessoais em páginas ou nas telas. Apertem os cintos: pequenos abalos sísmicos vão agitar o solo, antes firmes, das terras capixabas. Os possíveis personagens podem começar a tremedeira como treino e ensaio. Rá!
*O autor é jornalista e cronista

Jace Theodoro

Jace Theodoro Jace Theodoro

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