Daniela Reis e Silva*
Cartão-postal de Vitória, mais uma vez a Terceira Ponte tornou-se alvo de debate e foco de interesse após seu fechamento em função de uma tentativa de suicídio nesta quinta-feira (19). O caos tomou conta da cidade com o trânsito parado, sem nenhuma outra alternativa viária. Vários “especialistas em suicídio” surgiram comentando o acontecido, deixando claros a falta de conhecimento, o tabu e o preconceito que envolvem o comportamento suicida.
Os suicídios na Terceira Ponte representam um número pequeno nas estatísticas de suicídio de todo o Estado, informações referenciadas pela Vigilância Epidemiológica da Secretaria Estadual de Saúde. Mas, como qualquer meio de acesso que possibilita o suicídio, a Terceira Ponte deve receber proteção que impeça alguém de tentar o suicídio. Uma morte evitada faz grande diferença na vida daquela pessoa e de sua família, pois só quem perdeu alguém dessa forma pode nos dizer o que isso representa...
Sim. Sou a favor da colocação de barreiras de proteção na Terceira Ponte para evitar suicídios! A exemplo do que tem sido feito em outras partes do mundo e no Brasil, em um movimento intitulado Arquitetura Segura. Como também sou a favor do controle de venda de medicações psicotrópicas e de agrotóxicos e todas as outras formas de redução de acesso ao meio para que alguém cometa suicídio.
Mas achar que isso resolverá o problema do suicídio no ES é um ledo engano! Suicídio é um grave problema de saúde pública, que tem crescido de forma assustadora entre jovens, sendo observado até em crianças. É um fenômeno complexo e não tem uma causa única. A maior parte das pessoas que tenta suicídio apresenta um transtorno psiquiátrico e precisa receber tratamento adequado.
As pessoas em crise suicida estão em alto sofrimento psíquico e percebem a morte como a única forma de escapar dele. Em minha experiência profissional, sou testemunha de diversos processos de mudança e extinção total do comportamento suicida.
Lamentavelmente, os mitos de que “quem quer se matar mesmo se mata”, “quem quer se matar não dá aviso” e “suicida só quer chamar a atenção” atrapalham a identificação precoce do comportamento suicida e dificultam o acesso de uma pessoa em crise ao tratamento. As pessoas em crise suicida estão em alto sofrimento psíquico e percebem a morte como a única forma de escapar dele. Em minha experiência profissional, sou testemunha de diversos processos de mudança e extinção total do comportamento suicida. Mas isso requer tempo e dedicação de todos os envolvidos, inclusive da família e da equipe de assistência.
Para que isso ocorra, é necessária a existência de políticas públicas para estruturar a rede de atenção ao comportamento suicida, qualificar e capacitar profissionais, bem como disseminar informações para reduzir o preconceito que o assola permitindo que as pessoas peçam ajuda, e de fato a encontrem! A primeira intervenção é decisiva no curso do tratamento.
Vitória sediará o II Congresso Brasileiro de Prevenção de Suicídio, abrindo o Setembro Amarelo, mês da prevenção do suicídio. Uma oportunidade de trazermos à tona discussões fundamentais, conhecimento e informação para estabelecer uma verdadeira rede de apoio e de cuidado para este problema que nos assola, de forma a reduzir uma parcela de mortes evitáveis por suicídio. Afinal, temos muitas razões para prevenir!
* A autora é psicóloga, coordenadora do Grupo de Trabalho de Prevenção de Suicídio do Espírito Santo e diretora da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção de Suicídio