O que estamos observando nestas eleições é reflexo e, mais do que isso, produto do estado de crise geral pela qual passa a representação política, em todos os seus níveis. Fenômeno que não se restringe apenas ao nosso país, mas que também se coloca presente na maioria das democracias mundo afora, mesmo naquelas mais consolidadas. O embate eleitoral que levou Trump à presidência dos Estados Unidos é o exemplo mais emblemático desse cenário. Não é mera semelhança com o que vemos aqui.
Alguns pesquisadores e estudiosos da temática apontam a grande crise econômica em escala global, que estourou em 2008, como origem causal. Essa verdadeira desarrumação geral no campo da política decorreria então das fissuras e fragilidades observadas no campo da economia, sobretudo pelo desemprego e empobrecimento das populações. Como a política, a velha, demonstrou ser incapaz ou mesmo inábil na tarefa de dar respostas aos novos desafios e demandas dos eleitores, esses passaram a buscar novos caminhos e alternativas, em movimentos de massa.
Segundo turno é sempre outra eleição. Polariza confrontos e antagonismos. Mas também é momento para acenos e pontes, naturalmente para aqueles que ainda não aderiram
No Brasil, sem dúvida, o atual momento político não somente tem suas bases plantadas lá atrás, quando o tsunami que arrasou a economia mundial foi aqui interpretado como “marolinha”, mas também na política fiscal, com a desorganização das contas públicas do governo Dilma. Os movimentos de massa que ocorreram em 2013 já refletiam o descolamento da representação política das suas bases. De lá para cá, as coisas só pioraram. O produto de todo esse processo está sendo antecipado pelas pesquisas. Teremos uma disputa entre rejeitados.
Ou seja, tudo indica que teremos no segundo turno um confronto de antagonismos, por premissa praticamente irreconciliáveis. Apenas os eleitores de Bolsonaro e Haddad, já de certa forma declarados, não terão que enfrentar o dilacerante dilema na hora da decisão. Mais parecerá um plebiscito. Vencerá o menos rejeitado. Só que, pelo visto, como apontam as pesquisas, em patamares perto de 40%.
O resultado desse embate entre rejeitados no segundo turno está ainda eivado de incertezas. Com certeza, admitindo-se como válida a hipótese de que os eleitores dos dois extremos vencedores manter-se-ão fieis aos seus candidatos de origem, restará aos eleitores postados mais ao centro, cuja quantidade não é desprezível, o veredicto final.
Segundo turno é sempre outra eleição. Polariza confrontos e antagonismos. Mas também é momento para acenos e pontes, naturalmente para aqueles que ainda não aderiram. Porém, tudo leva a crer que as campanhas estarão focadas no termômetro da rejeição e não em propostas e programas de governo. Mas, acima de tudo e de todos, que prevaleça a democracia.